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História da Legião Urbana
No início da história da banda Legião Urbana, bem no começo, estava o punk. Como nenhum começo é absoluto (o que existia antes do começo?), o punk era um princípio, digamos assim, arbitrário. Outros começos poderiam ser válidos: não seria absurdo citar as "Sun Sessions" de Elvis ou os gritos de "Love Me" dos Beatles como pontos de partida "alternativos". Mas foi o do-it-yourself, que está na base estética/política do punk, que motivou o aparecimento de um "movimento" de rock em Brasília no final dos anos 70, do qual saiu o banda Legião Urbana.

Ser punk em Brasília não era exatamente um ato de rebeldia. Impossível ser apenas rebelde quando se conhece, de cor e salteado (como os punks brasileiros conheciam), a história dos Sex Pistols. A rebeldia já tinha sido desmistificada como mais uma estratégia de marketing necessária para o bom funcionamento da Industria Cultural. Malcom McLaren apenas tornou evidentes os mecanismos de produção de ídolos rebeldes. Depois dos Sex Pistols, a rebeldia sem causa não deveria ter nenhum futuro. O que restava era a desilusão, e a possibilidade de ti- rar proveito de uma sociedade que precisa de ilusão (incluindo ídolos rebeldes) para sobreviver.

O "no future" dos punks acabou se mostrando cheio de consequências e de diferentes futuros. A cena pop internacional passou a funcionar na base de estilhaços de novos "movimentos" (muitos deles, seguindo o exemplo da turma dos Sex Pistols, apenas produtos de releituras ou revivals de momentos anteriores da história do rock), todos com direito aos seus 15 minutos de fama e hits. No primeiro dia de 1985, data em que a Legião Urbana lançou seu primeiro disco, o punk já era uma lembrança remota, o "New Wave" já havia se tornado um passado comprometedor, Ian Curtis já tinha se suicidado há quase 5 anos e o "Hardcore" já se cansava da tentativa desesperada de levar a rebeldia do punk a sério. A música da Legião Urbana só podia refletir esse fragmentado estado criativo, onde não existe mais qualquer cartilha a ser seguida e onde toda nova banda está condenada a reinventar, seguindo o exemplo dos Sex Pistols, sua própria história do pop.

"Será", a primeira canção do primeiro disco da Legião Urbana começa com os seguintes versos: "Tire suas mãos de mim / Eu não pertenço a você". Parecia uma declaração de princípios punks, autoritária e arrogante, onde o grito de independência pressupõe o corte de todos os laços (afetivos, de qualquer tipo de pertencimento) com o mundo ao redor e com as pessoas que vivem nesse mundo. Mas "Será" não é, nem de longe, uma re-edi ção irônica de "Sub-Mission" dos Sex Pistols. "Será" é o início do diálogo (com um "você" ambíguo, em constante metamorfose, que re-aparecerá em inúmeras outras músicas da Legião Urbana) e a primeira tentativa de construção de um outro mundo regído por princípios éticos pós-punks, que levem em conta (e ao extremo) a ausência de futuro e a descrença radical sobre o que passou.

"Será" é antes de tudo uma canção romântica (não foi por acaso que também fez sucesso na voz de Simone e no rítmo melodramático do pagode-suingue), tão romântico quanto a escrita do mais desesperado poeta romântico alemão, que também vivia o fim de um mundo. O sentimento predominante em "Será", e nas demais faixas do primeiro disco da Legião Urbana, não é a revolta, mas sim o desamparo ("Quem é que vai nos proteger?") e a necessidade urgente de criação de uma nova comunidade, sem depender de ninguém, já que ninguém nos protege.

Essa proposta (assim mesmo desesperada e desamparada) utópica da Legião já foi interpretada/acusada de messianismo. Pode ser o caso, mas trata- se certamente de um messianismo paradoxal ou radical (mesmo em seus momentos mais cristãos), um messianismo que não transmite a "boa pala- vra", mas sim o eterno retorno do "no future" como a nova ética, uma ética sempre descrente de seus princípios, da possibilidade de melhorar o mundo, ou da existência de alguma solução para qualquer problema. Solução? Em "Teorema" a própria idéia de solução é colocada de forma suspensa: "Não sabemos se isso é problema / Ou se é a solução". Tudo é (repito: por princípio) motivo para dúvida: "Se eu soubesse lhe dizer qual é a sua tribo / Também saberia qual é a minha" (Petróleo do Futuro); "Vivemos num planeta perdido como nós / Quem sabe ainda estamos a salvo" (Perdido no Espaço); "Qual é a diferença?" (Baader-Meinhof Blues); "Quem é o inimigo?" (Soldados); "Eu não sei mais o que / Eu sinto por você" (Ainda é Cedo).
O estar perdido (em qualquer espaço, e não apenas no Brasil), à deriva, também se reflete numa errância por vários estilos musicais pós-punk. Legião Urbana 1 é quase um álbum colcha-de-retalhos onde convivem vários ecos da fragmentação pós-punk. "A Dança" lembra o funk-punk do Gang of Four, "Ainda É Cedo" tem a melancolia do "Joy Division" e do primeiro "U2". A Legião Urbana gravou até um reggae e um "punk-básico" (mesmo na letra) como "Geração Coca-Cola" (composição do tempo do "Aborto Elétrico", primeiro grupo "punk" de Brasília, primeiro grupo musical de Renato Russo). Não era possível perceber, a partir desse disco de estréia, quais seriam os próximos passos musicais da banda.

Muitos pontos de vista musicais convivem em cada faixa. Muitas vozes conflitantes cantam cada letra. A Legião Urbana inaugura nesse disco todos os procedimentos poéticos que serão desenvolvidos nos próximos lançamentos. Muitas vezes quem canta é um personagem, que pode citar outros personagens. Outras vezes são contadas histórias sem que se saiba quem está no comando da narrativa. Não existe uma visão de mundo privilegiada, não existe ideologia unida, não existe futuro para quem não acredita em futuro.

Mas nada disso fica totalmente claro. Até porque a última canção desse disco coloca tudo, mais uma vez, de forma suspensa, tudo provisório, tudo parece estar aqui apenas "Por Enquanto". Não é só pela predominância dos sintetizadores (e não das guitarras elétricas, como nas outras músicas) que "Por Enquanto" é, de certa forma, desconsertante. O disco termina com uma declaração no mínimo inesperada: "Estamos indo de volta pra casa". Algo aconteceu entre o "tire as suas mãos de mim" e o "estamos indo de volta pra casa". Então existe uma casa, um local de repouso, uma utopia tranquila? Que casa é essa, onde ela fica, quem está indo de volta? Esta casa é o "nosso" futuro? Respostas nos próximos discos? Haverá próximos discos se encontrarmos a casa?

"Dois", o segundo disco da Legião Urbana, lançado em julho de 1986, não traz respostas óbvias. E as perguntas são "complexificadas". O disco começa com uma colagem sonora onde se escuta, em meio a outros ruídos e outras músicas, o seguinte trecho de "Será": "Brigar pra quê / Se é sem querer". Mas parece que alguma coisa mudou, porque as perguntas (e talvez a ausência de respostas e de um local de repouso no final da errância) não incomodam tanto, porque foi descoberta uma maneira de se conviver — pacificamente — com a perplexidade: "Ainda estou confuso / Só que agora é diferente / Estou tão tranquilo / E tão contente" ("Quase Sem Querer"). Parece que foi encontrado um antídoto contra a maldade e o erro, quase como se a resposta procurada fosse a resignação: "Nada mais vai me ferir / É que eu já me acostumei / Com a estrada errada que segui / E com a minha própria lei" (Andrea Doria).

Mas a resignação não é tudo. Em "Dois" torna-se mais clara uma outra faceta inesperada, principalmente levando em consideração sua origem punk: uma "vontade" de religião e piedade. Em Baader-Meinhof Blues, no primeiro disco, já aparece um vestígio de sentimento cristão; critica-se uma sociedade para a qual "amar ao próximo é tão demodé". Mas em "Dois" o que estava submerso em metáforas e ironias vem à tona; sua primeira faixa, logo a mais "explicitamente" sexual, tem um título bíblico: Daniel na Cova dos Leões. Em "Fábrica", logo a mais punk (coloca-se de lado a indignação de "Metrópole") e a Legião canta: "Nosso dia vai chegar" e "Quero justiça".
"Se o mundo é mesmo parecido com que vejo, prefiro acreditar no mundo do meu jeito. E você estava esperando voar, mas como chegar até as nuvens com os pés no chão?"
Renato Russo (1960-96) e as letras, roteiros e textos que escreveu, as roupas que vestiu, os discos que ouviu, os livros que leu, a família e os fãs que deixou. A vida de um dos maiores ídolos da música brasileira ganha uma exposição inédita no Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília, terra natal da Legião Urbana.

Como ainda são remotas as chances de essa mostra viajar por outras cidades do Brasil, a reportagem do Folhateen foi até lá para trazer aos fãs um pouco da sensação que é ver de perto detalhes desconhecidos de Renato Russo, morto, há oito anos, em decorrência da Aids.

Intitulada "Renato Russo Manfredini Jr.", a exposição foi idealizada pela família do cantor e teve curadoria da irmã dele, Carmem Teresa Manfredini, 41, e da amiga Renata Azambuja, 39. As duas recriaram nas salas redondas do espaço do CCBB dois ambientes diferentes. No andar térreo, está uma linha do tempo que se inicia em 1960, quando Renato nasceu, mas não termina em 1996.

"Renato não parava de produzir. Há projetos de livros, roteiros de filmes para o cinema, livros e até uma peça curta, que ele escreveu para ser encenada por estudantes e se chama "A Verdadeira Desorganização do Desespero", que pretendemos montar no futuro", conta Carmem, que quer que a mostra faça duas homenagens, uma ao irmão e outra ao pai, morto no último dia 9 de fevereiro.

É impressionante ver a organização de Renato, que guardou tudo o que escreveu em sacos de plástico e envelopes. Sorte a dos fãs, que podem acompanhar desde redações da escola até o processo de composição das letras, a maioria escrita a mão, em ótima caligrafia.

A astrologia, verdadeira paixão desse ídolo, é bem representada logo na entrada do lugar, que traz pintado no teto o céu no momento em que Renato nasceu, às 4h01 do dia 27 de março de 1960.

No subsolo do espaço, foi recriado o apartamento do cantor, na rua Nascimento Silva, em Ipanema, no Rio. É muito legal invadir a privacidade de Renato Russo e ver de perto os objetos de decoração, como o pote de jujubas, um verdadeiro vício dele, fotos de álbuns de família, retratos 3x4, roupas compradas em viagens aos EUA, revistas, coleção de postais do fotógrafo David LaChapelle e de pin-ups, desenhos de personalidades como John Lennon e Jesus Cristo, os óculos que ele usava e todo o material da banda imaginária 42nd Street Band, com entrevistas, reportagens a até o futuro desse grupo que existiu apenas na cabeça misteriosa de Renato Russo.

No centro disso tudo, está o escritório, ou seja, o lugar onde ele exercitava sua criatividade e escrevia a maioria de suas composições. A coleção de livros, os mais de 2.000 CDs, discos de vinil, pôsteres dos filmes "Betty Blue" e "A Lei do Desejo", enfim, tudo o que habitava a mente de Renato Russo.

É claro que muita coisa ficou de fora. "A idéia é criar um memorial, um espaço onde toda a obra de Renato Russo esteja exposta o tempo todo. O lugar ainda terá estúdios de gravação musical de aluguel barato, um palco, oficinas de artes, teatro, cinema e literatura", conta Carmem.

Fiquei com mais orgulho de meu pai",
diz filho de Renato Russo GIULIANO MANFREDINI

Eu pensava que não seria uma coisa muito grande, mas depois que eu fui lá e conferi a exposição fiquei maravilhado com o que eu vi. Para mim a exposição foi uma coisa maravilhosa que aconteceu, pois os fãs de Renato Russo e Legião Urbana estavam para baixo e eu não estava escutando a música de meu pai nas rádios de Brasília como antes. Portanto esta mostra foi uma coisa muito boa não só para mim, mas para todos da minha família.

A exposição tinha coisas que eu nem pensava que existiam ou objetos que eu pensava que estavam perdidos. São coisas valiosas para mim e para todas as pessoas, fãs e familiares.

Eu fiquei muito feliz quando soube que meu pai fazia brincadeiras comigo das quais eu nem me lembrava.

Na galeria do Centro Cultural do Banco do Brasil eu vi parte do material do meu pai que me fez lembrar o que eu já havia esquecido e ter mais orgulho dele.

Às vezes nós só damos valor quando perdemos as pessoas mais próximas, por isso dêem valor ao que vocês têm, porque o para sempre sempre acaba.

As Quatro Estações ao Vivo
As Músicas

Disco 1

 
Fábrica
 Daniel Na Cova Dos Leões
 O Reggae
 Há Tempos
 Meninos E Meninas
 Pais E Filhos (Stand By Me)
 Maurício (She Loves You)
 Feedback Song For A Dying Fried
 1965 (Duas Tribos)
  Monte Castelo
 Se Fiquei Esperando ...
 

Disco 2

 Ainda É Cedo
 Geração Coca-cola
  Eu Sei
 Angra Dos Reis
 Tempo Perdido
 Soldados (Help/Ball And Chain)
 Quase Sem Querer
 Será
 Índios
 Faroeste Caboclo - Bônus
Sobre o Disco

Um dos melhores shows que a extinta Legião Urbana fez em sua carreira acaba de ser lançado em CD. "As Quatro Estações Ao Vivo" é um verdadeiro presente para os fãs antigos que curtiram a banda ao vivo e uma oportunidade única para os novos fãs conhecerem o impagável Renato Russo no palco.

O guitarrista Dado Villa-Lobos se encarregou da produção e selecionou as melhores faixas dos dois dias de shows realizado no Palestra Itália, quando mais de 100 mil legionários lotaram o estádio do Palmeiras e elevaram a Legião Urbana como a maior banda do rock brasileiro da época. O disco sai em duas versões, uma simples, com 16 faixas e o duplo com 21 canções. A gravadora, a pedido da família de Renato Russo, já cogita o lançamento de uma terceira versão, também dupla, mas com todas as falas do vocalista entre as músicas (que foram editadas) e com um encarte mais rico, com mais fotos e um texto ambientando os shows e o fim da década de 80.

O disco duplo começa com a música Fábrica e já emenda com Daniel na Cova dos Leões, duas músicas do disco Dois. O Reggae é a última música dos álbuns anteriores, depois começa a seção "As Quatro Estações". Há Tempos, Meninos e Meninas, Pais e Filhos (versão diferente da editada no disco Música para Acampamentos), Maurício (onde Renato canta um trecho de She Loves You, dos Beatles), Feedback Song For a Dyind Friend. Uma das músicas que mais ficaram bonitas é, sem dúvida, 1965 (Duas Tribos) onde Bonfá termina tocando um pandeiro, num trecho acústico. O final da música é pauleira pura. Um momento único. Logo depois êxtase do público: Monte Castelo e encerrando a primeira parte Se Fiquei Esperando Meu Amor Passar.

O segundo disco é totalmente dedicado aos clássicos. Logo na primeira música uma versão épica de Ainda é Cedo onde covers de Rolling Stones e Elvis entram nos longos 9:45 da faixa (no primeiro dia, que não está no CD, Renato canta Like A Prayer, da Madonna). Em seguida a Legião toca Geração Coca-Cola, Eu Sei, uma belíssima versão de Angra dos Reis, Tempo Perdido, Soldados, Quase sem Querer (também estreando num disco ao vivo), Será, "Índios" e termina com Faroeste Caboclo com o público cantando mais alto do que os amplificadores do estádio.



Re-volucionando...


O Espetáculo R-evolução Urbana, a lenda do rock, estreou no dia 21 de maio em São Paulo e promete levar os fãs da Legião Urbana de volta no tempo. São 23 músicas de Renato Russo executadas ao vivo por uma ótima banda que promete levantar o público em todas as apresentações.


Sobre

A peça conta a história de um lugar chamado Província Central. Há algum tempo um grupo de militares e civis conservadores tomou o poder e baniu qualquer tipo de manifestação democrática. O ideal desse grupo, liderado pelo Grande Comandante (Antonio Abujamra), é apagar a história para poder dominar a massa popular mais facilmente.

Depois de banidos de Província Central, um grupo de jovens funda Os Cavaleiros da Colina, com o objetivo de derrotar a nobreza provinciana e seus ideais. Fã de Sex Pistols e The Clash, Eric Russel (Luiz Pacini), que trabalha para uma entidade do governo que visa acabar com a palavra, vai em busca de uma nova turma e se junta aos Cavaleiros da Colina. Durante anos, os conflitos entre a Província e a Colina se intensificam, até o dia em que os Cavaleiros, liderados por Eric Russel, se vêem em um impasse: seguir adiante e tomar o poder da Província Central ou ir em busca de Utopia, a cidade perdida.

Segundo Marcos Ferraz, a Província representa o Planalto Central, os cavaleiros, os punk-rockers, e a Turma da Colina, as bandas que saíram de Brasília para fazer história no País. “No lugar de armas, fazemos uma guerra de canções”, diz.

A peça é inteiramente baseada na obra de Renato Russo, porém não como uma biografia, expondo fatos da vida pessoal do cantor. “É cedo para realizar um espetáculo biográfico porque o Renato ainda está vivo na memória de todos. Optamos por contar a história do eu-lírico dele, ou seja, daquele personagem que percebe um mundo errado e tenta modificá-lo. E esse personagem permeia todas as canções da Legião”, afirma o dramaturgo Marcos Ferraz.

O espetáculo conta com 23 músicas da Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude, tocadas ao vivo por cinco atores-músicos, que se revezam, e o baterista Alja, fixo. Segundo os diretores musicais Paulo Marchetti e Johnny Monster, as 23 canções de Renato foram escolhidas tomando como ponto de partida a fase inicial da Legião Urbana, mais contestadora e mais influenciada pela estética punk, que era a estética musical que transparecia nas músicas dos grupos que surgiam em Brasília nos anos 80.
O LIVRO DOS DIAS

 

Ausente o encanto antes cultivado

Percebo o mecanismo indiferente

Que teima em resgatar sem confiança

A essência do delito então sagrado 

Meu coração não quer deixar

Meu corpo descansar

E teu desejo inverso é velho amigo

JÁ que o tenho sempre a meu lado 

Hoje estão aceitas pelo nome

O que perfeito entregas mas é tarde

Só daria certo aos dois que tentam

Se ainda embriagado pela fome 

Exatos teu perdão e tua idade

O indulto a ti tomasse como bênção 

Não esconda tristeza em mim

Todos se afastam quando o mundo está errado

Quando o que temos é um catálogo de erros

Quando precisamos de carinho

Força e cuidado 

Este é o livro das flores

Este é o livro do destino

Este é o livro de nossos dias

Este é o dia dos nossos amores

Rapper recria `Pais e Filhos', grande sucesso do Legião, que será a

Por: Pedro Landim, do Jornal O Dia
Madrugada em Carangola (MG) e Gabriel termina letra do novo CD
pensando em incluir a voz de Renato Russo cantando o refrão de
Pais e Filhos. "Foi quando um carro de som anunciou na
rua um cover do Legião, tocando: `é preciso amar as
pessoas. Só de lembrar me arrepio", conta Gabriel, o
Pensador. Letra contundente sobre violência urbana,
Palavras Repetidas, cujo título também faz referência a Renato,
é a música de trabalho do CD Cavaleiro Andante, o sétimo
do rapper.
"Foi emocionante. Samplear o Renato, grande referência para
mim, é uma responsa", diz Gabriel, que concluiu a letra
na cidade natal da mulher, Ana. "Achamos que tinha tudo a ver
colocar o refrão de Renato como um alívio na letra que fala da
angústia de querer seguir adiante mantendo a fé, sem perder a
sensibilidade e a capacidade de amar", conta o rapper. "Comentei com
o Dado Villa-Lobos e ele me deixou à vontade", acrescenta.
Pensador no nome e nas letras extensas e elaboradas, como são
as do trovador Renato Russo, Gabriel não obteve apenas a
aprovação do guitarrista do Legião, mas também dos fãs da mais
importante banda do rock brasileiro. "Estamos discutindo a letra de
Gabriel e a maioria gostou. Ele fez a coisa bem-feita e com
respeito. Não é para qualquer um", diz Sidnei Inácio, 26 anos, do fã-
clube Filhos da Revolução, o maior do Brasil, com sete mil membros
cadastrados.
Bruno, vocalista do Biquíni Cavadão, que gravou com
Renato em 1986 a canção Múmias e depois resgatou a voz do
ídolo em 2001, na regravação, opinou: "Era como se o Renato
estivesse presente e o mesmo vai acontecer no CD do Gabriel, que foi
oportuno, não oportunista". Em 2005 são comemorados 20 anos do disco
Legião Urbana, o primeiro, e Gabriel deixará gravada sua
homenagem revivendo voz e estilo de Renato Russo. Sexo diz, presente
A música Palavras Repetidas começa com ruídos de sirenes
e helicópteros e traz Gabriel em sua melhor forma. Antes do
ataque emocionante de Renato Russo, a letra diz coisas
como: "Tá vendo a nossa vida valendo nada / tô vendo, chovendo
sangue no meu jardim / tá lindo o sol caindo, que nem granada / tá
vindo um carro-bomba na contramão". O clipe do rap começa a ser
gravado na segunda-feira.

Eu era um lobisomen juvenil
Luz e sentido e palavra
Palavra é que o coração não pensa
Ontem faltou água
Anteontem faltou luz
Teve torcida gritando quando a luz voltou
Não falo como você fala
Mas vejo bem o que você me diz
Se o mundo é mesmo parecido com o que vejo
Prefiro acreditar no mundo do meu jeito
E você estava esperando voar
Mas como chegar até as nuvens com os pés no chão?
O que sinto muitas vezes faz sentido
E outras vezes não descubro o motivo
Que me explica porque é que não consigo
Ver sentido no que sinto, o que procuro
O que desejo e o que faz parte do meu mundo
O arco-íris tem sete cores
E fui juiz supremo
Vai, vem embora . Volta
Todos tem, todos tem suas próprias razões
Qual foi a semente que você plantou?
Tudo acontece ao mesmo tempo
Nem eu mesmo sei direito o que está acontecendo
E daí, de hoje em diante
Todo dia vai ser o dia mais importante
Se você quiser, alguém prá ser isso seu
É isso não se esquecer: estarei aqui
Não digo nada, espero o vendaval passar.
Por enquanto eu não sei
O que você me falou me fez rir e pensar.
Porque estou tão preocupado por estar tão preocupado assim?
Mesmo se eu cantasse todas as canções
Todas as canções, todas as canções
Todas as canções do mundo
Sou bicho do mato mas...
Se você quiser alguém prá ser isso seu
É só não se esquecer: estarei aqui
Ou então não ter jamais a chave do meu coração

"Labirinto"

Autor: J[essika Alves

Buscar na Web "J[essika Alves"

Quando: 20/04/2005

Para iteragir com o mundo é preciso entender a sua linguagem, penetrar na sua alma e descobrir o que há por trás do conhecimento, do seu conhecimento, é representar seu mundo para os outros é participar do mundo como um todo. Represento meu mundo atravéz de poesia e reservei esta entre tantas outras para o grupo, espero que gostem:

Labirinto
As palavras que semeiam estes versos
São palavras tristes e bulcólicas como a lágrima
Procuram o lugar certo
Nessa rima alternada


A palavra que em minha alma brota
Reflete a sujeira que está presente
Nesse medo frio e fremente
Congela meu coração

E meus tropeços no escuro
Na solidão da hipocrisia
Misturado com orgulho
Que destorce a poesia

Já não vou me abrigar na esperança
Mesmo sabendo que é a última que morre
Já não sinto ares de mudança
Vejo a felicidade fugir das minhas mãos
Jéssika








SAIN CÁSSIA’S BLUES
Cássia Eller tem o espírito livre e uma voz única no cenário nacional
- não só quando canta mas também por sua atitude em relação ao mundo
e ao seu trabalho. “Não gosto de corrigir as pessoas”, é praticamente
a primeira coisa que ela me diz.
Estamos em uma cantina italiana na Barra, onde faremos nossa
entrevista. É perto de sua casa, um espaço amplo e confortável onde
estão seus discos e livros, seu estúdio e instrumentos: ela respira e
vive música 24 horas por dia. E também seu amor por Francisco, seu
filho, e Eugênia, com quem está junto há oito anos quase.
“Prefiro não falar muito sobre isso”, ela diz com seriedade e, ao
mesmo tempo, com bom humor. Aliás, a primeira impressão que se tem é
de que ela prefere não falar sobre nada em especial. Tudo é simples e
sem complicações para Cássia, que, de menina tímida e meio
“bicho-do-mato”, como ela mesma se descreve, transforma-se em uma
torre de força quando canta, eletricidade pura para todos os lados.
Na adolescência divida os estudos com aulas de canto operístico - era
ela quem cuidava dos três irmãos mais novos, tocava surdo num grupo
de samba e cantava no Massa Real, um trio elétrico, tudo isso em
Brasília.
Agora ela está mais serena: o nascimento de Francisco mudou tudo. “O
que mudou mesmo foi a minha disciplina. Não tinha nenhuma, agora eu
respeito os horários, trabalho num esquema certinho”, ela diz e
completa: “Este novo disco já é um sinal disso”. Ela não esconde de
ninguém que a experiência da maternidade foi e é uma influência forte
na música que faz agora.
A verdade é que Cássia Eller está sendo reconhecida como a excelente
e versátil cantora que é: do blues ao samba, do rock ao soul. E isto
sem perder a identidade ou sua força (que é imensa). O novo disco,
intitulado “Cássia Eller”, simplesmente, é um grande passo em sua
carreira, elogiadíssimo pela crítica e já seu maior sucesso de
vendas, o trabalho permite um espaço maior para respirar: não só a
Cássia cult, roqueira, cantora de blues, mas Cássia Eller, ela mesma.
“Eu queria fazer um disco mais popular, para um público maior”. E ela
conseguiu um repertório de primeira, desde uma inédita de Cazuza,
Malandragem, “o que foi bom demais da conta”, como ela mesma diz
sorrindo, até Try a little tenderness, de Otis Redding, um dos pontos
altos do disco.
“Consegui juntar desde o rock dos anos 80 a Ataulfo Alves, Raul
Seixas, Tim Maia... O que eu quero agora é voltar logo para o palco.
Rendo muito mais ao vivo do que no estúdio, com as máquinas, me dá
meio uma vergonha... No palco eu me solto, adoro cantar ao vivo, é o
que mais gosto”. E mais: “Nesse tempo todo já sei melhor como
funciona a questão dos direitos autorais, lidar com a gravadora, as
fotos, as entrevistas, vídeo-clips... É muita coisa”.
E ela deixa acontecer porque sabe que talento não se mede em
porcentagem. Ela é muito leal e firme no que acredita e realmente não
interfere ou tenta controlar o que lhe aparece pela frente.
“Quem sou eu para dizer como as pessoas devem viver suas vidas. Eu
sou livre, não é fácil, mas eu sei em que acredito e espero sempre
que todo mundo tenha seu espaço e suas vidas - as pessoas complicam
um pouco as coisas e, olha, não precisa. Eu não fico corrigindo os
outros, eu deixo as coisas rolarem”.
E ela ri, sabendo que este talvez seja o melhor controle, a
estratégia mais inteligente, a atitude mais bonita: simplesmente ter
honestidade e coragem para acreditar em sim mesma e enfrentar muito
trabalho, o que não é para qualquer um.
Ela se esconde um pouco, acha um pouco de graça em tudo, é séria, tem
um olhar belíssimo que lembra a índia cantada naquela guarânia antiga
e sua timidez disfarça um pouco o quanto é bonita.
Meninos e meninas, Cássia Eller é uma deusa!

*Introdução da entrevista que Renato Russo fez com Cássia Eller, para a
revista ‘SuiGeneris’/ Correio Braziliense, 12 de fevereiro de 1995.

"cassia por renato"

Autor: Chris

Buscar na Web "Chris"

Quando: 11/03/2005

Para mim, Renato Russo e Cássia Eller se completam....ela era a força e ele o espírito, ela era a atitude e ele o planejamento, ele era a cultura e ela o popular. Se Cássia Eller se identificava com o jeito de escrever de Nando Reis, com as letras de Renato Russo não era diferente. Era uma intensidade ao cantar que lembra uma guerreira. Mas a imagem que tenho de Cássia Eller é a do pássaro Fênix....que sempre ressurgia das cinzas.

Guitarrista da Legião Urbana no cinema
Dado Villa Lobos, ex-guitarrista da LEGIÃO URBANA, compôs a trilha do filme "Bufo & Spallanzani" que foi premiada no último Festival do Cinema Brasileiro de Miami. Na semana passada ele gravou o clipe da música "Dentro de ti" que é o tema de abertura. O filme de Flávio Tambellini , tem estréia prevista para esse mês.
(colaborou: Carolina Oliveira
Exposição e CD realimentam o mito de Renato Russo
PEDRO ALEXANDRE SANCHES
da Folha de S.Paulo

Vai começar tudo outra vez. O culto a Renato Russo (1960-96) volta a ganhar corpo, à custa de mais um lançamento da Legião Urbana e de uma grande exposição em Brasília, terra natal da banda do artista que completaria 44 anos no próximo sábado.

O disco, sexto produto póstumo com a assinatura de Renato Russo, recupera um show da banda no Parque Antarctica, em São Paulo, na turnê do disco "As Quatro Estações" (89). Sai no final deste mês, pela gravadora EMI.

A mostra, que será aberta no próximo dia 5, faz um inventário da vida de Renato por meio de manuscritos, fotos de família, vídeos caseiros etc. Uma das curadoras é Carmem Teresa Manfredini, 41, irmã do artista. A outra é Renata Azambuja, 39, artista plástica e professora da Universidade de Brasília, que diz nortear seu trabalho numa tentativa de relativizar o mito em torno de Russo. "Minha linha é não trabalhar com o mito, eu me distancio disso."

Carmem, que gerencia o patrimônio do irmão a partir da morte do pai de ambos, neste mês, também busca o afastamento. "Já pensei muito sobre isso, nossa família nunca foi de mitificar o Renato. Fomos sempre modestos, para nós ele era só o Júnior."

Ela relembra a morte de Renato, há oito anos, em decorrência da Aids. "Eu e meus pais pensamos, juntos: 'Daqui a um ano ele vai estar esquecido'. Para nossa surpresa, o mito aumentou, duplicou. Acho que as pessoas elegem e criam seus mitos. Mas não queremos mitificá-lo na exposição."

O mito não pára de crescer, entretanto, até adquirindo contornos necrófilos em certas ocasiões. A família aprovou, por exemplo, o lançamento de "Renato Russo Presente" (2003), que acolhia material não concluído e de baixa qualidade técnica. "O próprio Renato falava que gostava de coisas meio piratas, toscas de outros artistas. Não pensamos no aspecto financeiro, mas na continuidade da obra", defende Carmem.

Ela diz, mesmo assim, que a vigilância da família é constante. "A primeira coisa que perguntei quando recebi a correspondência da EMI falando do projeto para o novo disco foi qual era o propósito. Defendi que mantivessem as falas do Renato no show, se cortassem, não teria originalidade."

Os ex-colegas de banda Dado Villa-Lobos, 39, e Marcelo Bonfá, 39, defendem o lançamento de "As Quatro Estações ao Vivo".

"É bem verdade que poderíamos não ter autorizado esse lançamento da EMI, o que não foi o caso", diz Bonfá. "Na minha opinião, todos os trabalhos da Legião Urbana que ainda não foram mostrados ao público podem e devem ser lançados, depois, é claro, que tiverem sido analisados por mim e pelo Dado." Para Villa-Lobos, "a idéia de lançamento desse disco veio da EMI e foi bem recebida como uma boa idéia, de conteúdo e valor histórico".

"Enquanto essa relação continuar assim, vamos lá. Caso contrário, eles sabem como nos comportávamos quando contrariados. Na época pichávamos as dependências da gravadora. Agora, em fase adulta, a gente chama os nossos 50 advogados", completa.

Dado, que faz questão de ressaltar que não tem nada a ver com a mostra de Brasília, não dispensa certo tom crítico em relação ao material que não passa por sua autorização. "Jamais enquanto artista e membro fundador do conjunto eu permitiria o canibalismo predatório do repertório da Legião, o que acho que não valeu para o repertório do Renato. Dois discos mais sobra viraram uns oito discos diferentes", exagera.

Mesmo que exageros e abusos assediem todos os lados da história, as curadoras da mostra tentam avançar na compreensão do mito. Diz sua irmã: "Renato sempre foi muito honesto com a mídia e consigo mesmo. Ele era gay, pansexual, era alcoólatra, dependente químico, mas declarava tudo isso, ele mesmo. E havia também toda a parte espiritual dele, de dizer 'Deus é meu guia' e tal".

Renata Azambuja adiciona outros ingredientes sedutores para o público: melancolia e culpa. "Renato era muito 'blue'. Tentou se matar, cortou os pulsos e escrevia sobre isso", afirma. "Tinha uma culpa, que acho que era cristã."

Renata evidencia o que pode ser um dos destaques da mostra, o material manuscrito em que o Renato Russo adolescente sonhava-planejava sua futura banda.

"Ele listava todas as supostas turnês do grupo, fazia a árvore genealógica das formações, criava notícias de jornal do tipo 'por que Jeff Beck saiu da banda'."

Renato Russo já sabia do mito, muito antes de ele existi
Ex-parceiros de Renato Russo criam CDs solo
PEDRO ALEXANDRE SANCHES
da Folha de S.Paulo

Perseguidos pelo mito e atores dele, os ex-colegas de Renato Russo na Legião Urbana ainda tentam se descolar e seguir adiante. Ambos prometem entregar discos solo ao público neste ano.

O do baterista Marcelo Bonfá já está na fábrica e sai concomitantemente com o da Legião, ainda neste mês. Independente, chama-se "Bonfá + Videotracks" e será distribuído pela EMI. É o segundo CD solo do músico, que em 2000 lançou "O Barco Além do Sol".

"Todas as músicas foram compostas por mim e letradas por mim e por Gian Fabra. Eu e Carlos Trilha gravamos e mixamos em 2003, no meu estúdio. Canto, toco baixo, bateria e sintetizadores", conta Bonfá.

O guitarrista Dado Villa-Lobos, que hoje é também produtor musical e manteve nos anos 90 o selo Rockit, já fez trilhas sonoras para filmes, mas só agora estreará como artista solo e cantor.

"Agora é definitivo, ou vai ou racha. Serão 13 faixas com os mais diversos parceiros: Paula Toller, Humberto Effe, Carlos Laufer, China, Fausto Fawcett", explica.

"O formato musical varia do básico violão, percussão e voz ao esporro semi-eletrônico tipo The Jesus and Mary Chain", completa.

Seu disco, co-produzido por Carlos Laufer, deve sair ainda neste ano, mas ainda não há data certa. Segundo o empresário Rafael Borges, a negociação para o lançamento do disco independente de Dado ainda está sendo feita.

De todo o espólio da Legião, Borges hoje só mantém ligação comercial com o trabalho de Villa-Lobos.

Novo disco ao vivo registra a Legião Urbana no auge
VOCÊS ESTÃO PRONTOS?

Por Eduardo Toledo *

Um dos melhores shows que a extinta Legião Urbana fez em sua carreira acaba de ser lançado em cd. As Quatro Estações Ao Vivo é um verdadeiro presente para os fãs antigos que curtiram a banda no palco e uma oportunidade única para os novos fãs conhecerem a performance de Renato Russo no auge.



O guitarrista Dado Villa-Lobos se encarregou da produção e selecionou as melhores faixas dos dois dias de shows realizados no Estádio do Palmeiras, quando mais de 100 mil legionários lotaram o local e elevaram a Legião Urbana à condição de maior banda do rock brasileiro da época. O disco sai em duas versões: uma simples, com 16 faixas e uma dupla, com 21. A gravadora, a pedido da família de Renato, já cogita o lançamento de uma terceira versão, também dupla, mas com todas as falas do vocalista entre as músicas (que foram editadas) e com um encarte mais rico, com mais fotos e um texto ambientando os shows e o fim da década de 80.



O disco duplo começa com a música “Fábrica” e já emenda com “Daniel Na Cova Dos Leões”, duas músicas do disco Dois. “O Reggae” é a última música dos álbuns anteriores. Depois começa a sessão As Quatro Estações: “Há Tempos”, “Meninos E Meninas”, “Pais E Filhos” (versão diferente da editada no disco Música Para Acampamentos), “Maurício” (onde Renato canta um trecho de “She Loves You”, dos Beatles), “Feedback Song For A Dyind Friend”. O segundo disco é totalmente dedicado aos clássicos. Logo na primeira música, uma versão épica de “Ainda É Cedo”, em que covers de Rolling Stones e Elvis pintam nos longos 9 minutos e 45 segundos da faixa (no primeiro dia, que não está no cd, Renato canta “Like A Prayer”, da Madonna). Em seguida, a Legião toca “Geração Coca-Cola”, “Eu Sei”, “Angra dos Reis”, “Tempo Perdido” e “Quase Sem Querer” (ambas estreando num disco ao vivo) e termina com “Faroeste Caboclo”, quando o público cantou mais alto do que os amplificadores do estádio.



Os shows aconteceram nos dias 11 e 12 de agosto de 1990 e os fatos que cercaram as apresentações influenciaram muito. Era a primeira turnê sem a presença do baixista Renato Rocha e, por isso, Renato, Dado e Bonfá decidiram convidar três músicos de apoio. Foram chamados Fred Nascimento (violões), Bruno Araújo (contrabaixo) e Mú Carvalho (teclados).



As Quatro Estações foi lançado em novembro de 1989 e quase todas as 11 faixas chegaram a tocar nas rádios do país nos meses seguintes. A Legião Urbana era a banda do momento e Renato Russo o líder de toda uma geração. A devoção dos fãs nas duas apresentações de São Paulo foi algo que surpreendeu até mesmo os músicos. O show acontecia no primeiro ano do Governo Collor, meses depois do confisco da poupança e de toda a grana depositada nas contas correntes dos brasileiros, inclusive do próprio Renato.



A edição final do CD lançado pela EMI omitiu algumas falas do cantor. Durante a música “O Reggae”, Renato faz uma de suas improvisações e, cantando no mesmo ritmo da canção, começa a dizer, bem raivoso: "A minha prima diz que o presidente é um tesão. A minha prima diz que o presidente é bonitão. Eu não sei, não. Inflação zero só se for na casa deles. A Zélia deve ser virgem. Tá com a aliança no dedo. Ela devia é enfiar aquele dedo naquele lugar. Bem, eu não vou nem falar o resto que a gente sabe, hein? Já me disseram que o presidente sabe faz o que? Eu não falei nada". Infelizmente, os fãs ficaram sem esse momento histórico da banda.



Os fãs também não vão escutar no disco as músicas “Quando O Sol Bater Na Janela Do Teu Quarto” e “Eu Era Um Lobisomem Juvenil”. Segundo Marcelo Fróes, representante artístico da família de Renato Russo, estas músicas estavam sendo executadas no momento em que as fitas de 24 canais precisaram ser trocadas no gravador. “Os tapes tinham em média 40 minutos de duração cada e essas faixas ficaram mutiladas”.
Por esse mesmo motivo, a canção “Se Fiquei Esperando O Meu Amor Passar” precisou ser extraída do show realizado 15 dias depois, no Estádio Mineirinho. “Como no show de Belo Horizonte a ordem havia sido outra, eu sugeri que eles pegassem o registro do show de Belo Horizonte. Isso resolveu um problema e o disco passou a ser um registro da turnê, não apenas do show de São Paulo”, justifica Fróes. O set list dos dois shows foi bem diferente, por isso a gravadora preferiu não seguir no cd a mesma ordem que elas foram tocadas nos shows.



O guitarrista Dado Villa-Lobos disse que não acredita que essas mudanças tenham desfigurado as apresentações da banda. “Nós trabalhávamos com improviso e intuição. Cada apresentação tinha um sabor especial. Esse disco é o registro do As Quatro Estações ao vivo, não especificamente o show do Palestra Itália”, afirma.



O que não se pode negar é o esforço da edição do cd para que ele soasse bem atual. No início do disco, antes de qualquer coisa, Renato grita: “Nenhuma guerra pode ser santa!”. Em “1965 (Duas Tribos)”, após um esporro que cortou a música na metade, esbraveja: “Eles gastam mais dinheiro com propaganda do que comprando comida para quem precisa”.



Apesar de não ser tão documental quanto o disco ao vivo anterior, Como É Que Se Diz Eu Te Amo, lançado em março de 2001, o show do Palestra Itália é infinitamente melhor. Para o fã Roberto Carvalho, que foi nas duas apresentações, Renato estava inspirado. “Ele parecia muito feliz, ria a toda hora e não perdia a oportunidade de dar seus sermões. Sei lá, parecia um irmão mais velho em cima do palco cantando as músicas que embalaram a minha adolescência”, relembra.



Uma curiosidade desse show é que Renato confessa que “Pais E Filhos” foi feita no banheiro. “Eu não me envergonho de cagar, eu não me envergonho de mijar”, disse. Outra polêmica envolvendo a canção é que pouco antes dos shows da Legião em São Paulo, o vocalista da banda Inimigos do Rei, Paulinho Moska, havia declarado que a música deles, “Uma Barata Chamada Kafka”, era tão ou mais importante do que “Pais E Filhos”. Renato deu o troco introduzindo o sucesso da Legião assim: “Essa música é dedicada a todas as pessoas que acham que uma barata é mais importante do que as pessoas que a gente ama”.



Se você foi aos shows da Legião Urbana no Palestra Itália provavelmente vai “se procurar” nas fotos do minguado encarte. Não perca tempo. Todas as imagens que ilustram o projeto gráfico, criado por Barrão e Fernanda Villa-Lobos, esposa de Dado, foram tiradas do show em Volta Redonda, no Rio, em novembro do mesmo ano. Segundo Fróes, A família solicitou que fossem utilizadas fotos do show no encarte. “A EMI encontrou pouquíssimo material e o pessoal que fez a capa não gostou do que apareceu, razão pela qual optaram por imagens extraídas de filmagens do show da banda em Volta Redonda”.



O encarte informa que os shows aconteceram nos dias 10 e 11. Na verdade as apresentações na capital paulista foram nos dias 11 e 12, um erro que a gravadora deve consertar quando o encarte for reimpresso. Uma coisa que ficou mal explicada foi a faixa bônus do disco duplo. A música “Faroeste Caboclo” entra após 10 minutos de silêncio, uma verdadeira tortura para quem quer escutar a música. Só correndo a faixa para frente!



As Quatro Estações Ao Vivo praticamente acaba com a possibilidade de lançamento da caixa com material inédito, covers e outras versões de músicas neste ano. Ao que tudo indica, a EMI vai esperar até 2006, quando completará 10 anos da morte de Renato Russo, para colocar no mercado o tesouro aguardado pelos fãs. O processo de catalogar todo o material inédito já foi encerrado.



Para este ano ainda está previsto o lançamento de um livro com letras inéditas de Renato Russo e provavelmente o tão esperado songbook oficial da Legião. Mas tudo isso ainda não está confirmado e nem existem datas. O que é certeza é que no começo de maio sai o novo disco solo do baterista da Legião, Marcelo Bonfá. E no segundo semestre, o disco de estréia de Dado Villa-Lobos.


Multimídia
As Quatro Estações - Ao Vivo - CD 1
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Fábrica
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1965 (Duas Tribos)
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Se Fiquei Esperando Meu Amor Passar
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Em vídeo/dvd, existe uma idéia da gravadora de fazer uma coletânea dos clipes, mas a família Manfredini ainda não foi informada oficialmente e o projeto não tem previsão de lançamento. Ao contrário do que muitas pessoas afirmaram, o show do Metropolitan, em 1994, foi gravado, sim, em vídeo na íntegra e pode sair em dvd.



Marcelo Fróes confessou que o acervo pessoal de Renato Russo permite alguns novos lançamentos, pois existem muitas demos acústicas das músicas que ele fez sozinho e rascunhos no teclado eletrônico. “A versão original de ‘Vamos Fazer Um Filme’, em inglês, lembra muito Pet Shop Boys”, garante.

*Editor do site O Sopro do Dragão (www.osoprododragao.com.br)
Marcelo Bonfá comenta seu novo projeto solo
Confira abaixo o comunicado enviado à imprensa por Marcelo Bonfá, ex-baterista do Legião Urbana, sobre seu novo CD/DVD, "Bonfá+Videotracks", parceria do músico com diversos videomakers.

Depois de ter finalizado o que seria o meu novo álbum, eu, como músico e compositor, estava ansioso para mostrar o trabalho para todo mundo. Entretanto,com alguma visão empresarial de quem está caminhando naturalmente para administrar o seu próprio selo, não via uma situação muito favorável naquele momento de 2003.

Foi nesta fase do trabalho que me veio a idéia do "videotrack", que se encaixou muito bem para aplacar minha ansiedade, dando prosseguimento à minha produção independente com este up-grade visual.

Gosto de construir harmonias climáticas, de onde, posteriormente, tento retirar as letras para as músicas. Para direcionar ainda mais as músicas para a idéia que eu tinha do que seriam estes videotracks, remixei em menos de uma semana sete faixas que seriam as bases para o vídeos.

Videotrack foi, então, o termo que eu encontrei para convencer meus amigos videomakers a participarem deste projeto. Muito comum é o termo videoclipe, mas muitas vezes ele é associado a mega-orçamentos, que inviabilizariam minha produção independente. Aliás, uma idéia antiga esta minha, mas que poderia se beneficiar muito das facilidades proporcionadas pela "revolução digital".

Os videotrack são vídeos para serem vistos enquanto a gente está ouvindo a música, dançando, conversando, etc. Portanto, vídeos para serem vistos mais de uma vez (se você gosta de dançar ou conversar, é claro!) (risos). Ou simplesmente não serem vistos (risos) (um vídeo para se ignorar), enquanto se dança, conversa, etc.

Dei total liberdade a cada uma das pessoas envolvidas na produção dos videotracks:

- Ouça a música e crie o que você quiser - eu disse
Videotracks aprofunda problemas básicos de Bonfá
Hagamenon Brito

Não deve ser fácil, artisticamente, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá conviverem com a sombra da Legião Urbana e de Renato Russo. Além da solidez da obra, a necrofilia pop não poupa ninguém e o ex-grupo e o ex-parceiro continuam vivíssimos na memória dos fãs e rendendo muito dinheiro para a indústria.

Enquanto isso, eles tentam adquirir identidade própria. Depois de criar o selo Rock It! nos 90, produzir trilhas para o cinema (Bufo e Spallanzani, O Homem do Ano) e acompanhar os brothers dos Paralamas, Dado Villa-Lobos finalmente retomou a produção do seu primeiro disco solo. O CD deve sair este ano.

Marcelo Bonfá estreou solo em 2000 com o irregular O Barco Além do Sol e volta a tentar alçar vôo com Bonfá + Videotracks, que inaugura o seu selo, Giz (distribuído pela EMI). O CD aprofunda os problemas básicos do artista: sua deficiência como cantor e a incapacidade de fugir da sombra de Renato.

A fragilidade vocal poderia ser compensada por composições com luz própria. Mas as colaborações com Gian Fabra (baixista que acompanhava a Legião) e Carlos Trilha (que produziu Renato e hoje trabalha até com o Catedral, um sub-Legião) sugerem que Bonfá não está muito preocupado com a questão.

Harmonias climáticas, melodias melancólicas (às vezes, com tessituras eletrônicas) e letras chorosas lembram o pior do neoexistencialismo de Russo/Legião. O single Intolerância é um bom exemplo: "A vingança é mãe da estupidez/ E a intolerância é a mãe de vidas perdidas/ Ignorância, mãe de guerras sem fim".

Gravado no estúdio caseiro do artista, Bonfá + Videotracks vem com um DVD bônus contendo remixes eletrônicos de sete faixas do CD e imagens (os "videotracks") feitas pelos videomakers Luiz Stein, Jera Calderon, Estevão Ciavatta, Gustavo Caldas, Flavio Bidóia, Manuel Moruzzi e Christoph Goldman.

Mãe de Renato Russo ganha guarda do filho do cantor
da Folha Online

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou hoje que a mãe do cantor Renato Russo, Maria do Carmo Manfredini, ficará com a guarda do filho do líder da Legião Urbana morto em 1996, Giuliano, de 15 anos.

Até que ele atinja a maioridade, caberá à avó as decisões sobre o destino do adolescente, como também sobre a administração da herança do vocalista.

Segundo a advogada da família Manfredini, Leilah Borges da Costa, a decisão da Terceira Turma do STJ, anunciada nesta tarde, encerra a disputa judicial iniciada no Rio em 1997, quando Maria do Carmo e seu marido Renato Manfredini (morto em fevereiro último) recorreram pela guarda definitiva do garoto.

A mãe de Giuliano, Raphaela Manuel Bueno, sempre foi representada no processo pela Defensoria Pública, de acordo com informações de Leilah. O caso chegou ao STJ porque o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, ao julgar ação sobre o caso, não determinou a "destituição do pátrio poder", impossibilitando que os avós paternos do garoto exercessem poderes mais amplos sobre ele.

O julgamento sobre a tutela de Giuliano --único herdeiro de Renato Russo e que sempre viveu com os avós em Brasília--, ocorreu em sigilo de Justiça, a pedido da família do cantor, e durou cerca de uma hora.

As informações são do site do STJ

Globo publica especial sobre vida de Renato Russo
 emissora de televisão nacional "Rede Globo" transmitirá na madrugada do dia 16 (quinta para sexta) às 00:30, em uma de suas filiais televisivas chamade de "Globo News" no programa "Almanaque", um especial sobre a vida do cantor, compositor, músico e poeta Renato Russo, falando de sua relação com a familia, amigos e colegas de profissão desde seus tempos de professor de inglês até sua jornada no mundo da música.

O programa terá meia hora de duração e contará com a presença dos familiares mais íntimos do mesmo, como sua mãe D. Manfredini, e seu filho
Irmã de Renato Russo faz show em SP
A cantora Carmem Manfredini apresenta no Sesc Itaquera, em São Paulo, no próximo dia 25, o show "Carmem Manfredini Convida" que conta com a participação especial de Kiko Zambianchi, Paulo Ricardo, Bruno Gouveia (Biquíni Cavadão) e Phlippe Seabra (Plebe Rude). A irmã de Renato Russo fará uma homenagem ao cantor e compositor no show.

Após dez anos com o grupo à cappella Spirituals de Porco, Carmem, agora em carreira solo, apresenta um repertório que inclui blues, jazz, rock e MPB, com versões para How Soon is Now? (The Smiths), Um Lindo Lago do Amor (Gonzaguinha), Muito Estranho (Dalto), Música Urbana 2 e Giz (Legião Urbana).

Em seguida, os convidados, amigos de Renato Russo, cantam músicas da Legião Urbana em dueto com Carmem, além de canções próprias.

A Plebe Rude sobe ao palco, na seqüência, com o show Enquanto a Trégua Não Vem, álbum mais recente da banda brasiliense em que relembram a trajetória da carreira, iniciada em 1981, quando se destacaram no cenário punk-rock brasileiro. André X (baixo), Jander Ribeiro (voz e viola), Gutje (bateria) e Philippe Seabra (voz, guitarra e violão) apresentam canções como Brasília, Minha Renda, Proteção, Até Quando Esperar e Um Outro Lugar.

Os shows estão marcados para começarem a partir das 15h. O Sesc Itaquera fica na Av. Fernando do Espírito Santo Alves Mattos, 1000, em São Paulo.
Eduardo e Mônica, melhor hit dos anos 80
Numa enquete realizada por UOL Música, durante dois meses, "Eduardo e Mônica", do Legião Urbana, de 86, foi eleito o sucesso nacional preferido dos anos 80, e "With or Without You", do U2, de 87, foi escolhido o melhor sucesso internacional.

A enquete revelou ainda os hits considerados os piores da década: "Entre Tapas e Beijos", de Leandro e Leonardo, de 89, e o mutirão pop "We Are the World", de Michael Jackson e Lionel Richie, de 85.

As músicas foram escolhidas de uma listagem dos 30 títulos mais tocados nas rádios brasileiras de 1980 a 1989, compiladas pelo site Nopem, agrupados em quatro categorias: melhores e piores, nacionais e estrangeiras.

O Legião Urbana foi a banda que mais apareceu na listagem de campeãs, com três conquistas: Primeiro e terceiro lugares dentre as preferidas, com "Eduardo e Mônica" e "Que País e Este", e uma terceira colocação entre as piores músicas da década, também com "Eduardo e Mônica".

Entre os sucessos preferidos, apareceram ainda os Titãs, em segundo lugar, com "Sonífera Ilha"; Kid Abelha, em quarto, com "Como Eu Quero", e Cazuza, em quinto, com "Ideologia".

Na categoria internacional, depois do U2 aparece o grupo Pink Floyd, com "Another Brick in the Wall", e o Police, com "Every Breath You Take". A realeza do pop Miachel Jackson e Madonna aparecem apenas em quarto e quinto lugar, respectivamente, com "Billie Jean" e "Like a Virgin".

Os dois reaparecem, aliás, com essas mesmas músicas, na lista dos piores hits dos anos 80. Madonna em terceiro, logo depois de "Physical", de Olivia Newton John, e Jackson em sétimo.

Veja abaixo a listagem dos dez primeiros lugares em cada categoria, eleitos numa enquete que obteve mais de 30 mil votos:



Sucessos brasileiros dos anos 80 preferidos dos leitores de UOL Música
"Eduardo e Mônica", com Legião Urbana (1986)
"Sonífera Ilha", com os Titãs (1984)
"Que País É Este", com o Legião Urbana (1987)
"Como Eu Quero", com Kid Abelha (1984)
"Ideologia", com Cazuza (1988)
"Menina Veneno", com Ritchie (1983)
"Um Certo Alguém", com Lulu Santos (1987)
"Muito Estranho", com Dalto (1982)
"Óculos", com Paralamas do Sucesso (1984)
"Louras Geladas", com o RPM (1985)

Sucessos brasileiros dos anos 80 considerados os piores
"Entre Tapas e Beijos", com Leandro e Leonardo (1989)
"O Amor e o Poder", com Rosana (1987)
"Eduardo e Mônica", com Legião Urbana (1986)
"Mordida de Amor", com Yahoo (1988)
"Deus te Proteja de mim", com Wando (1989)
"Leão Ferido", com Biafra (1982)
"Menina Veneno", com Ritchie (1983)
"Balancê", com Gal Costa (1980)
"Quando Gira o Mundo", com Fábio Júnior (1986)
"Dona", com Roupa Nova (1985)

Sucessos estrangeiros preferidos dos anos 80
"With or Without You", com U2, 26%, 1987)
"Another Brick in the Wall", com o Pink Floyd, 18%, 1980)
"Every Breath You Take", com Police (1983)
"Billie Jean", com Michael Jackson (1983)
"Like a Virgin", Madonna (1985)
"Crazy Little Thing Called Love", com o Queen (1980)
"Livin' on a Prayer", com Bon Jovi (1987)
"We Are the World", com USA for Africa (1985)
"Bette Davis Eyes", com Kim Carnes (1981)
"Careless Whisper", com Wham! (1985)

Sucessos dos anos 80 considerados os piores
"We Are the World", com USA for Africa (1985)
"Physical", com Olivia Newton-John (1982)
"Like a Virgin", Madonna (1985)
"Take my Breath Away", com Berlin (1986)
"Greatest Love of All", com Whitney Houston (1986)
"Endless Love", com Diana Ross e Lionel Richie (1981)
"Billie Jean", com Michael Jackson (1983)
"Ebony and Ivory", com McCartney e Stevie Wonder (1982)
"I Just Called to Say I Love You", com Stevie Wonder (1984)
"Livin' on a Prayer", com Bon Jovi (1987)

Curiosidade
"Andrea Doria" (nome de uma música do Legião Urbana) não é o nome de uma pessoa, e sim de um navio (intitulado também A Grande Dama Do Mar). Em 1951, durante sua viagem de estréia, rumo a New York, colidiu com um outro navio em meio a neblina e afundou, matando 52 pessoas
Eduardo e Mônica, Uma Análise Psico-Neurótica

Por Adolar Gangorra

A música Eduardo e Monica da banda Legião Urbana esconderia uma implicância com o sexo masculino?
O falecido Renato Russo era, sem dúvida, um ótimo músico e um excelente letrista. Escreveu verdadeiras obras de arte cheias de originalidade e sentimento. Como artista engajado que era, defendia veementemente seus pontos de vista nas letras que criava. E por isso mesmo, talvez algumas delas excedam a lógica e o bom senso. Como no caso da música Eduardo e Mônica, do álbum "Dois" da Legião Urbana, de 1986, onde a figura masculina (Eduardo) é tratada sempre como alienada e inconsciente, enquanto a feminina (Mônica) é a portadora de uma sabedoria e um estilo de vida evoluidíssimos. analisemos o que diz a letra.
Logo na segunda estrofe, o autor insinua que Eduardo seja preguiçoso e indolente (Eduardo abriu os olhos mas não quis se levantar; Ficou deitado e viu que horas eram) ao mesmo tempo que tenta dar uma imagem forte e charmosa à Mônica (enquanto Mônica tomava um conhaque noutro canto da cidade como eles disseram). Ora, se esta cena tiver se passado de manhã como é provável, Eduardo só estaria fazendo sua obrigação: acordar. Já Mônica revelaria-se uma cachaceira profissional, pois virar um conhaque antes do almoço é só para quem conhece muito bem o ofício.
Mais à frente, vemos Russo desenhar injustamente a personalidade de Eduardo de maneira frágil e imatura (Festa estranha, com gente esquisita). Bom, "Festa estranha" significa uma reunião de porra-loucas atrás de qualquer bagulho para poderem fugir da realidade com a desculpa esfarrapada de que são contra o sistema. "Gente esquisita" é, basicamente, um bando de sujeitos que têm o hábito gozado de dar a bunda após cinco minutos de conversa. Também são as garotas mais horrorosas da via-láctea. Enfim, esta era a tal "festa legal" em que Eduardo estava. O que mais ele podia fazer? Teve que encher a cara pra agüentar aquele pesadelo, como veremos a seguir.
Assim temos (- Eu não estou legal. Não agüento mais birita). Percebe-se que o jovem Eduardo não está familiarizado com a rotina traiçoeira do álcool. É um garoto puro e inocente, com a mente e o corpo sadios. Bem ao contrário de Mônica, uma notória bêbada sem-vergonha do underground.
Adiante, ficamos conhecendo o momento em que os dois protagonistas se encontraram (E a Mônica riu e quis saber um pouco mais Sobre o boyzinho que tentava impressionar). Vamos por partes: em "E a Mônica riu" nota-se uma atitude de pseudo-superioridade desumana de Mônica para com Eduardo. Ela ri de um bêbado inexperiente! Mais à frente, é bom esclarecer o que o autor preferiu maquiar. Onde lê-se "quis saber um pouco mais" leia-se" quis dar para"! É muita hipocrisia tentar passar uma imagem sofisticada da tal Mônica.
A verdade é que ela se sentiu bastante atraída pelo "boyzinho" que tentava impressionar"! É o máximo do preconceito leviano se referir ao singelo Eduardo como "boyzinho". Não é verdade. Caso fosse realmente um playboy, ele não teria ido se encontrar com Mônica de bicicleta, como consta na quarta estrofe (Se encontraram então no parque da cidade A Mônica de moto e o Eduardo de camelo). Se alguém aí age como boy, esta seria Mônica, que vai ao encontro pilotando uma ameaçadora motocicleta. Como é sabido, aos 16 (Ela era de Leão e ele tinha dezesseis) todo boyzinho já costuma roubar o carro do pai, principalmente para impressionar uma maria-gasolina como Mônica.
E tem mais: se Eduardo fosse mesmo um playboy, teria penetrado com sua galera na tal festa, quebraria tudo e ia encher de porrada o esquisitão mais fraquinho de todos na frente de todo mundo, valeu?
Na ocasião do seu primeiro encontro, vemos Mônica impor suas preferências, uma constante durante toda a letra, em oposição a uma humilde proposta do afável Eduardo (O Eduardo sugeriu uma lanchonete Mas a Mônica queria ver filme do Godard). Atitude esta, nada democrática para quem se julga uma liberal.
Na verdade, Mônica é o que se convencionou chamar de P.I.M.B.A (Pseudo Intelectual Metido à Besta e Associados, ou seja, intelectuerdas, alternativos, cabeças e viadinhos vestidos de preto em geral), que acham que todo filme americano é ruim e o que é bom mesmo é filme europeu, de preferência francês, preto e branco, arrastado para caralho e com bastante cenas de baitolagem.
Em seguida Russo utiliza o eufemismo "menina" para se referir suavemente à Mônica (O Eduardo achou estranho e melhor não comentar. Mas a menina tinha tinta no cabelo). Menina? Pudim de cachaça seria mais adequado. Ainda há pouco vimos Mônica virar um Dreher na goela logo no café da manhã e ele ainda a chama de menina? Além disto, se Mônica pinta o cabelo é porque é uma balzaca querendo fisgar um garotão viril. Ou então porque é uma baranga escrota.

O autor insiste em retratar Mônica como uma gênia sem par. (Ela fazia Medicina e falava alemão) e Eduardo como um idiota retardado (E ele ainda nas aulinhas de inglês). Note a comparação de intelecto entre o casal: ela domina o idioma germânico, sabidamente de difícil aprendizado, já tendo superado o vestibular altamente concorrido para Medicina. Ele, miseravelmente, tem que tomar aulas para poder balbuciar "iéis", "nou" e "mai neime is Eduardo"! Incomoda como são usadas as palavras "ainda" e "aulinhas", para refletir idéias de atraso intelectual e coisa sem valor, respectivamente.
Na seqüência, ficamos a par das opções culturais dos dois (Ela gostava do Bandeira e do Bauhaus, De Van Gogh e dos Mutantes, De Caetano e de Rimbaud). Temos nesta lista um desfile de ícones dos P.I.M.B.A., muito usados por quem acha que pertence a uma falsa elite cultural. Por exemplo, é tamanha uma pretensa intimidade com o poeta Manuel de Souza Carneiro Bandeira Filho, que usou-se a expressão "do Bandeira". Francamente, "Bandeira" é aquele juiz que fica apitando impedimento na lateral do campo. O sujeito mais normal dessa moçada aí cortou a orelha por causa de uma sirigaita qualquer. Já viu o nível, né? Só porra-louca de primeira. Tem um outro peroba aí que tem coragem de rimar "Êta" com "Tiêta" e neguinho ainda diz que ele é gênio!
Mais uma vez insinua-se que Eduardo seja um imbecil acéfalo (E o Eduardo gostava de novela) e crianção (E jogava futebol de botão com seu avô). A bem da verdade, Eduardo é um exemplo. Que adolescente de hoje costuma dar atenção a um idoso? Ele poderia estar jogando videogame com garotos de sua idade ou tentando espiar a empregada tomar banho pelo buraco da fechadura, mas não. Preferia a companhia do avô em um prosaico jogo de botões! É de tocar o coração. E como esse gesto magnânimo foi usado na letra? Foi só para passar a imagem de Eduardo como um paspalho energúmeno. É óbvio, para o autor, o homem não sabe de nada. Mulher sim, é maturidade pura.
Continuando, temos (Ela falava coisas sobre o Planalto Central, Também magia e meditação). Falava merda, isso sim! Nesses assuntos esotéricos é onde se escondem os maiores picaretas do mundo. Qualquer chimpanzé lobotomizado pode grunhir qualquer absurdo que ninguém vai contestar. Por que? Porque não se pode provar absolutamente nada. Vale tudo! É o samba do crioulo doido. E quem foi cair nessa conversa mole jogada por Mônica? Eduardo é claro, o bem intencionado de plantão. E ainda temos mais um achincalhe ao garoto (E o Eduardo ainda estava no esquema escola - cinema - clube - televisão). O que o Sr. Russo queria? Que o esquema fosse "bar da esquina - terreiro de macumba - sauna gay - delegacia"?? E qual é o problema de se ir a escola?!?
Em seguida, já se nota que Eduardo está dominado pela cultura imposta por Mônica (Eduardo e Mônica fizeram natação, fotografia, teatro, artesanato e foram viajar). Por ordem:
1) Teatro e artesanato não costumam pagar muito imposto.
2) Teatro e artesanato não são lá as coisas mais úteis do mundo.
3) Quer saber? Teatro e artesanato é coisa de viado!!!
Agora temos os versos mais cretinos de toda a letra (A Mônica explicava pro Eduardo Coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar). Mais uma vez, aquela lengalenga esotérica que não leva a lugar algum. Vejamos: Mônica trabalha na previsão do tempo? Não. Mônica é geóloga? Não. Mônica é professora de química? Não. A porra da Mônica é alguma aviadora? Também não. Então que diabos uma motoqueira transviada pode ensinar sobre céu, terra, água e ar que uma muriçoca não saiba?
Novamente, Eduardo é retratado como um debilóide pueril capaz de comprar alegremente a Torre Eiffel após ser convencido deste grande negócio pelo caô mais furado do mundo. Santa inocência... Ainda em (Ele aprendeu a beber), não precisa ser muito esperto pra sacar com quem... é claro, com a campeã do alambique! Eduardo poderia ter aprendido coisas mais úteis, como o código morse ou as capitais da Europa, mas não. Acharam melhor ensinar para o rapaz como encher a cara de pinga. Muito bem, Mônica! Grande contribuição!
Depois, temos (deixou o cabelo crescer). Pobre Eduardo. Àquela altura, estava crente que deixar crescer o cabelo o diferenciaria dos outros na sociedade. Isso sim é que é ativismo pessoal. Já dá pra ver aí o estrago causado por Mônica na cabeça do iludido Eduardo.
Sempre à frente em tudo, Mônica se forma quando Eduardo, o eterno micróbio, consegue entrar na universidade (E ela se formou no mesmo mês em que ele passou no vestibular). Por esse ritmo, quando Eduardo conseguir o diploma, Mônica deverá estar ganhando o seu oitavo prêmio Nobel.
Outra prova da parcialidade do autor está em (porque o filhinho do Eduardo tá de recuperação). É interessante notar que é o filho do Eduardo e não de Mônica, que ficou de segunda época. Em suma, puxou ao pai e é burro que nem uma porta.
O que realmente impressiona nesta letra é a presença constante de um sexismo estereotipado. O homem é retratado como sendo um simplório alienado que só é salvo de uma vida medíocre e previsível graças a uma mulher naturalmente evoluída e oriunda de uma cultura alternativa redentora. Nesta visão está incutida a idéia absurda que o feminino é superior e o masculino, inferior. É sabido que em todas culturas e povos existentes o homem sempre oprimiu a mulher. Porém, isso não significa, em hipótese alguma, que estas sejam melhores que os homens. São apenas diferentes. Se desde o começo dos tempos o sexo feminino fosse o dominador e o masculino o subjugado, os mesmos erros teriam sido cometidos de uma maneira ou de outra. Por que? Ora, porque tanto homens quanto mulheres e colunistas sociais fazem parte da famigerada raça humana. E é aí que sempre morou o perigo. Não importa que seja Eduardo, Mônica ou até... Renato!

Adolar Gangorra tem 71 anos, é editor do periódico humorístico Os Reis da Gambiarra e não perde um show sequer dos "The Fevers".

Genialidade x Banalização

Por Bruno Yukio

Renato Russo não foi apenas mais um letrista. Existem em sua obra virtudes que passam despercebidas pelo público médio habituado somente às canções mais conhecidas, fato este que realça a banalização que Renato e sua banda sofreram nos últimos anos.


Desde sua morte em 1996, houve toda uma mitificação envolvendo o nome "Renato Russo". A partir de então todos ouviam suas músicas, aprendiam a tocar (mal e porcamente) as canções e estava tudo bem. Acontece que todo excesso tem suas consequencias, e as da super exposição da banda se mostraram bastante negativas. A excessiva execução das músicas mais famosas tornou a imagem da banda maçante. Hoje, pessoas tem vergonha de admitir que gostavam de Legião, que se identificavam com as letras e a obra da banda foi relegada a conteúdo de aprendizado de iniciantes de guitarra.
O fato é que a justiça deve ser feita. Renato Russo foi o maior letrista de sua geração (Os fãs do Cazuza e do Arnaldo Antunes que me perdoem). Nas suas letras há ecos de simbolismo, ultra-romantismo, morbidez gótica e até surrealismo, tudo misturado de forma bem equilibrada e (o que o destacava) com um vocabulário relativamente rico. Há em sua linguagem poética um lirismo e intensidade tão abstratos quanto reais, já que 95% do que ele escreveu foi vivenciado, não sendo mera invenção de seu gênio.
Mas o talento de Renato não se resumia apenas às letras. Algumas das mais belas melodias do Rock Nacional foram criações suas. Ele, que era tecnicamente limitado em relação à guitarra (importante frisar: tecnicamente, e não musicalmente limitado) se baseava em poucos acordes para criar contornos e saltos melódico-harmônicos bastante sofisticados. Uma audição atenta de canções como "Vento no Litoral", "Angra dos Reis" e "Os Barcos" pode explicar melhor a sua habilidade incomum de unir letra e música de uma forma única. Sua grande extensão vocal permitia a execução de linhas incomuns numa banda nacional destacando-o entre os vocalistas de sua geração. Numa época de total falta de identidade no Rock Nacional, surgia um ícone, dono de um belo timbre de voz, ótimo compositor e autor de versos como "É a verdade o que assombra / O descaso que condena / E a estupidez o que destrói". Que outra banda nesse país possuiu um frontman com tantas virtudes?
É muito importante ressaltar o que temos de bom no Brasil. Mas não devemos deixar a super-exposiçao desgastar a imagem dos (poucos) bons nomes que temos aqui. Hoje, para muitos Legião Urbana e Renato Russo não são sinônimos de qualidade em virtude da popularização que alcançaram. O radicalismo é uma besteira: alguém teria a coragem de dizer que "Stairway to Heaven" ou "Hotel California" sejam músicas ruins? Ou que "Sgt Peppers" dos Beatles e "The Dark Side of the Moon" do Pink Floyd sejam trabalhos de qualidade duvidosa por terem vendido mais que água no deserto? Pois é, querendo ou não isso também acontece no Brasil. O rock nacional dos anos 80 tem o seu valor e a obra de Renato Russo não pode ser sacrificada em nome do reacionarismo irracional dos radicais.
Vamos nos dar a oportunidade agora que estamos maduros de reavaliar nossa percepção artística. Isso faz parte de um ciclo onde revisamos nosso passado e tiramos dele proveito pro futuro. Há muito o que resgatar nas músicas e letras de Renato, versos que valem por uma vida que cessou precocemente. Esse legado é eterno.

Dado Villa-Lobos

Por Angela Joenck Cayres Pinto

Publicado na Cyberfam

Cyberfam - Quando você começou como produtor musical?

Dado - Bem, eu comecei como produtor no primeiro disco do Second Come - You- , primeiro lançamento da ROCKIT! em 1993, por mero acaso . Estávamos começando com o trabalho do selo sem grandes perspectivas mas com grande entusiasmo.

Cyberfam - Por quê?

Dado - Não havia produtores de rock disponíveis e assumi o desafio. É claro que alguma experiência eu já tinha visto, o Legião acabava de lançar seu quinto disco. Eu lembro que neste disco fui de produtor a office - boy no esquema de mutirão mesmo! O disco saiu e foi muito bem recebido pela crítica, etc., e assim produzi alguns discos aqui na ROCKIT! : o Virna Lisi, os últimos da Legião e no momento estamos terminando o disco do Tony Platão.

Cyberfam - Como você vê as possibilidades dos selos pequenos no Brasil e a relação do selo ROCKIT! com as majors? (distribuição, divulgação, etc)

Dado - No caso da ROCKIT! que é um selo de Rock , investimos na guerrilha musical, guerra de guerrilhas dentro do atroz mundo do disco em nosso querido País. Eu tenho a impressão que os anos 90 não souberam aproveitar as conquistas dos 80. Não estou falando só da produção artística mas de tudo que envolve a industria fonográfica, meios de comunicação, vendas etc. Eu posso afirmar que as coisas não estão fáceis para o artista estreante assim como para nós continua complicada a relação que temos com nossos distribuidores - Majors- que não sei porque não conseguem colocar nossos discos nas lojas. E não é por falta de execução em rádio, pois no caso do Ultramen que toca nas rádios em SP o problema se repete. Na verdade, estamos aqui em busca de soluções e não de problemas e o jeito é se livrar dos compromissos com essas majors.

Cyberfam - Alguma revelação para 2000?

Dado - Revelações? Comunidade Ninjitsu o próximo lançamento em breve nas lojas!

Cyberfam - Como é administrar este passado da Legião?

Dado - O passado ainda é presente e gera muitos interesses e situações as vezes conflitantes, mas tudo sob controle.

Cyberfam - Você tem algum disco preferido da Legião?

Dado - Não tenho o preferido da Legião. São todos parte de mim, da amizade, amor e ódio de uma vida intensa num grande grupo de rock.

Cyberfam - É difícil se desligar um pouco do "mito Legião Urbana"?

Dado - Não há como se desligar da mítica Legião Urbana! O público tem o seu devido respeito pelo que até hoje representa a Legião.

Cyberfam - Tem projetos solo?

Dado - Acabei de terminar meu estúdio o que vai me dar a chance de poder me dedicar a um projeto subsolo ! Tenho algumas idéias em andamento.

Cyberfam - E o Dado e o Reino Animal? Volta? Você esta compondo novo material?

Dado - Provavelmente o projeto será o Dado e o Reino Animal que por enquanto é só um time de futebol.

Cyberfam - Qual o som que mais influenciou o seu trabalho? Tem algum guitarrista preferido?

Dado - Certamente o rock inglês do final dos anos 70, Sex Pistols, Clash, Gang of Four, The Cure etc.. e claro The Ramones. Johnny Ramone é um preferido entre outros.

Cyberfam - Sobre o disco de anos 80 que saiu na Bizz? Como surgiu a idéia? Como foram as gravações?

Dado - O disco dos anos 80 foi idéia do produtor Tom Capone e surgiu do convite para a festa de encerramento do festival Skol rock no morro da Urca. Juntamos os amigos e pronto. Dois dias depois gravamos em duas sessões de estúdio e foi muito, mais muito divertido.

Cyberfam - E a idéia de distribuir um disco nas bancas de revistas? Deu bom resultado?

Dado - O Disco saiu encartado na Showbizz na tentativa de buscar uma alternativa para a distribuição, vendeu em torno de 35.000 cópias, resultado mediano devido a eterna crise (?) editorial do pais.

Cyberfam - O que você anda escutando ultimamente?

Dado - Tenho ouvido o novo do Blur.

Cyberfam - Quais os planos para o futuro?

Dado - Os planos para o futuro são me enfurnar no estúdio e gravar. Viajar sempre que possível com os Paralamas.

"O Que Era Rock´n´roll "

Autor: Renato Russo, Legião Urbana

Buscar na Web "Renato Russo, Legião Urbana"

Rock´n´roll mesmo era Camisa de Venus, o RPM e o Legião. O Camisa de Vênus tinha aquela coisa beira de estrada, o RPM era brega sem querer e a gente, era e é de propósito."

"Certo"

Autor: Renato Russo

Buscar na Web "Renato Russo"

"Certo, não há resposta para nada porque há resposta para tudo"

Sempre que pensamos em rock, pensamos em bandas e cantores que se tornaram verdadeiros monstros da música. Grupos como Led Zeppelin, Iron Maiden, Deep Purple, Pink Floyd, Black Sabbath, Beatles, Rolling Stones, entre outros, mas esquecemos que o Brasil nos deu verdadeiros gênios da música, principalmente do rock. De todas as bandas que passaram por esses anos, podemos afirmar com convicção que a Legião Urbana foi a maior de todas.
Porque a maior? É uma pergunta para qual a resposta é a própria trajetória da banda. A Legião foi uma das poucas bandas que sobreviveu por quase duas décadas num estilo de música com tantas mudanças e modas como o rock n’roll. É uma banda que possui fãs apaixonados, que a idolatram como uma religião, o que infelizmente trouxe problemas para a banda, como nos trágicos shows de 86 e 88 que mostraremos a seguir. Suas músicas tinham algo que faltava em muitas outras bandas: poesia e letras que praticamente "conversavam" com o público. Quem que nunca se identificou com alguma música do Legião? Todos nós com certeza já ouvimos ao menos uma música que tinha algo para nos dizer. E, para resumir, foi uma banda que alcançou um sucesso fenomenal sem estratégias de marketing e com raríssimas aparições na TV, sempre seguindo seus princípios (provavelmente herdados da época em que seus integrantes faziam parte do movimento punk).
Legião Urbana é isso. Uma relação de amor ou ódio, um grupo que sabia como ninguém fazer música e expressar seus sentimentos e os sentimentos dos jovens de toda uma nação, fazendo-os pensar no que acontecia no mundo ao seu redor. Uma banda que hoje faz parte da história da música no Brasil, e que com certeza estaria levando seu trabalho adiante por muitos anos se Renato ainda estivesse vivo.
A História da Legião remonta ao final dos anos 70, época em que o cenário do rock brasileiro não estava muito definido. Naquela época, se você pensasse em rock o que viria a cabeça seria o movimento da jovem guarda, indo mais no passado, e grupos como os Mutantes e cantores do porte de Raul Seixas, tido por muitos como o verdadeiro pai do rock moderno brasileiro. Nessa época o mundo transpirava ideologia, com vários movimentos culturais e sociais ocorrendo ao redor do mundo. No Brasil, os hippies saiam de cena e entravam os punks, com suas atitudes agressivas e até anarquistas. O celeiro do movimento punk foi Brasília, e nesse meio estavam jovens que se tornariam os mestres do rock nos anos 80, entre eles Renato Russo, André Pretórius (ex-Plebe Rude), Fê Lemos e Íco Ouro-Preto (Ex-Capital Inicial) só para citarmos alguns...
Todos eles faziam parte de uma gigantesca turma (ou tchurma, como se dizia) que se reuniam para conversar, beber, amar e se divertirem como puder. Diversão, naquela época, era algo complicado em Brasília, ela praticamente não existia. Restava as turmas organizarem festas (e ocasionalmente invadirem em bando as festinhas caretas) onde bebiam e escutavam punk rock. Foi uma dessas festas que André Pretorius conheceu Renato Russo, mas precisamente por causa do punk rock. Pretorius olhou os discos que estavam tocando e quis saber quem era o dono deles, e é aí que entra Renato. Nas palavras do Renato Russo o encontro foi mais ou menos assim: "André Pretorius parecia um Sid Vicious loiro. Ele encontrou comigo e perguntou – Cara, você gosta de Sex Pistols ? - Sex Pistols ? Yeah! Legal! – Então que tal formamos uma banda ? ".
Bandas eram o que não faltavam naquela turma. Foram formadas várias na época e todas elas interagiam entre si, trocando integrantes e músicas, e organizando festivais. Querem um exemplo ? Capital Inicial tocava "Fátima" com a letra de Faroeste Caboclo e o Legião fazia o inverso. Imaginem o que isso causava. Dentre as bandas de Brasília, as mais importantes (por fazerem parte da "tchurma") eram Aborto Elétrico (a primeira banda de Renato Russo, considerada o embrião do Legião Urbana, que inclusive incorporou suas músicas no repertório), Blitx 64, Metralhaz, Dado E O Reino Animal, Vigaristas de Istambul... entre muitas outras (todas essas bandas seriam dissolvidas em poucos anos, e seus integrantes formariam os grupos que dominaram o rock dos anos 80, como por exemplo o Capital Inicial, Plebe Rude e, é claro, o Legião).
Depois do encontro entre Renato Russo e André Pretorius, os dois formaram o Aborto Elétrico, tida como a primeira entre as bandas punk de Brasília. Com Renato no baixo e nos vocais, André na guitarra e mais Fê Lemos na bateria o trio estava formado e pronto para tocar.
O aborto elétrico, formado em 79, durou apenas até 1982, fruto de brigas entre Renato Russo e Fê Lemos. Fê Lemos era tão temperamental quanto Renato, e era também um dos mais influentes da turma. Eles chegaram a discutir inclusive durante os shows, brigando no palco por causa da insistência de um se sobressair mais que o outro na música. Após uma dessas brigas Renato decide sair do grupo, e começa a tocar sozinho, definindo um estilo mais folk, que seria adotado no repertório do Legião Posteriormente. Dessa fase, Renato cantava músicas mais completas com um storyboard, como Eduardo e Mônica, Faroeste Caboclo, Dado Viciado, entre outras.
Depois do sucesso do Aborto Elétrico, as outras bandas de Brasília começaram a aparecer.. E com a explosão dos Paralamas do Sucesso no Rio e em São Paulo, e com o sucesso que o Plebe Rude estava alcançando com suas músicas politizadas, Renato Russo decide formar uma nova banda junto com Marcelo Bonfá. Este, por sua vez, vinha de algumas experiências com outras bandas, como o Metralhaz e por último no Dado e o Reino Animal. Durante suas experiências solo, Marcelo começou a flertar com vários modelos de som, desde reggae à música computadorizada. Juntos, os dois decidem formar uma nova banda, a Legião Urbana.
Renato e Marcelo, depois de decidirem montar uma banda, alugam uma sala no Brasília Rádio Center para começarem suas primeiras experiências, mas para que o grupo estivesse completo faltava um guitarrista.
Renato Russo andou observando então Eduardo Paraná, um conceituado guitarrista de Brasília, tido com o melhor deles na época. E durante um show de Paraná em um barzinho, Renato fez o convite, o qual Paraná aceitou na hora. Era a chance dele tocar em uma banda nova, e de entrar para a tchurma ao mesmo tempo.
Aos três, se juntou Paulo Paulista, tecladista, que entrou e saiu da banda sem marcar presença. Fou o único tecladista fixo de toda a história do legião, posição que depois foi ocupada pelos membros da banda ou assumida por músicos convidados. Era a primeira vez que Paulo e Paraná tocavam em uma banda elétrica, fato que motivou os dois.
O nome legião, foi sugerido pelo próprio Renato Russo, que conforme uma entrevista dada a Showbizz, poderia ter tido qualquer outro nome. O Legião veio porque eles eram uma turma muito grande, uma verdadeira legião, e o Urbana obviamente porque eram uma legião na cidade, que faziam música urbana. Banda formada, nome encontrado, tudo pronto para o primeiro show
Curiosamente, o primeiro show do Legião não foi em Brasília, mas em Minas Gerais, numa certa Festa do Milho, onde o promotor da festa havia decidido encaixar algumas bandas de rock entre atrações mais populares. O Show não terminou muito bem, com todos os integrantes da banda algemados. O Motivo? Em plena ditadura militar o vocalista da Plebe Rude, André Mueller começou a conversar com o público, todos moradores da região e trabalhadores agrícolas na maioria, conversa cujo teor socialista não agradou a polícia. Após algumas horas na delegacia foram todos liberados e voltaram para Brasília sãos e salvos. O sucesso da banda veio somente no terceiro show, no Setor Comercial Norte, onde apesar do público baixo, a banda foi recebida com grande entusiasmo, um passo enorme para eles.
Paraná e Paulo Paulista não duraram muito. Paulista saiu tão rapidamente quanto entrou, e Paraná não se encaixava no padrão de música da banda.
Paraná era um músico mais profissional, com um trabalho elaborado. Seus solos intermináveis e estilizados eram fruto de suas influências musicais, guitarristas do porte de Jimmy Page e Jeff Beck. Solos não combinavam com a música punk, de poucos acordes e ritmo rápido. Outro motivo para a saída de Paraná e Paulista era que eles impunham um estilo nitidamente pesado ao som da banda, muito Heavy Metal, o que incomodava Renato Russo e Marcelo Bonfá.
O buraco causado por Paraná foi coberto por Íco Ouro Preto, amigo de Renato Russo e ex-integrante do Aborto Elétrico. Íco também não ficou muito, não chegou nem a subir no palco (era famosa a lenda de que o guitarrista morria de medo do palco). Íco também na época já estava em dúvida quanto ao seu talento musical, e decidiu ser fotógrafo, arrumando as malas e indo para Europa. Outro motivo dele ter abandonado a banda, só explicado recentemente, foi uma cena presenciada por ele numa festa, onde Renato Russo, bêbado, agarrou um cara, deixando Íco em dúvida quanto as preferências sexuais de Renato. Durante sua passagem pelo Legião, Íco, acostumado ao estilo do punk rock, ajudou a terminar arranjos de algumas músicas, que não davam certo com Paraná.
Depois da saída de Íco Ouro Preto, Russo e Bonfá se viram com um grande problema: eles haviam alugado (junto com a turma) o Teatro da OAB para tocarem por quatro finais de semana. Os dois não sabiam o que fazer, e pensaram em várias alternativas, como seguir em dueto, desistir, utilizar percussão eletrônica, quando se lembraram de um outro guitarrista sem banda: Dado Villa-Lobos. Dado (isso mesmo, ele é sobrinho neto de nada menos do que Heitor Villa-Lobos) se mostrou um guitarrista tão bom que assumiu o posto definitivamente no Legião. Além de tudo, ele aprendeu em poucos dias tudo o que os outros integrantes na banda haviam demorado semanas para assimilar, e de quebra, ajudou a terminar e encontrar o ritmo para diversas músicas do Legião. A apresentação acaba sendo um sucesso. (anos depois a banda utilizou desenhos de Bonfá no álbum "Que País é Este" para ilustrar uma história em quadrinhos contando sobre a entrada de um guitarrista fixo na banda)
Mesmo com a entrada de Dado, a banda tem pouco tempo para trabalhar em músicas novas para várias apresentações agendadas, e precisam de uma saída. A saída ? tocar hardcore; a música é simples e de poucos acordes, com uma energia contagiante. Dessa época surgem "Petróleo do Futuro" e "Teorema", entre outras. Algumas músicas da época do Aborto Elétrico, mesmo a contragosto da banda, precisaram ser utilizadas, como "Química" e "Conexão Amazônica" que ganharam arranjos diferentes. Outras como "O Reggae" são terminada com o auxílio de Dado, completando assim o repertório do Legião.
Nessa época os Paralamas estavam a pleno vapor, fazendo muito sucesso no Brasil. E para sorte do Legião, Bi Ribeiro, integrante da turma e ex-aluno de inglês de Renato Russo consegue uma oportunidade para a banda: gravar um álbum pela EMI, gravadora dos paralamas, que acabam se tornando seus "padrinhos".
As gravações estão no meio, e um fato marcante acontece: Renato Russo corta os pulsos depois de uma briga com a gravadora por causa dos arranjos de "Geração Coca-Cola". Depois do incidente, Renato fica incapacitado de continuar tocando baixo, e para resolver o problema a gravadora coloca Renato Rocha (mais conhecido como Negrete) no baixo, liberando Renato Russo para os vocais
A gravadora lança então, em 1985, o primeiro álbum auto-intitulado "Legião Urbana". As músicas eram do repertório básico (Será, Ainda é Cedo, Petróleo do Futuro, Teorema, Por Enquanto, Perdidos no Espaço, A Dança, O Reggae, Baader Meinhof-Blues, Soldados e Geração Coca-Cola). A EMI estava receosa, pois achava que o Legião era só mais uma banda querendo se aproveitar do sucesso dos Paralamas, como dezenas de bandas que surgiram na época.
Mas o receio não durou. Em pouco tempo músicas como "Será" e "Ainda é Cedo" estavam tocando nos rádios e atingindo altos níveis de audiência.
No mesmo ano, a banda se junta em estúdio para iniciar as gravações de seu segundo disco chamado "Dois" (existem duas versões para a banda ter utilizado esse nome no disco; a primeira é, como o próprio nome diz, por ser o segundo trabalho; a segunda versão diz que o nome vem do fato que o segundo álbum devia ser duplo – dois discos – mas como a gravadora ainda não tinha certeza se a banda conseguiria repetir o sucesso do primeiro álbum decidiu lançar um álbum simples. O nome desse álbum duplo deveria ser "Mitologia e Intuição). O disco (com as faixas "Daniel na Cova dos Leões", "Quase sem Querer", "Acrilic On Canvas", "Eduardo e Mônica", "Central do Brasil", "Tempo Perdido", "Metrópole", "Plantas Embaixo do Aquario", "Música Urbana 2", "Andrea Doria", "Fábrica" e "’Índios’"), marca época no rock e se torna um marco para a banda. Nele, o Legião acaba definindo seu estilo de música, um rock suave, mas com pitadas de hardcore, com uma música em segundo plano e variações vocais e instrumentais, e letras profundas e com críticas a sociedade e a humanidade mas extremamente poéticas, que nos faziam pensar, sem contar nas músicas folk-urbanas, que também marcaram um estilo de Renato Russo cantar e tocar.
O álbum se torna rapidamente um sucesso de vendas, e também foi o disco mais vendido da história da banda. Nessa época, acontece a primeira trágedia com a banda: num show em dezembro de 1986 no ginásio poliesportivo de Brasília, um quebra-quebra termina com uma menina morta e 20 pessoas feridas. Esse fato colaborou a atitude da banda de realizarem pouquíssimos shows durante sua trajetória.
O incidente quase terminou com o Legião. Depois de dois anos sem se manifestar e com a decisão de não fazer mais shows em Brasília, o grupo desiste da idéia de abandonar a carreira e lança mais um álbum novo, o terceiro da banda, "Que País é Este". Este ábum trouxe surpresas ao público, pois ao invés de colocarem composições novas, o Legião gravou músicas da época do Aborto Elétrico e do início da carreira da banda, numa espécie de retrospectiva da carreira. O disco trazia junto um encarte que contava uma breve história da banda, desde a época do Aborto, e comentava cada música individualmente, contando também a história delas. Foi outro bom álbum, que alcançou boas vendagens. As músicas do álbum ("Que País é Este", "Conexão Amazônica", "Tédio (Com Um T Bem Grande Pra Você)", "Depois do Começo", "Química", "Eu Sei", "Faroeste Caboclo", "Angra dos Reis", "Mais do Mesmo") mostravam bem como o grupo mudou do punk para um rock mais leve e elaborado. Podemos destacar algumas músicas daí: Que País é Este – A faixa título do disco é um grande grito de protesto, que agora podia ser gravado sem problemas com censura. Rock dos bons, com direito a bate-estaca e refrão animador, era uma das que mais empolgava o público nos shows. Química – Outra música da época do Aborto Elétrico, mas merece destaque por ser conhecida em várias versões (uma das duas músicas do legião que mais possuíam versões gravadas, mas que foram incluídas em álbuns somente mais tarde. A outra música é "Canção do Senhor da Guerra", que também era para ter saído nesse álbum, mas foi retirada pois era parecida demais com as outras canções acústicas. Ela foi lançada anos mais tarde em versão elétrica na coletânea "Música para Acampamentos". Química, voltando ao assunto, já havia sido gravada pelos Paralamas e uma versão na voz do Legião foi incluída nas primeiras cópias cassete do disco "Dois"), mas a música que mais merece destaque é, sem dúvida, "Faroeste Caboclo". Faroeste foi uma música que fugia dos padrões fonográficos da época, pois era comprida demais (mais de 8 minutos), mudava de ritmo diversas vezes no decorrer (começava no conhecido folk, e terminava um punk de arrepiar!), e, como "Eduardo e Mônica", possui um storyboard (possui uma história com personagens e tudo mais). A música contava a história de João do Santo Cristo, um rapaz pobre e de vida simples e difícil que vai para a capital do país tentar a sorte e acaba no crime. Pode ser interpretada como o povo brasileiro, sofrido, que espera dos políticos uma solução que nunca aparece. Grande sucesso até hoje, que as rádios foram obrigadas pelo público a transmitir sem parar.
Depois de dois anos sem tocar em Brasília, o grupo resolveu fazer um show, muito esperado pelos fãs, mas a organização deu um exemplo de descaso e negligência, preparando um esquema ridículo de segurança, o que não deveria ocorrer, visto o saldo do último show do grupo em Brasília
O show, feito no Estádio Mané Garrincha, levou 50 mil fãs para assistir a banda se apresentar. O palco foi instalado muito baixo, próximo do gramado, o que não impediu a platéia de subir e atirar objetos, como bombinhas, por exemplo. Até um fã descontrolado subiu e se agarrou no pescoço de Renato Russo, que assustado, continuou tocando para ver se conseguia botar ordem. Mesmo assim o grupo teve que se retirar do palco, revoltando a platéia. As cenas que se seguiram foram terríveis. Uma verdadeira batalha campal se iniciou, entre o público e a polícia, que, montada a cavalo disparava gás lacrimogênio na platéia. O quebra-quebra aumentou até que se espalhou pela cidade, e terminou com um saldo de 385 feridos, 60 pessoas presas e 64 ônibus depredados. Enquanto isso Renato Rocha e Bonfá choravam no camarim enquanto Renato praguejava que não havia vindo até Brasília para dar um show para animais. Nunca mais o Legião voltou a tocar na capital.
Depois de um longo tempo sem gravar, dois anos, a legião sai do estúdio com um trabalho que revolucionaria sua trajetória e o rock brasileiro: o disco "As Quatro Estações", já sem o baixista Renato Rocha, que se desligou do grupo logo após o final das gravações de "Que País é Este", pois não conseguia se adaptar aos compromissos com shows e gravações.
O Novo álbum, onde Renato e Dado se encarregaram dos baixos, é considerado por muitos o grande divisor de águas da história da banda. Em suas onze músicas ("Há Tempos", "Pais e Filhos", "Feedback Song For A Dying Friend", "Quando O Sol Bater Na Janela Do Teu Quarto", "Eu Era Um Lobisomem Juvenil", "1965 (Duas Tribos)", "Monte Castelo", "Maurício", "Meninos e Meninas", "Sete Cidades" e "Se Fiquei Esperando Meu Amor Passar") o lago mais pesado substituído por canções belas, com um forte apelo sentimental, e temas mais pesados (como o homossexualismo, por exemplo) adotado em suas letras. Renato também incluiu citações religiosas nas músicas, como trechos do novo testamento (Junto com os Sonetos de Camões em "Monte Castelo"), o Credo (em "Se Fiquei Esperando o Meu Amor Passar"), citações budistas (em "Quando O Sol Bater...") até citações de livros orientais antigos. Um álbum profundo, que teve quase todas músicas transformadas em sucessos nas rádios, e um dos álbuns mais vendidos da banda.
Através desse álbum com letras mais diretas, o público mais jovem (que era criança na época do início do Legião) se identificou mais com as poesias de Renato Russo, aumentando ainda mais o número de fãs da banda, a essa altura consolidada como a maior banda de rock do Brasil.
A partir de 1990, houve uma grande reviravolta na banda, mais precisamente com Renato Russo. O líder e vocalista assumiu publicamente em uma entrevista que era homossexual, e no mesmo ano descobriu que era portador do vírus da AIDS. Para completar, Renato se afundou no vício, consumindo muita cocaína e heroína. Todas essas mudanças podem ser notadas no disco "V", lançado em 1991.
O novo álbum, mais uma vez surpreendeu os fãs. Era pesado tematicamente, com músicas tristes e letras que falavam do vício nas drogas e de paixões perdidas (fruto de um relacionamento terminado abruptamente na época). Talvez por ter sido um álbum triste foi um que tinha as melodias mais belas do grupo, mas mesmo assim teve músicas bem executadas nas rádios (talvez pelo próprio status da banda). Entre as faixas ("Love Song", "Metal Contra As Nuvens", "A Ordem Dos Templários", "A Montanha Mágica", "O Teatro dos Vampiros", "Sereníssima", "Vento no Litoral", "O Mundo Anda tão Complicado", "L’Âge D’Or" e "Come Share My Life"), podemos destacar "Metal Contra As Nuvens". É uma música sem igual na história da banda. É também a música mais longa até então (11 minutos) e era dividida em quatro partes, que trazia temas medievais e heróicos, numa letra cheia de sentimento. Outras músicas como "A Ordem Dos Templários" e "Come Share My Life" por serem músicas totalmente instrumentais.
Em 1992, a gravadora lança a coletânea "Música para Acampamentos", um álbum duplo com 20 gravações ao vivo e de especiais para rádio e televisão, onde a banda mostra talento intercalando seus sucessos com covers dos Beatles e Rolling Stones. Nesse disco foi incluída a versão elétrica de "Canção do Senhor da Guerra", música, como já dita anteriormente, que possuía várias versões gravadas mas nenhuma em disco.
Depois outro longo período de dois anos sem gravar, os fãs já estavam ansiosos por novos trabalhos do Legião, e em 1993, são pegos novamente de surpresa com o álbum "O Descobrimento do Brasil", o sexto da carreira da banda.
O disco mostrava um Renato Russo alegre, de bem com a vida, recuperado do problema com as drogas e apaixonado. A capa, bem diferente do estilo das anteriores, trazia os três integrantes vestindo roupas medievais (Renato de monge, Dado de cancioneiro e bonfa de camponês), no meio de um campo florido. Foi também o primeiro álbum a trazer um videoclipe com produção elaborada e figurino (a música "Perfeição"). Quanto as músicas do álbum ("Vinte e Nove", "A Fonte", "Do Espírito", "Perfeição", "O Passeio da Boa Vista" , "O Descobrimento do Brasil", "Os Barcos", "Vamos Fazer um Filme", "Os Anjos", "Um Dia Perfeito", "Giz", "Love In The Afternoon", "La Nuova Gioventú", "Só Por Hoje") elas falavam sobre o amor e a morte, mas ainda mantinham letras de críticas a sociedade (novamente, "Perfeição"). Uma das músicas, "Os Barcos", entrou na trilha sonora de uma novela na rede Manchete. A EMI aproveitou o álbum muito bem comercialmente, que também teve vendagens boas, mas não tantas com os discos anteriores. Muitos fãs antigos não gostaram pois acharam que o estilo de música havia mudado muito. A Legião também fez alguns shows desse álbum, sendo um deles inclusive transformado para a televisão com depoimentos da banda. O Show foi mostrado a exaustão após a morte de Renato.
Três anos se passaram e os fãs tinham poucas notícias da banda e estavam ávidas por novos trabalhos. Neste meio tempo, para burlar a ausência do grupo, a EMI lança em 1995 uma lata em edição limitada com todos os álbuns da banda, com exceção do disco duplo "Música para Acampamentos", remasterizados por Dado Villa-Lobos nos estúdios londrinos da Abbey Road. A lata incluía um livreto com a história da banda e dos discos, e se esgotou rapidamente das lojas. Posteriormente, a EMI distribuiu no mercado os CDs da lata, individualmente, substituindo as gravações originais. Os CDs receberam novo tratamento visual, inclusive no rótulo, e também um selo desenhado por Marcelo Bonfá (Os três andando descalços) impresso na contracapa.
Entre esses três anos, Renato lançou dois álbuns solo, o "The Stonewall Celebration Concert", um álbum comemorativo cantado em inglês, que celebrava os vinte anos de um levante homossexual nos Estados Unidos. O disco continha músicas de Bob Dylan e Madonna, entre outros cantores, e teve seus lucros revertidos para campanha contra a fome do sociólogo Herbert de Souza
O outro álbum solo, "Equilíbrio Distante", era um álbum cantado em italiano, que segundo Renato, foi feito a pedido de sua família, que gostaría de vê-lo cantando músicas tradicionais em italiano. O disco, foi um sucesso de vendas instantâneo, com mais de 300 mil cópias, e teve suas músicas (principalmente "Strani Amore") tocadas em rádios que nunca antes haviam tocado rock ou falado em Legião Urbana. O trabalho serviu também para chamar a atenção das pessoas pelo lado poético de Renato, e para a beleza de suas composições. Muitas pessoas que se arrepiariam de escutar um disco de rock se tornaram fãs do legião depois do trabalho solo. O disco rendeu também videoclips, uma indicação para o Video Music Awards Brasil 96 e levou o Premio Sharp de Música na categoria "Melhor Álbum em Língua Estrangeira".
Depois do intervalo mais longo entre um álbum e outro do Legião, a EMI lança em meados de Setembro de 1996 o disco "A Tempestade (ou o Livro dos Dias)". O lançamento foi apressado, pois Renato estava muito enfraquecido e doente, e a gravadora temia que o disco acabasse sendo póstumo. As primeiras tiragens do disco vieram acondicionadas em uma caixa especial de papelão( que ao mesmo tempo era o encarte), como no disco em italiano. O encarte trazia no final uma lista de entidades de defesa dos direitos humanos, da mulher e da criança, para que o público pudesse ajudar.
O Trabalho causou, mais uma vez, surpresa até mesmo nos fãs mais acostumados com as reviravoltas da banda. Ele trazia um Renato com a voz sensivelmente debilitada pela doença, melodias e letras tristes que falavam de dor, tragédia e despedida. O álbum trazia poucas músicas com apelo comercial para as rádios e a primeira faixa transmitida foi "A Via Láctea" (a faixa, depois da morte de Renato, foi finalmente compreendida como a sua despedida do mundo).
As músicas ("Natália", "L’Avventura", "Música de Trabalho", "Longe do Meu Lado", "A Via Láctea", "Música Ambiente", "Aloha", "Soul Parsifal", "Dezesseis", "Mil Pedaços", "Leila", "1º de Julho", "Esperando por Mim", "Quando Você Voltar", "O Livro Dos Dias") eram de vários estilos diferentes. Tinha desde melodias passando por blues, soul, até lembranças de um Legião punk. Duas músicas merecem destaque: "Soul Parsifal", por ter sido feita em parceria com Marisa Monte, e por ser a mais alegre do disco; e "Dezesseis", por ser mais uma música com storyboard, contanto a história de um garoto que morre (se suicida) em um racha. Era também uma lembrança da época do punk rock.
Esse seria o último trabalho do Legião Urbana.
No dia 11 de outubro de 1996, o Brasil, em especial os fãs da banda, acordaram chocados com a notícia de que o poeta, músico e líder do Legião Urbana, Renato Russo, cujo nome de batismo era Renato Manfredini Jr, havia morrido na madrugada vítima de complicações resultantes da AIDS. Era o fim de uma era.
Dias depois, a banda anunciou em uma entrevista coletiva na sede da EMI, que o Legião estava oficialmente terminado. Terminava nesse dia também a trajetória da maior banda de rock do país de todos os tempos, uma banda que era quase uma religião, um estilo de vida para os fãs. Para eles, sobraram as lembranças, saudades e músicas de um tempo onde éramos jovens e inocentes, e tudo parecia que ia mudar no país. Um tempo que agora parece muito distante, perdido mesmo.
Quanto a Renato, seu corpo foi cremado e suas cinzas foram jogadas sobre um jardim florido no sítio do paisagista Burle Max, a pedido do próprio poeta.
Depois da morte de Renato, em 1997 a banda resolve juntar velhas gravações e out-takes do segundo e do último álbuns, que deveriam ser duplos. A EMI lança então o álbum "Uma Outra Estação", o álbum póstumo do grupo, que foi vendido rapidamente (assim como todos os outros álbuns da banda que se esgotaram das lojas após a notícia da morte do poeta).
Quanto as músicas ("Riding Song", "Uma Outra Estação", "As Flores do Mal", "La Maison Dieu", "Clarisse", "Schubert Länder", "A tempestade", "High Noon (Do Not Forsake Me)", "Comédia Romântica", "Dado Viciado", "Marcianos Invadem a Terra", "Antes das Seis", "Mariane", "Sagrado Coração" e "Travessia do Eixão") podemos destacar: Riding Song – A faixa conta com a participação do ex-baixista Renato Rocha, que toca e canta em conjunto com os outros dois integrantes. Renato Rocha, foi encontrado por acaso em um restaurante por Dado Villa-Lobos e decidiram imediatamente entrar em estúdio para gravar. A Tempestade – deveria ser a faixa-título do outro álbum, mas acabou saindo somente neste. Clarisse - É uma música autobiográfica, que retrata Renato Russo na pele de uma menina de 14 anos. É também uma das músicas mais comprida do grupo, com mais de 10 minutos, e por fim Sagrado Coração – a música é só instrumental, pois Renato não teve tempo de gravar os vocais.
O que podemos esperar do futuro da banda ? Como o grupo tinha renovado um contrato para lançar três álbuns em 5 anos, podemos esperar ainda um disco com gravações ao vivo, e home-videos com gravações de show. Também havia a intenção de se gravar um disco tributo com vários artistas convidados, de Nação Zumbi a Max Cavalera, mas o projeto, inicialmente sugerido por Fê Lemos (ex-capital inicial e ex- aborto elétrico) foi rejeitado porque era claramente uma auto-promoção do músico que ressurgiu das trevas depois da morte do ídolo.
A única certeza que temos para o futuro é que os fãs jamais se esquecerão do trabalho genial do grupo, que estará sempre em nossa memória. Força Sempre.
Questão geração Coca -Cola

A música Geração Coca-cola foi escrita na época em que o Brasil estava passando por uma reabertura do mercado nacional em relação ao internacional, ou seja, uma readaptação do Brasil às novas tendência globalizantes do mundo. Tendência essa que teve seu início na década de 70 e sua continuidade nas décadas de 80 e 90.
Quando Renato Russo escreve Geração Coca-cola ela retrata justamente esse momento, onde as antigas leis ditadas pelos Estados Unidos estão se dobrando à descoberta do restante do mundo. O Brasil está descobrindo a Europa, a Ásia, a África. "A receber o que vocês nos empurraram
Com os enlatados dos USA, de 9 às 6.
As antigas leis, as antigas hierarquias e famílias dominantes estão caindo, a antiga burguesia católica está sendo destronada e a multipluralidade aclamada "Mas agora chegou nossa vez
Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês. Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Somos o futuro da nação
Geração Coca-Cola."
Com essa abertura no entanto, o que o Reanto Russo temia era a preponderância e dominação ainda maior dos Estados Unidos, porque agora, eles fariam uma dominação e exploração legitimada por essa abertura política.
Sendo assim, ele denomina, ou seja, nomeia, essa nova classe brasileira, como Geração Coca-cola, por estar imbuída pelos símbolos americanos citados e recitados na década de 80. Mesmo porque, durante os vinte anos de escola o que a Geração coca-cola aprendia eram as manobras políticas e pactos sujos, Renato Russo temia a continuidade disso, pois não havia, e ainda não há, uma preparação para o futuro, mas somente uma representação do que é feito hoje, mas nenhuma idéia ou solução é apresentada nas escolas.
Assim nasceu essa música, que como outras da Legião, continuam mais atuais que nunca.
Isso mostra como Renato Russo era um homem político, não partidário, é óbvio, mas que ele era político no sentido de se informar e criticar com conhecimento de causa.

Escrito por!
Chris



Legião de roqueiros regrava Renato Russo

A Canção do Senhor da Guerra, canção de 1986 da Legião Urbana, foi regravada por supergrupo de astros do pop nacional em protesto contra a guerra no Oriente Médio

Ontem (segunda, dia 31) foi lançada via Rádio Cidade FM (no Rio) e 89 FM (SP) uma gravação especial de A Canção do Senhor da Guerra, composta por Renato Russo para a Legião Urbana em 1986 e que nunca foi lançada nos discos oficiais do grupo (a versão da Legião pode ser ouvida na coletânea Música para Acampamentos). Herbert Vianna (Paralamas), Roberto Frejat, Marcelo D2, Dinho Ouro Preto (Capital Inicial), Toni Garrido (Cidade Negra), Samuel Rosa (Skank), Paulo Miklos (Titãs), Chorão (Charlie Brown Jr.), Digão (Raimundos) e Humberto Gessinger (Engenheiros do Hawaii) soltam a voz na faixa, que ganhou instrumentação do quarteto Raimundos (sob a produção de Rafael Ramos). A gravação teve propósito duplo: protestar contra a Guerra do Iraque e homenagear Renato Russo, que completaria dia 27 último 43 anos. A versão será exclusiva da Cidade FM, que é transmitida também para Santos, Vitória, Campinas e Sorocaba.

Em entrevista inédita, Renato Russo fala de drogas e da Legião

ALEXANDRE MATIAS
especial para a Folha

Há exatos cinco anos o pop brasileiro perdia o pouco de senso crítico que tinha, acelerando a escavação do atual abismo cultural em que se encontra. Com a morte de Renato Russo, acabava a Legião Urbana, uma das duas bandas de rock mais importantes do Brasil, funcionando no imaginário nacional -ao lado do experimentalismo dos Mutantes- como os Beatles para o planeta.
O fim do grupo coincidiu com a aceleração da idiotização do pop brasileiro, hoje composto por discos de regravações, muitos deles subprodutos da própria Legião.
No dia 21 de maio de 1994, Renato Russo e a banda viajavam pelo interior de São Paulo com a turnê do disco "O Descobrimento do Brasil". O show daquela noite havia sido no ginásio municipal de Valinhos (a 88 quilômetros da capital) e problemas com a acústica do lugar fizeram o grupo convocar uma reunião de emergência na beira da piscina do hotel Royal Palm Plaza, em Campinas. Leia trechos da entrevista concedida por Renato Russo, após a reunião.

Folha - Qual seu disco favorito da Legião Urbana?
Renato Russo -
O "V", que eu acho o disco mais difícil. Gosto muito de "O Descobrimento do Brasil". Agora, que encontrei a programação dos 12 passos -parei de beber e de me drogar-, tudo está mais tranquilo. Esse show de hoje, por exemplo: o som estava um caos, tudo estava um horror, e o público, superlegal. O lugar tinha uma reverberação brutal. O público berrava muito, e o engenheiro de som teve de aumentar tudo, desequilibrou. No começo era só "bum-bum-bum" e eu berrando, não dava para ouvir os detalhes. Mas, se fosse em outra época, eu teria ficado tão preocupado que ia beber, tomar um porre, falar: "Nunca mais vou fazer show", nhem-nhem-nhem... Isso agora não existe mais. Há uma tranquilidade, uma serenidade que esse disco trouxe, e acho que as músicas refletem isso.

Folha - Como foi sair dessa fase?
Renato Russo -
Eu estava me destruindo e, em vez de me matar com um tiro na cabeça, preferi procurar ajuda. Isso vem desde os 17 anos, mas no "V" foi a primeira vez que coloquei na música essas questões. "Montanha Mágica" é sobre isso. Eu era jovem e acabei entrando num beco sem saída.
Isso foi me consumindo, eu ficava deprimido e não sabia o porquê. Achava que o mundo era horrível, igualzinho ao Kurt Cobain, nada mais valia a pena. E isso é estranho porque, se eu achar um dia que as coisas não valham a pena, quero estar com a cabeça no lugar, e não com o corpo cheio de toxinas. Parei com todo tipo de droga e vi que as coisas não eram tão ruins.

Folha - Isso se refletia na sonoridade da banda?
Russo -
Isso a gente decide. Todo disco a gente tenta fazer uma coisa diferente, até porque é mais divertido. E para não ficar na obrigação de repetir o mesmo trabalho. Não achávamos que o "Quatro Estações" fosse estourar, porque é um disco bem difícil, mas todo mundo gostou. As letras são complicadíssimas e não é tão pra cima quanto acham. É tão depressivo quanto o "V".
Tentamos fazer músicas mais pra cima porque era natural, mas não ficava bom. "O Descobrimento do Brasil" não é um disco pra cima, é como o "Power, Corruption and Lies", do New Order. É a coisa mais gloriosa do mundo, mas, se prestar atenção, é pesado.

Folha - Como o "Quatro Estações"...
Russo -
No geral, as pessoas acharam que aquilo foi a coisa mais alegre que já foi feita. Enquanto o "V", não. A gente tentou fazer uma música alegre pelo menos, de tudo quanto foi jeito, e não saía. "Vento no Litoral" só tocou porque tem uma melodia bonita. Acho "Metal contra as Nuvens" uma música superacessível. O problema é que o disco falava de coisas que as pessoas não estavam querendo ouvir na hora. Foi quando estourou a axé music, a gente veio na contramão. Mas o disco tem as melhores letras, de longe. Consegui falar tudo o que eu queria. Mas as pessoas não queriam ouvir aquilo. Por exemplo, "Metal contra as Nuvens" é uma música sobre o Collor, mas nunca ninguém falou sobre isso.

Folha - Como você vê a crítica?
Russo -
Eles usam os motivos errados. Eu não sou o dono da verdade, mas, para mim, o que motiva esses caras é um rancor e uma incompreensão do que é o nosso país e de como as coisas funcionam. Existem iniciativas maravilhosas no Brasil e a gente não sabe. Aí a gente fica oprimido, achando que tudo não presta, que tudo é horrível. Gostaria de poder apresentar um bom trabalho para as pessoas que gostam da gente. Acho sacanagem, na posição que a gente está, não tentar se esforçar o máximo para apresentar o melhor que a gente pode fazer.

Folha - E o futuro da Legião?
Russo -
Não tenho idéia. Eu não vejo como a gente vai seguir o que está fazendo sem se repetir. Depois de "Perfeição", eu vou escrever o quê? Depois que você fala "vamos celebrar a estupidez humana", o que você vai falar? Então talvez a gente faça uma coisa parecida com o que o The Cure faz, para depois, com o tempo, a gente fazer uma mescla. Ou virar uma banda de trabalho, como o New Order. Eu não quero ficar falando como eu acho tudo horrível como está. Se a gente cansar, a gente pára. Se a gente achar que ainda vale a pena fazer alguma coisa, a gente continua.

Sua Luta
Ele foi o maior ídolo pop dos anos 80 e começo dos 90 no Brasil. Renato Manfredini Júnior, ou simplesmente Renato Russo, nasceu no dia 27 de março de 1960, no Humaitá, Zona Sul do Rio de Janeiro. Filho de pai economista do Banco do Brasil e de mãe professora de inglês, Renato teve uma infância tranqüila, em uma família de classe média alta, onde pôde adquirir uma boa amplitude cultural. Principalmente, depois da estada fora do Brasil - aos 7 anos, mudou-se para Nova Iorque.

     Quando retornou ao Brasil, a família foi morar em Brasília. Ali começaria a fase mais traumática até então. Em 1975, com 15 anos, Renato ficou impossibilitado de andar. Sofria de epifisiólise, uma doença rara que ataca os ossos. Passou por diversos tratamentos e operações. Voltaria a caminhar só aos 17 anos.

     Apesar da complicação natural da situação, Renato acabou aproveitando o tempo para ler. Chegou a criar uma banda fictícia, na qual o cantor/alterego se chamava Eric Russel. O sobrenome artístico era uma homenagem coletiva ao filósofo Jean-Jacques Rousseau, ao pintor naîf Henri Rousseau e ao filósofo Bertrand Russell. Esta mistura filosófica e artística daria origem também ao "Russo" do Renato.

     Antes de realizar o sonho, porém, o futuro músico ainda seria professor de inglês, programador de rádio e jornalista.

     Freqüentava festas, escutava discos importados. O gosto geral era pelo punk. "De 76 a 78 eu ouvia muito rock progressivo. Aí o progressivo acabou. Genises e Yes perderam componentes. Comecei a ouvir Beach Boys, Jefferson Airplane, Bob Dylan e Leonard Cohen. Então, os jornais passaram a falar mal de toda essa gente. Apontavam para o Sex Pistols. Eu ficava curioso", disse certa vez Renato Russo, em entrevista à revista Bizz.

     Com essas influências, e mais The Clash e Eddie And The Hot Rods, Renato, que ainda não se chamava Russo, formou o Aborto Elétrico em 1978, banda que reunia os músicos Fê Lemos e André Pretórios. Renato tocava baixo, Fê era baterista e André ficava na guitarra e no vocal. Chegaram a fazer sucesso nas festinhas de Brasília. Mas André, filho do embaixador da África do Sul, teve que se alistar. "Foi para África lutar contra os negros", lamentou o músico.

     Renato decidiu então formar uma base de baixo/bateria - ele e Marcelo Bonfá - e chamar integrantes de bandas locais para a voz e a guitarra. Sempre com uma formação diferente. Daí o nome Legião Urbana. Mas esta idéia inicial não deu certo.

     Mudanças aconteceram e logo já contavam com um guitarrista fixo, Eduardo Paraná, que só queria solar. Contudo, o objetivo era fazer um som mais elaborado que o do Aborto. Chamaram também o tecladista Paulo Paulista Guimarães. Com esta formação, fizeram a primeira apresentação do grupo, em setembro de 1982.

     O virtuosismo de Paraná e Paulista empurraram os dois para fora da banda. Renato Russo passou então a contar com a guitarra de Ico Ouro Preto (irmão de Dinho, futuro vocalista do Capital Inicial). Mas esse também não durou muito. Finalmente, Dado Villas-Lobos assumiria a guitarra. O primeiro "vinil" da Legião Urbana foi lançado em 1984 e extrapolou as expectativas, vendendo de início 50 mil cópias.

     Em 1988, alegando não poder enganar mais seu público, Renato Russo assumiu publicamente ser homossexual. Dois anos depois, no final de 90, o poeta buscou a auto-internação para tratar do alcoolismo. Colocou fogo na clínica em protesto pela proibição de tocar violão para os outros pacientes na festinha de fim de ano. Era também uma maneira de pressioná-los a deixar ele passar o dia 24 de dezembro em casa com os pais. O "acidente" não teve importantes conseqüências e o obstinado Renato pôde ter um Natal em família.

     Mais tarde, o músico comprou um apartamento em Ipanema, Zona Sul do Rio. Andava muito deprimido, tenso, irritadiço e bebendo como um louco. Tinha certeza de que estava com Aids. Faltava coragem para fazer o exame. Talvez por isso, quando recebeu o resultado que comprovava suas desconfianças, tenha tido uma reação, se não conformada, fatalista.

     Poucas pessoas ficaram sabendo da notícia. Seu pai, Rafael Borges, Dado, Bonfá e Denise Bandeira, atriz e grande amiga de Russo. Embora admirasse Cazuza, não seguiria os passos do colega. A idéia era manter tudo em segredo. Até seis anos depois, quanto veio a falecer, existiam algumas suspeitas, mas nada foi confirmado em público.

     Em 1993, iniciou carreira-solo de sucesso paralela à Legião Urbana, lançando os discos The Stonewall Celebration Concert (1993), em inglês; Equilíbrio Distante (1995), em italiano; e ainda o disco póstumo O Último Solo (1997).

     Nas últimas semanas de vida, Renato não saía de casa, recusava-se a comer, afastou-se dos amigos. Trancou-se no seu apartamento em Ipanema (zona sul carioca), em companhia apenas de seu pai e de um enfermeiro. Não queria mais tomar o doloroso coquetel de drogas.

     Com 20 quilos a menos que os 65 habituais, barba comprida, Renato Russo morreu à 1h15min, no dia 11 de outubro de 1996, naquela que seria uma inesquecível sexta-feira para os milhares "legionatários" espalhados pelo país. O artista perdeía aí a luta de seis anos contra a Aids.

Renato Russo morreu de Aids
aos 36 anos de vida

Não queremos ser diferentes, e, sim, que todo mundo tenha o direito de ser como é. Eu não preciso me sentir mal porque não sou igual ao garoto que está no anúncio do iogurte. É você ser sexy, charmoso, com uma certa plasticidade corpórea. Cria-se uma geração de clones. Estes são os anos 90". Renato Russo

 



 
 Bruxo pode transformar o medo em alegria,
a frustração em realização, o temporal no intemporal,
pode levá-lo além das limitações em direção ao ilimitado.
O Bruxo é amor, com a Baqueta ele cria.
Com a Taça ele preserva. Com a Adaga ele destrói.
Com a Moeda ele redime. Suas armas cumprem a roda;
e em qual eixo ela gira, não é de seu saber.
LEGIÃO ERRANTE
Entrevista a Alex Antunes, Bizz, edição 78, janeiro de 1992.

A longa jornada do trio, da fábrica de hits até o neoprogressivo

"Que dia é hoje? Dezoito de outubro? O dólar tá quanto? 670? Esta entrevista vai ser publicada em dezembro? DEUS ME LIVRE do que vai acontecer até lá!!!"

É o Renato Russo que eu conheço. Hoje é treze de novembro e o dólar está a 800 e qualquer coisa (despencou. Mas só depois de ter estourado a barreira dos mil, para gáudio dos alarmistas em geral e dos especuladores em particular). E não aconteceu nada de digno da preocupação de Deus - pelo menos nada do que Ele já não esteja careca de conhecer.

Pô, já faz um mês que eu entrevistei os caras. E só depois de uma longa e tenebrosa primavera é que nos chegou às mãos, hoje, o raio do disco (aliás uma cópia pirata. Não, dona Odeon, não conto como eu consegui). Também é só hoje que parecem, finalmente, estar superadas todas as confusões que Russo & Cia. criaram com os fotógrafos que a BIZZ incumbiu de clicá-los - em geral uma missão prosaica, mas nunca no caso da Legião.

A velha Legião íntegra e frágil. A velha Legião sublime e pentelha. É só por isso que a Legião está na capa de janeiro, e não de dezembro, quando foi lançado o disco... Ou, do meu ponto de vista, quando será lançado, visto que eu estou transcrevendo, em novembro, a entrevista feita em outubro. De volta para o futuro, parte quatro. O dólar tá quanto, leitor?

Que treta foi essa com a gravadora?

RUSSO - É que nós negociamos, para o quinto disco, um contrato com total liberdade artística. Nossa relação com o pessoal da Odeon era quase afetiva e, no momento em que resolvemos fazer a coisa sozinhos, pintou um certo ressentimento.

DADO - Eles já tinham pisado na bola. Tentaram lançar uma coletânea pelas nossas costas, a gente vetou... Aí cortamos o cordão umbilical.

RUSSO - Mas agora já está tudo resolvido... É que nós éramos os "bichinhos mimosos", os enfants gatés da gravadora. Pô, eu estou com 31 anos, um homem casado, com filho. Não é mais aquela coisa (imitando criancinha) de "Oi, tio, e o disco, tio?" Vá falar com os nossos advogados! Se até o Axl Rose já reclamou da Geffen...

E como é o disco?

RUSSO - Ih, tem umas coisas medievais, uns instrumentais. O primeiro lado é uma viagem. Vão dizer assim: "Legião repete fórmula e lança disco progressivo (risos)..."

Progressivo?

RUSSO - Ah, eu adoro progressivo! Porque não me faz pensar. É música escapista. Estou ouvindo o Nursery Cryme do Genesis, imagina... Não todo dia, é claro. Mas eu voltei a colocar na vitrola. Na MTV, se você pega o programa certo, tem umas coisas muito boas... eles passam De-Falla! Mas às vezes eu quero ouvir coisas que me acalmem. É todo meu imaginário, é o que eu ouvia quando tinha onze, doze, treze anos...

Você jogou seus discos progressivos fora? Porque eu, na época da new wave, dispensei e depois tive que comprar de novo...

RUSSO - Não, eu guardo tudo! E tem bandas que eu nem percebia como eram boas... Eu achava Emerson, Lake & Palmer o máximo - hoje eu ouço e sei que é creca, aquilo não é bom de jeito nenhum. Agora, você pega o Lark's Tongues In Aspic ou até o Islands do King Crimson, e tirando aquelas coisas barrocas... Cara, "Ladies Of The Road" é bom pra caralho!
Nosso disco vai ter uma balada de onze minutos e meio, que se chama... (em tom solene) "Metal Contra As Nuvens"... A gente tentou fazer umas coisas pesadas, mas ficava tão frau... Fizemos isso por preguiça. Poxa, a gente tem que trabalhar no formato LP. E seria muito desagradável repetir o Quatro Estações, que virou um hit singles pack. Até hoje está tocando "Sete Cidades"! Acho que não há uma música daquele disco que não tenha tocado no rádio, umas mais, outras menos... Até "Feedback Song", que é a que menos tocou, foi primeiro lugar na rádio 89 de São Paulo, ou coisa parecida. Aí como é que fica? A gente vai ser obrigado a fazer quantos hits, já que o último tinha nove...

E as outras faixas?

RUSSO - O lado A começa com um texto em português arcaico, escrito em 1200. É a antítese do Quatro Estações, aquela coisa de que o amor-vai-salvar-todo-mundo... De repente este disco abre falando assim... "Pois nasci nunca vi amor/E ouço dele sempre falar". É assim. Nunca vi. Não existe. Acabou. Aí vem aqueles onze minutos daquela coisa superlenta... Fala de coisas de hoje em dia, mas de um ponto de vista meio medieval: "Não sou escravo de ninguém/Ninguém senhor do meu domínio..." Depois tem um instrumental chamado "Ordem Dos Templários", e mais oito minutos de "Montanha Mágica", que é uma música sobre heroína... Esse é o primeiro lado. Do outro é que está a realidade, as canções mais normais. Acho que é um disco bom para namorar, para fumar um...

É uma espécie de Low do David Bowie ao contrário, com o lado "difícil" na frente...

RUSSO - Mas não deixa de ser Legião. A gente sempre é meio brega. No primeiro disco a gente ainda tinha uma certa virulência. Agora, em vez de ficar reclamando, a gente faz uma música totalmente linda (cantarolando), "parararará, o mundo está uma merda..."

E as letras?

RUSSO - É um disco de transição...

BONFÁ - Claro que é de transição. A gente grava só de dois em dois anos, todos os nossos discos são de transição...

RUSSO - É de transição porque eu comecei a fazer análise. Não tenho mais aquele angst de jogar tudo nas letras. Sei lá. É a primeira vez que eu tenho certeza de que as letras são boas, mas eu não sei se gosto. Antes eu gostava, mas não sabia se estava bom...

A Legião perdeu o ímpeto juvenil?

RUSSO - Não, no disco tem uma letra que diz "o mundo começa agora/Só agora que começamos"... É claro que quando eu tiver 40 anos vou dar outra desculpa. O nosso amigo Mick (Jagger) dizia: "Como é que eu vou cantar 'Satisfaction' quando eu tiver X anos?" E hoje o cara está com X mais 14 e tá lá, cantando "Satisfaction"... A verdade é que a gente ainda nem sabe tocar direito. Hoje é o Dia do Médico, e o Dado taí perguntando quando é o Dia do Músico Estagiário...

DADO - O Dia do Músico Estagiário é de noite...

RUSSO - O maior trabalho que esse disco deu foi para fazer a coisa o mais simples possível. Eu adorei escrever coisas como "Acrylic On Canvas", mas neste disco eu quis ser bem mais simples... A gente tem até público infantil... Eu já tenho trauma de ter falado coisas sérias demais.
No pop e no rock não adianta você ser panfletário. Eu não vou fazer o equivalente sonoro das fotos do Robert Mapplethorpe... Se eu falar do que está rolando, da miséria, da angústia, eu terei que falar disso duma maneira que não agrida, porque já existe muita, muita, muita agressão. Se a gente não tivesse tanta responsabilidade... Isso é uma coisa paradoxal e controvertida, as pessoas podem até me entender mal... Mas se nós não tivéssemos responsabilidade, com certeza estaríamos fazendo outras coisas.

Mas isso parece um marketing anti-Legião!

RUSSO - Cara, a gente está num país em que as pessoas não têm educação! Na época do Quatro Estações a gente ainda fazia a coisa perigosamente. Aquilo é o disco de um cara descrente. A gente não vai esquecer "Que País É Este", que era uma música adolescente boba e quase fode com a gente! Ou daquele show em Brasília, vendo a garotada se matando.

... É melhor não chutar o pau da barraca?

RUSSO - Eu tenho um filho pequeno, que está aprendendo a falar agora. Se eu quiser escrever sobre heroína, vou fazer de jeito que, quando meu filho ouvir a música, não fique chocado.

A Legião já foi considerada porta-voz de uma geração...

DADO - Tem uma dose de mitificação nisso.

RUSSO - Aquela coisa do Herbert (Viana) dizer que a Legião não é música... A gente é o que?!

DADO - ...É religião...

RUSSO - No momento em que a gente não é tratado como igual nem por nossos pares, eu me sinto colocado contra a parede. Legião nem é tão bom nem tão especial. Claro que tem coisas bacanas, mas também tem muita coisa que não presta... Só que tem uma certa empatia. Como eu faço as letras sempre em primeira pessoa, há uma identidade, paradoxal, entre a música e o ouvinte... "Poxa, esse cara tá falando da minha vida!"
Já teve um cara que até quis me bater! Eu estava andando no Shopping da Gávea, chega esse cara e diz: "Você não tinha o direito de escrever 'Ainda É Cedo' sobre a minha história, de ficar espalhando isso para as pessoas! Como é que você sabia de tudo?", e me olhando, com aquela cara de psicótico... Pô, cara, eu estava falando de mim! Eu sempre gostei de Bob Dylan, desse tipo de compositor que mesmo quando está falando do social, do que quer que seja, passa isso por um prisma psicológico-afetivo-emocional-íntimo, sei lá... Mas qual era a pergunta mesmo (risos)?

A Legião se sente parte dessa geração que está sendo detonada pela crítica por tentar mudar de registro? Tipo os Titãs, tentando fazer rock mais pesado, ou os Paralamas, cada vez mais românticos?

RUSSO - Eu acho que esse disco dos Titãs é o disco mais Titãs deles. O dos Paralamas é o mais Paralamas. E o nosso é o mais Legião... O que era açucarado, agora é sacarina pura... O Metallica sim é que deu uma diluída

E as comparações entre a Legião e os Engenheiros?

RUSSO - Não estou muito em posição de falar de nenhuma banda, porque a coisa fica rebatendo durante meses. Numa entrevista, uma única vez na minha vida, falei alguma coisa dos Uns E Outros, que eu achava eles parecidos com a gente, e também reclamei um pouquinho do Capital, porque eles estavam dando no saco, pegando música antiga minha e gravando - e olha que eu sou amigo dos caras e tudo. Isso ficou rolando meses, era só abrir a revista... Eu li a entrevista do Humberto (Gessinger) na BIZZ, e achei que o que o cara falou tinha a ver, eu queria ter falado algumas coisas daquelas...
Lá fora esse tipo de coisa não existe porque para cada banda tem mais trinta iguais! Só banda-de-franjinha deve ter umas cinquenta! Eu não sei qual é a diferença entre Charlatans e Inspiral Carpets e Ride e não sei mais o que... Que importa se é o Humberto ou o Russo quem escreve melhor? Que bobagem, eu faço música para ganhar dinheiro! Não foi o Humberto que disse que todos nós somos umas putanas? Eu tenho aluguel para pagar. Tenho 31 anos, já passei da fase de morrer de overdose... Todos eles morreram com 27... Eu agora tenho mais é que virar Rod Stewart...

Calma lá!

RUSSO - Não estou dizendo que eu sou falso. Eu acredito no que eu canto. O que acabou foi essa coisa do Russo poeta romântico. Que nada, é só letra de música - e ainda por cima eles roubam toda a grana da gente! Tivemos que montar uma editora para cuidar dessas coisas... Será que não existe nada mais importante na vida que letra de rock'n'roll?

Para a molecada idealista, provavelmente não.

RUSSO - Eu estou sendo diplomático. Claro, tem coisas de que realmente eu não gosto. Por exemplo, todo munda adora o Lenny Kravitz, e eu acho o Lenny Kravitz um fake de marca maior. Não gostava dos Guns N'Roses, ficava puto com as coisas que o Axl falava...
Hoje em dia até respeito o cara: ele pensa realamente desse jeito, e está tendo que assumir a responsabilidade pelo que diz. Nada é impune. Até comprei um disco do Guns... Só não fico ouvindo porque acho que vai ser um desserviço enorme para o rock'n'roll. Toda a garotada que está vindo agora vai achar que foram eles que inventaram todos aqueles riffs... Na verdade eles chupam os caras que chupavam dos Stones, que já tinham chupado de alguém antes...

DADO - Tem que ter discernimento pessoal, subjetivo. Eu adoro Cowboy Junkies, é maravilhoso. É diferente de, sei lá, Divinyls... É tudo pop, mas dá para discernir. É tudo putana, mas tem as da rua Major Sertório e as da madame Claudette.

RUSSO - O que me irrita um pouco é que não tem jeito de a gente falar do nosso trabalho sem citar outros. Eu vim para cá e já sabia: vão me perguntar dos Titãs, dos Engenheiros... Será que não dá para falar do nosso trabalho?

É porque vocês se recusam a mostrar o disco... (Confusão. Bonfá quer mostrar algumas pré-mixagens no toca-fitas do carro. Depois acabaríamos no estúdio onde o disco estava sendo mixado, para ouvir duas músicas... mas ambas do lado B).

Você, que gravou em português arcaico, acha que quem está escrevendo em inglês está prestando também um desserviço para a língua portuguesa?

RUSSO - Que língua portuguesa? Cadê nossas escolas? A língua portuguesa é muito bonita, mas é difícil. Dá muito menos trabalho escrever em inglês, que tem certos fonemas, e a divisão das sílabas... quando há sílabas! Porque o inglês é uma língua virtualmente monossilábica... Sério, é melhor fazer música em inglês do que uma música em português que diz "mulher é tudo vaca". Aí é o meu limite. Isso não dá.

Você a favor da censura?

RUSSO - Censura não, nunca. Tudo bem, alguém fez, tem o direito de se expressar. Mas "mulher é tudo vaca" é o cúmulo...

DADO - A gente tinha umas coisas em inglês neste disco, mas acabaram não entrando...

RUSSO - É, eram três músicas em inglês. Não entraram de propósito. E olha que eu adoro cantar em inglês. Meu inglês é legal, "Feedback Song" eu escrevi em inglês porque era uma coisa pesada, sobre a Aids... Mas talvez também tenha sido vislumbre disso, de quem sabe tocar lá fora, como o Sepultura...
Que eu aliás considero, humildemente, a maior banda nacional hoje em dia. Em termos de tudo. Eu nem entendo muito de metal, mas respeito o espaço que eles conseguiram, fazendo o que querem... Pode esquecer o tal triunvirato Titãs-Paralamas-Engenheiros... Tem um trocadilho com o heavy metal no refrão de "Metal Contra As Nuvens" que é assim: "Eu sou metal, raio, relâmpago e trovão/Eu sou metal, e eu sou ouro em seu brasão"...

Se você me permite uma comparação escrota, pensando no show do Pacaembu, acho que o Sepultura é mais herdeiro da Legião do que os Engenheiros...

DADO - (Entusiasmado) Totalmente verdadeiro!

RUSSO - É, a postura é parecida, só a música é diferente. "Dead Embryonic Cells", aquele clip é um escândalo! E eles são bonitinhos (risos)... Isso no rock conta! Você quer um bando de trolhas lá em cima (risos)? Eu, pelo menos, as fãs dizem assim (imitando tiete): "O mais bonito é o Dado, o Bonfá também é lindo. Mas o Renato é o mais inteligente"... deixa elas pensarem...

DADO - A beleza é inversamente proporcional à inteligência... Isso é ofensa ou elogio (gargalhadas)?

RUSSO - Tudo bem. Vocês são bonitos e inteligentes (risos)... A imagem é importante. É que nem o Donny dos New Kids. Ele tinha que ser alguma coisa, já que é o mais feioso. Então ele tem que ser o rebelde, o que fala as coisas.

Te preocupa não ser bonito?

RUSSO - Só na hora de tirar fotos... (Valeu o aviso, grandessíssimo filho da mãe!)

Mas eu já ouvi fã dizer que você é o cara mais bonito do mundo...

RUSSO - Poxa, avisa essas pessoas para me darem mole com mais frequência (risos)! Pode chegar e dizer: "Renato, você é um tesão, vamos fazer isso e aquilo (gargalhadas)"...

Renato Russo faz seu "Último Solo"
Renato Russo faz seu "Último Solo"

Folha de São Paulo

CD póstumo reúne oito sobras das gravações dos dois álbuns individuais do líder da banda Legião Urbana

Um ano após sua morte, o cantor Renato Russo volta às lojas com um novo disco. "O Último Solo" reúne sobras de estúdio dos dois álbuns de Renato sem a Legião Urbana: "The Stonewall Celebration Concert" (1994) e "Equilíbrio Distante"(1995).

Do primeiro, cantado em inglês, sobraram quatro músicas ("Hey, That's No Way to Say Goodbye", "The Dance", "I Love You Porgy" e "Change Partners"); do segundo, mais quatro ("Il Mondo Degli Altri", "Ti Chiedo Onestà", "Lettera" e "E tu Come Stai?").

Três músicas ficaram de fora das sobras. Segundo o tecladista e arranjador Carlos Trilha, que produziu o CD, a qualidade da voz e da interpretação de Renato ficariam muito aquém de "O Último Solo".

"As músicas em condições de serem apresentadas e que ele gostaria que fossem apresentadas ao público são essas que estão no disco", disse.

Trilha, que co-produziu os dois discos de Renato, começou a trabalhar em "O Úlitmo Solo" em março. Ele diz que teve muito trabalho para limpar os registros com a voz do cantor. Principalmente nas quatro músicas em italiano - com apenas a voz guia gravada.

Em duas músicas ("The Dance" e "Il Mondo Degli Altri") houve a adição de uma orquestra com mais de 40 músicos atendendo a indicações de arranjo do próprio Renato.

A Gravação foi feita no estúdio 1 de Abbey Road. Foi lá também que o álbum foi masterizado, por Nick Web (Paul McCartney, Genesis, Rolling Stones e Pink Floyd).

O disco, com menos de 30 minutos de duração, vem com alguns atrativos como compensação. Há uma faixa multimídia interativa para CD-ROM com o clipe de "Strani Amore" - de "Equilíbrio Distante" - e 12 minutos de um depoimento em áudio de Renato para a divulgação de seu CD anterior.

O título do CD foi uma escolha do pai do cantor, Renato Manfredini. Uma escolha de duplo sentido. "Musicalmente ele não vai cantar mais. O outro solo a que se refere o título é o solo de flores que ele escolheu para ter as cinzas dispersas", revelou.

Por isso, a capa é um quadro de flores pintado pela irmã do cantor, Carmem. "Renato sempre disse que esse quadro era dele e que um dia ele iria para seu apartamento."

Ele disse que a família não pretende fazer uma biografia de Renato - e contou que, até agora, se negou a colaborar com quem quis fazer. Mas pretende fazer uma compilação com as letras do cantor, incluindo as inéditas.

"Ele sempre nos disse que as letras eram bem explícitas e que quem procurasse entendê-las não precisaria saber da vida dele."


Entre Lágrimas e Cotoveladas

Por: Daniela Name

"No lugar da Ave-Maria e do Pai-Nosso, uma cantilena de "Tempo perdido", "Eduardo e Mônica" e "Monte Castelo", repetida dezenas de vezes pelos fãs de Renato Russo na porta do crematório do Caju. Era uma manhã de sábado e O GLOBO era o único jornal que tinha chegado cedo, na esperança de entrevistaros outros integrantes do Legião Urbana ou alguém da família do compositor. "O Dia" e "O Fluminense" chegaram mais tarde, engrossando conosco o exército de repórteres de rádio e TV. Assistíamos à missa de corpo presente pelas frestas da parede e comungávamos uma certeza: nosso trabalho tinha acabado ali, na anotação do ritual. Talvez por isso pouca gente tenha dado atenção à mulher magrinha, baixa, de óculos escuros, que abriu o portão do crematóriopara agradecer a presença dos fãs. Os adolescentes suados, que tinham virado a noite no Caju, fizeram um cordão de isolamento em torno de Maria do Carmo Manfredini, mãe de Renato. Cheguei perto dela aproveitando as cotoveladas de um gordo alto no resto da galera, mas poucos conseguiram uma carona igual. Não se pode esperar palavras coerentes de uma mãe que acaba de perder o filho de Aids - e um filho jovem, inteligente e carinhoso com a família. Mas dona Maria do Carmo disse várias. Começou respondendo minhas perguntas óbvias sobre as canções inéditas do grupo. Emocionada sem chegar ao desespero, negou a Aids anunciada pelo médico Saul Betsche, alegando que o filho tinha morrido de anorexia nervosa, mas falou espontaneamente que Renato tinha desistido de viver. E fez isso dando voz ao filho morto, reproduzindo os diálogos que tinha com ele: "Júnior, vai jogar bola, vai namorar" Ele ria baixinho e dizia: "Não adianta, mãe, eu sou diferente". Não estava falando mais do compositor controverdito, depressivo, transformado em mito da noite para o dia. Revelava o garoto tímido da Ilha do Governador, que se dizia ateu, mas era devoto de São Judas Tadeu e morreu com uma medalha de Nossa Senhora Aparecida no peito. Explicava que o garoto sensível virou um adulto atormentado: "Nos últimos tempos, não cansava de repetir: 'Mãe, eu não sou daqui'. Sempre foi muito atormentado, sofria profundamente até com guerras na Conchinchina". Já era muito para quem acreditava que ia escrever um texto corrido sobre os fãs chorosos, mas tive coragem de fazer uma última pergunta: "A senhora acreditaque seu filho foi feliz?". Ela podia titubear, alegar cansaço, soltar um desaforo. Mas falou a coisa mais triste e bonita que ouvi nos últimos tempos: "É duro dizer isso, mas tenho certeza que não. Uma vez ele me disse:'Mãe, eu só fui feliz na infância"'. A coragem de Dona Maria do Carmo mostrou que a reportagem às vezes não termina no que é visto pelas frestas da parede. Emocionou fãs e alguns fotógrafos, levou um camera man às lágrimas. E me fez agradecer intimamente ao gordo alto, com suas abençoadas cotoveladas."

Um Dia Perfeito

Revista Capricho - outubro de 1996.
Por: Fernando Luna.

O apartamento ficava num prédio baixo, em Ipanema, no Rio. Subi dois lances de escada e encontrei a porta aberta. "Oi, eu sou o Renato", apresentou-se, como se eu não estivesse lá justamente por ele ser o Renato. Parecia que eu estava entrando na casa da minha avó. Aquele sofazinho de pano, móveis antigos, a mesinha do telefone, o abajur. Era tudo, menos a casa de um roqueiro. E Renato Russo morava ali. Não é muito comum entrevistar um músico na sua própria casa. Entrevistas costumam acontecer em lugares menos impessoais. Um apartamento pode ser muito revelador. Logo na entrada, um monte de CDs jogados ao lado do aparelho de som. Para minha surpresa, encontrei discos de música erudita e óperas. No meio deles, o álbum do Foo Fighters ainda fechado. Começamos a conversar. Ele estava animado com o lançamento de Equilíbrio Distante. Falava rápido e se levantava toda hora. Fazia imitações, sempre a mesma vozinha esganiçada e hilária. Não parecia o cara sério que a gente via nas fotos dos discos. Se minha adolescência tivesse uma trilha sonora, várias faixas de Legião Urbana e Dois estariam nela. Por isso, fiquei mal com a notícia que li, dia 11 de outubro, em um jornal brasileiro na Internet (desde que vim morar em Londres, em junho, leio os jornais daí sem precisar sujar as mãos). "Renato Russo morreu na madrugada de hoje". Só. Os detalhes apareceriam nas edições do dia seguinte. Lembrei que, às vésperas do meu embarque uma amiga me deu uma fita da Legião. Remexi as gavetas até encontrar, mas não tinha sequer um walkman para ouvir as músicas. Aí me dei conta de que sabia todas de cor, comecei a cantar, baixinho, talvez com medo que o Renato Russo pudesse estar ouvindo

Nunca mais os filhos da revolução

Por Ricardo Alexandre.
O Estado de São Paulo - 26 de setembro de 1996.

Integrantes da Legião falam, com exclusividade ao "Zap!", do novo CD e do relacionamento entre eles.

Depois de três anos afastados dos estúdios, dos palcos, do showbiz e, praticamente, afastados uns dos outros, a Legião Urbana resolveu sair da toca com seu tão aguardado novo CD. A Tempestade (Ou o Livro dos Dias) é um ponto crucial para os três garotos brasilienses que amavam PIL e Jesus & Mary Chain. Não é toda hora que muitos fãs têm chance de ouvir um novo disco da banda. Mas a atenção aumenta já que, desde O Descobrimento do Brasil, muita água rolou na música pop nacional e, fora a Mãe Dinah, ninguém ousaria prever o futuro da banda. E olha que o último álbum nem foi tão bem assim, apesar de ser considerado por Renato Russo como um "ótimo disco de festas", parando nas 350 mil cópias. Mas, a julgar pela repercussão da primeira faixa de trabalho, A Via Láctea, nas rádios, o sucesso do grupo continua intacto. E, em termos de vendas também: A Tempestade chegou às lojas nesta segunda-feira, com 340 mil cópias já devidamente reservadas.

O novo trabalho abre um leque de timbres e climas até então inéditos no trabalho do trio. E boa parte dos méritos por isso é da produção de Dado Villa-Lobos, que cuidou para que cada faixa encerrasse um conceito único, por meio das válvulas, violões, violas, pedais e amplificações diversas. As letras também trafegam do depressivo semi-trágico ("Não há ninguém para ajudar a explicar porque é que o mundo é este desastre que aí está..." Ou "... Não quero mais ser quem sou..."), passam pela exaltação da vida caseira da Leila e vai aos pirilampos de festividade em Soul Parsifal - que, musicalmente, lembra algo como Rita Pavone tocando nothern soul. Há, também, um retorno clássico aos anos 80, Dezesseis, um três-acordes sobre um adolescente que explodiu seu carro, com as tradicionais referências à Brasília, o eterno amor/ desavença do trio. É o disco mais variado da banda e com uma porção de hits certeiros, perfeito para recolocar o grupo na briga do rock nacional, ainda mais por "se destacar tanto das coisas que tocam normalmente no rádio", como bem definiu Dado.

A sugestão de que fizéssemos a entrevista em separado foi do próprio guitarrista, para que Renato Russo não "monopolizasse" a conversa com seus contos e recordações. Assim, com exclusividade nacional, pincelamos do trio muitas divagações artísticas, exercícios de futurologia e, claro, observações sobre o novo disco.

PS.: Não, não perguntamos se Renato está com Aids.

Renato Russo

Qual é a diferença de A Tempestade e os últimos discos?

É que A Tempestade ficou mais pop. A gente gravou 25 canções, mas daí nos tocamos da inviabilidade de, num último trabalho de um contrato, lançar um álbum-duplo. Pensamos em fazer um disco dividido em dois - exonera mais, mas disco-duplo ninguém compra, porque é muito caro. Aí a gente tirou umas músicas, para que não só o pessoal mais sofisticadinho comprasse o disco novo da banda.

Você acha que o novo disco deve repetir os feitos dos trabalhos dos anos 80 da Legião, em termos de números de hits e de vendagem mastodôntica?

Eu não tenho nem idéia. Eu não sabia, por exemplo, que meu CD em italiano poderia chegar à platina-duplo já está chegando a 450 mil cópias. Nunca imaginei! Ao passo que o Stonewall (primeiro solo de Renato), eu pensei que fosse ter um desempenho melhor, mas houve problemas de distribuição, ninguém encontrava o CD nas lojas e não sei o quê. Aí formamos uma equipe para trabalhar junto à gravadora. A Odeon trabalha muito como independente inglesa, você vê pelo cast - Paralamas, Marina, a gente, Marisa Monte. Todo mundo com liberdade para fazer o que quer, sabe? É outra coisa...

Vocês parecem se preocupar bastante com essa coisa de atitude. Não fazem shows, fotos, raramente dão entrevistas. Há uma preocupação com a postura da banda, uma imagem a ser preservada?

Claro que não, é que nós levamos nossa displicência muito a sério! Então, não me peça para fazer clipe que eu não vou fazer, me deixa quieto aqui em casa.

Você não gosta nem de fazer clipe?

Eu não gosto de nada! Eu gosto é de compor, entrar no estúdio, encontrar os rapazes, trabalhar a obra, pensar na capa e pronto, coloca o disco na loja. A gente é artista de gravação. O Lou Reed falou isso: "I'm a recording artist", não é um poeta. Ele é um artista que grava e essa é a visão que eu tenho da Legião.

A Legião sempre se caracterizou por ser meio que uma turma fechada - desta vez nem produtor vocês chamaram e os discos acabaram sempre com o mesmo padrão sonoro. Não dá vontade de entrar no estúdio para fazer seu Pet Sounds (clássico da psicodelia e da engenharia sonora, lançado pelos Beach Boys em 67), subverter tudo?

Todo próximo disco da Legião vai ser o nosso Pet Sounds, mas acaba não sendo. Acho que cada trabalho de todo o artista é para ser o Pet Sounds, mas não é, entende? E tembém, a gente já tem as nossas formulinhas o Bonfá é bem implicante em relação a isso. Você assiste aquele Acústico da MTV e parece que ele está com prisão de ventre, detestando estar lá. Isso ninguém sabe, tipo: "Sou baterista, não percussionista! Não vou ficar lá tocando aquele sininho ridículo!"

Você ainda se mantém informado sobre a cena de Brasília? Vocês foram a cria mais emblemática do circuito de casas noturnas, selos, etc...

Não, tudo isso aconteceu depois que nós já estávamos no Rio. Depois da Legião, veio o tédio novamente e aí apareceram milhões de bandas, das quais a minha predileta é a Low Dream. Não sei como eles conseguem aquelas guitarras, meio Jesus & Mary Chain e My Bloody Valentine, porque a gente tenta, tenta... Tem o problema deles cantarem em inglês, mas as suas letras são tão sintéticas que eles poderiam cantar em português.

Você já tem algum próximo projeto solo em maquinação?

Não. Eu já estou exausto de ficar falando deste disco, não sei o que vai acontecer. Provavelmente, eu vou sair do País,vou embora para São Francisco, ficar lá uns dois meses e de lá vou para a Nova Zelândia. Porque, este ano, no Brasil, primeiro o cristal se quebrou (refere-se à polêmica financeira envolvendo o Paulinho da Viola na última passagem do ano carioca) e a magia se acabou. Logo depois teve o acidente com os Mamonas. Eu estava muito ligado ao João (Augusto, diretor artístico da EMI), a gente estava trabalhando no nosso projeto e ele ficou arrasado, todo mundo ficou arrasado e eu fiquei muito surpreso que ninguém tenha notado a importância deles como evento cultural brasileiro. É a mesma coisa que morrer algum dos Secos & Molhados e ninguém falar nada, só falar da multidão no enterro. Foi horrível, de qualquer forma. Aí depois vieram as enchentes, aí a chacina no Pará. E este disco novo, dizem, está tão melancólico, tão triste, tão não-sei-o-quê, que está perfeito para todos esses problemas que a gente está tendo de enfrentar.

 

Dado Villa-Lobos

Não enche o saco ser "o cara legal" da Legião, meio que o porta voz do grupo, a pessoa que todo mundo procura falar, ao contrário do começo, quando essa função era mais dividida?

Bem, é a primeira vez que isso acontece, porque o Bonfá não é a pessoa mais indicada para falar, por sua própria personalidade, e o Renato não está legal, prefere não falar. Mas, na verdade, eu nunca respondo pela banda, sempre procuro colocar os meus pontos de vista e opiniões particulares.

Porque o disco acabou ficando com dois nomes?

Porque eu gostava mais de O Livro dos Dias e o Renato gostava mais de A Tempestade. Eu achava mais legal o primeiro nome por causa da música. Eu não desvendei ainda seu significado, o Renato estava me dizendo que é um lance gay, mas acho que O Livro dos Dias tem a ver com calendário, com a História, com os dias tempestuosos de hoje.

Você, como bom fã de Oasis, não sente falta de trabalhar em formato mais pop, com refrõezinhos e tal?

Não, pelo contrário, estou cada vez querendo me distanciar mais disso. Mais do que Oasis, prefiro me aproximar de uma coisa mais Beck, que também não tem um formato pop. Mesmo a Legião nunca teve refrões fáceis - com exceção de Será ou Pais e FiIhos, talvez. O problema é que tem muita banda de rock querendo soar como pop, o que eu considero um desperdício. A Legião continua sendo uma banda de rock nesse sentido e nem é só a questão da música, que continua um híbrido de folk, pop e rock mas da atitude, de postura mesmo. Não tem refrãozinho.

Rolou um boato de que vocês três nem chegaram a se encontrar muito no estúdio, que cada um gravou sua parte sozinho...

O começo das gravações foi legal, tranqüilo, como sempre foi. Agora, de fato, o que rolou foi que depois das gravações das bases, com todo mundo tocando junto, eu fiquei sozinho gravando as guitarras e produzindo tudo. Normalmente, mesmo quando eu gravava as guitarras, a gente trocava idéias, conversava sobre para onde as coisas deveriam ir.

Você e o Renato chegaram até mesmo a brigar...

É, mas foi uma questão musical e estética e, de certa forma, descambou para o pessoal, porque o Renato às vezes não sabe lidar com as pessoas. Mas depois ficou tudo bem, senão a banda teria acabado, o disco não teria nem sido terminado, a gente deixava lá para EMI ver o que faria. Sabe como é, banda é como casamento. Claro que a gente não iria acabar, por várias razões profissionais e tudo, mas sempre rola briga.

Esse disco é nitidamente mais maduro do que os anteriores. Você acha que os ouvintes de 30 anos gostam do Legião, que é um grupo que se celebrizou pela empatia com o público adolescente?

Ah, com certeza, porque o cara que tem 30 anos tinha 18 quando nós começamos. E seria mesmo estranho se nós não amadurecêssemos, apesar de continuarmos falando as mesmas coisas de antes, só que com uma outra abordagem, para um público que, na verdade, vai dos 18 até os 40 anos. O problema é que os adolescentes de hoje estão muito esquisitos, só escutam música muito rala Neste sentido, a gente está distante mesmo.

Marcelo Bonfá

Como está o relacionamento entre vocês? Se vocês não se encontram como rolam os ensaios?

A gente nunca foi uma banda de "músicos", nunca rolou muito ensaio, exceto na época de Brasília. Nas gravações dos primeiros discos, o Renato, ele sempre foi meio maluco, chegava com o disco pronto na cabeça e eu (em tom surpreso): "Ah, ainda bem que o disco está pronto!" Por isso as músicas são tão retas, eu inventava um negocinho e ele: "Ah, legal, repete aí." Mas agora, tá todo mundo adulto, o Renato parou de beber, foi maravilhoso. A gente mal se vê, mas a relação é muito melhor.

Houve alguma mudança no processo de composição?

Não. Nosso processo de compor e gravar sempre foi meio que a cobra-mordendo-o-rabo. A gente tinha alguns esboços, coisas antigas que fizemos há até uns dois anos, sobre idéias que um ou outro trazia. Aí eu criava um ritmo, pegava um clique, "midiava" no teclados e gravava a música como guia. Depois o Renato fazia a idéia e desenvolvia uma linha melódica em cima. Eu gravei a bateria definitiva, tudo em uma semana e o Dado ficou lá, gravando as guitarras. Por mim e pelo Dado a gente ousaria mais. Eu dizia: "Vai lá, Dado, detona!" (risos). Mas o Renato é mais conservador, tem medo de sair muito fora dos padrões e a gente sempre voltava atrás.

Enquanto o Dado produz discos e comanda a Rock it! e o Renato grava seus disquinhos em italiano, como você ocupa seu tempo extra-legião?

Eu nunca trabalhei tanto na vida, mas eu trabalho mais para mim, para minha família, tenho uma família maravilhosa, faço tudo por ela. Eu desenho, eu pinto, nem que seja para rasgar tudo no final. Nesse tempo entre os discos, eu fiz uma casa. Nem gosto de falar sobre isso porque, no jornal, vão pensar que eu contratei alguém e só assinei o cheque. Mas não, eu projetei, bolei as portas, agora eu sei até fazer cálculo estrutural. Minha casa é minha obra de arte, desde o prego até a horta no fundo - adoro terra e flores

Renato Russo: O Roqueiro do "Amore Mio"
Por Cristiane Simäes e Renato Guima
Extraido da Revista Ele & Ela - Dezembro 1994

A idéia do disco em italiano veio depois da experiência em inglês com o Stonewall Celebration?

Trabalhamos até outubro do ano passado, fizemos a turnê do Metropolitan e depois o Dado e o Bonfá já tinham outros projetos. Fiquei me perguntando: o que vou fazer? Até que um dia resolvi ir a uma loja de discos e achei uma seção enorme de música italiana. Puxa, não conhecia nada disso, a não ser algumas da minha infância. Comprei uns quatro discos e fiquei surpreso com as letras. São muito parecidas com a temática da Legião. O canto deles também é próximo do meu jeito de interpretar. Comentei com o pessoal da (gravadora) EMI-Odeon que queria gravar em italiano e, em duas semanas, me mandaram para a Itália. Foi jóia. Não sei nada de italiano, apenas repetia as letras. A produção foi toda minha, da ordem das músicas aos arranjos.

O disco surgiu também por causa de sua ascendência italiana?

É. Não queria fazer um disco solo em português, senão todo mundo ia começar a dizer que a Legião acabou. A música remete a emoções.. Nessa viagem, aproveitei e fui à cidade de Cremona para ver a certidão de casamento dos meus bisavós, que vieram para cá em 1875. Ainda descobri que este ano comemoramos os 150 anos da imigração italiana, teve tudo a ver.

Chegou a conhecer os compositores que gravou?

Conheci só os produtores das músicas. Foi bom conhecer o país, sentir o cheiro da terra, ver como as pessoas andam na rua, ouvir o som do idioma para ficar com espírito italiano.

E os projetos de show com esse disco?

Por enquanto, não tem nada definido. A língua não é tão conhecida e ainda por cima as rádios estão tocando Laura Pausini, que canta quatro músicas que gravei. Não sei se vai ter briga do tipo não vou tocar a versão do Renato porque já tem a da Laura em espanhol. Mas é um bom disco para o verão, para namorar.

Por que não teve show com Stonewall?

Porque já estava em turnê com O Descobrimento do Brasil. Dá trabalho, tem que juntar os músicos e ensaiar, não é como com o grupo, que já está careca de saber. Nunca tinha feito música pop e é mais difícil do que rock. O Legião é muito mais mole. Ficou menos brega do que tinha imaginado, mas há umas coisas estilo Fafá de Belém no Domingão do Faustão. (risos)

Pretende alcançar um público que não conhece suas músicas?

Essa não foi minha preocupação. Pensei o seguinte: ser que consigo pegar essas músicas bregas e fazer com que as pessoas se emocionem com isso? Foi tipo quando o Caetano gravou Sonhos, do Peninha. Ninguém dava nada pela música e todo mundo ficou falando depois: "Que coisa linda!"

E o povo italiano conhece o trabalho da Legião?

Muito pouco. Eles conhecem mais Chico, Caetano e Roberto Carlos. Quis colocar alguma coisa brasileira no disco e ficou até engraçado porque não entendo nada de bossa nova. Mas resolvi gravar Wave e Como Uma Onda para ter algo brasileiro e para fazer uma homenagem pro Tom Jobim. Quando ouço o disco, não me lembro da Itália, me lembro de uma época da minha infância. Minha tia e todos aqueles coroas ouvindo Pepino di Capri, Rita Pavone. A própria Jovem Guarda tinha muito dessa influência da música italiana. Num determinado momento, isso se perdeu. Tinha o filme Candelabro Italiano, coisas bem anos 60, mas depois sumiram, com a entrada da música americana.

E como vai a Legião?

Muito bem. O Dado e o Bonfá foram para Londres cuidar da remasterização e as caixas ficaram legais. Esse relançamento é importante porque a primeira tiragem dos discos é ótima, mas depois vai decaindo. E, como a gente vende razoavelmente bem, daqui a pouco você compra o disco na loja e está tudo fora de registro. Além disso, nossos três primeiros discos não foram feitos para ser CDs. Muitas pessoas ainda têm o disco em vinil e não em CD.

Mas vai demorar quatro anos de novo para ter show?

Não, claro que não. Sei que está na hora de fazer, mas agora estamos trabalhando no próximo disco.

Como é o processo de composição das músicas?

A gente faz uns pedaços, depois pega e fica ouvindo. Já devo ter umas cinco ou seis letras e mais uma portão de idéias para o próximo disco. Guardo tudo numa sacola velha. Se por acaso uma letra não entra no disco, guardo e depois coloco em outro que tenha a ver. Também coleciono possíveis títulos.

E como começa a produção do disco?

Marcamos estúdio e cada um já leva alguma coisa pronta. O Bonfá compõe bastante... Aliás, as pessoas têm mania de achar que sou eu que faço tudo. O Dado às vezes traz a melodia acabada, só fica faltando a letra.

O que é mais complexo?

Escolher as letras. Na hora de gravar o disco, nós sentamos e escolhemos o que tem de melhor nas fitas. Gravamos na pré-produção e sai uma beleza, mas depois não conseguimos reproduzir igualzinho, o que é um saco. Somos mais intuitivos do que músicos. A parte que demora mais é a composição das letras. Demorei três meses para escrever Há Tempos.

Os seus discos também relembram alguma fase da sua vida?

É diferente. Como é trabalho, geralmente não consigo fazer essa associação. Se eu estiver bem e tocar Angra dos Reis, eu fico ótimo. Mas geralmente não é assim. O que me lembro mesmo é do trabalho que das gravações e, quando fica pronto, já ouvi tantas vezes que não dá, não tenho saco.

Não dá vontade de pegar um CD do grupo e ouvir?

De bobeira, não. Posso falar, hoje vou ouvir, e faço como trabalho, analisando. É aquela coisa que o padeiro fala, quando oferecem pão a ele: "Chega!"

O que você ouve então?

Gosto muito de música clássica.

Por isso, o último show foi aberto com ela?

Acho emocionante aquela abertura da Flauta Mágica de Mozart. Todo mundo gritando "vai começar!" Deixa uma expectativa legal. Todo mundo abre show com Carmina Burana. Não agüento mais ouvir aquilo! Está muito clichê. É igual a esses discos que vendem só Quatro Estações, de Vivaldi, e Valsa das Flores, do balí Quebra Nozes, de Tchaikowsky.

Quais são seus compositores prediletos?

Teve uma época em que só ouvia compositores bem antigos, até o tal do anônimo. Aliás, esse cara escreveu muito, né? (risos) E coisas mais recentes tipo Debussy, Eric Satie e Stravinsky. Agora, de dois anos para cá , tenho escutado muito música romântica, que antes achava chato, tipo Brahms, Schubert. Gosto muito de anos 60 e 70. Dos 80, não ouço quase nada.

Por que?

Não gosto. Não tenho saco para ouvir New Order e The Cure. Já David Bowie e Rolling Stones eu adoro.

E grupos brasileiros?

Gosto muito do Pato Fu. Tem alguns grupos que eu respeito pra caramba. O Titãs, principalmente da época do Arnaldo. Acho Jesus Não Tem Dentes No País Dos Banguelas um dos melhores discos de rock de todos os tempos. Geralmente gosto de ouvir outras coisas como Kid Abelha e Paralamas. Já ouvi muito Pink Floyd, aquele disco da vaca (Atom Heart Mother). Era só acordar e ir direto ouvir, até furar. Não tenho mais 14 anos, estou a fim de ouvir outras coisas além de rock. As coisas andam meio esquisitas depois da morte do Kurt Cobain. A sensação é a mesma que se viu com a morte dos Beatles. Ficou um vazio, o panorama mudou e, agora, com o ex-Nirvana, aconteceu a mesma coisa.

A idéia é continuar sempre assim?

Não podemos nunca mudar a concepção da banda. O V (cinco) é um disco bem deprê, O Descobrimento do Brasil tem coisas sérias e outras leves. Não posso fazer Que País é Este? 2 e 3. Gosto muito de falar sobre relacionamentos humanos, sobre amor. Há coisas que escrevo e não faço com o grupo. Não tem nada a ver. É como se colocasse um sofá na cozinha. Meus amigos falam: 'poxa, Renato, como você é conservador!' Por isso, pude colocar tanta coisa romântica nesse disco em italiano. Assim, não vou precisar fazer esse gênero com a Legião. Senão, os fãs vão falar que estamos virando Legião Rosana.

Isso não é meio ditatorial: o público achar que vocês só têm que tocar coisa pesada?

Existe, mas gosto de acreditar que faço o que quero, respeitando o público. Não posso fazer samba enredo.

E as críticas da imprensa?

Já fomos os queridos da crítica até o terceiro disco. Mas é chato saber que aquilo que deu tanto trabalho vai ser julgado por um cara que ouve três segundos de cada faixa, para dizer é assim ou assado. Houve uma crítica sobre O Descobrimento do Brasil que decorei de tão ridícula. "O Brasil descoberto pela Legião Urbana é tão decepcionante quanto as denúncias de corrupção da CPI." Puxa! Teve outra que dizia: "as letras são ininteligíveis, não fazem sentido, como Meu tornozelo coça por causa de mosquitos/ Estou com cabelos molhados/ Me sinto livre." Nossa, ou essa senhora não toma banho, nunca foi à praia ou em São Paulo não tem mosquito.(risos)

Mas com as críticas à violência que tumultuou alguns shows da Legião você concorda, não é?

Teve uma época em que alguns fãs projetavam as fantasias mórbidas na minha pessoa. Isso aconteceu também com Cazuza e Lobão. A maioria das pessoas é legal, mas tem uma minoria que atrapalha, que quer fazer algazarra. Ai de mim se não tocar Eduardo e Mônica nos shows. (risos)

O que sente com aquela galera gritando seu nome?

A adrenalina vai a mil. É muito emocionante, dá um nervoso, mas quando chego no palco, tudo passa. Eu enxergo cada pessoa que fica ali na frente, peço até para iluminar a galera para eu ver melhor. Deu até para ver aquela menininha que vai a todos os shows e cantar uma música olhando só para ela.
Entrevista

Nome: Renato Manfredini Junior
Apelido: Junior
Data e local do nascimento: 23/03/60, Rio de Janeiro
Data de falecimento: 11/10/96
Mãe e Pai: Maria do Carmo e Renato
Irmãos: uma, Carmem Teresa Manfredini
Filho: Giuliano Manfredini
Signo: Áries
Formação: Jornalismo, em DF
Altura e Peso: 1,74m, 65 Kg
Algo no corpo o incomoda? "Minha saúde. Foram 15 anos de droga- adicção".
Parte do corpo de que mais gosta: "Cérebro. E também adoro as minhas mãos".
Cuidados com o corpo: "No momento, manter-me longe do alcoolismo já é um milagre".
A que horas dorme e acorda: "Vou dormir às sete da manhã e acordo meio-dia. De dia, não faço nada, porque o mundo está acontecendo".
Propriedades: "Só o meu apartamento".
Símbolo sexual: "O Leonardo, da seleção. Eu acho ele um gatinho".
Primeiro beijo: "Aos 9 anos, com a minha namorada nos EUA. Achei a coisa mais nojenta".
Primeira transa: "Foi num carro, aos 17"
Lugar mais esquesito onde fez amor: "Embaixo do telhado, no vão da caixa d'água"
Melhor lugar para fazer amor: "Um lugar onde a gente se sinta mais seguro".
Fantasia não realizada: "Ganhar o Oscar".
Homens são: "Bobos, que nem cachorro".
Mulheres são: "Misteriosas que nem gato".
O que te seduz? "Espírito, bondade, desejo".
O que te broxa? "Estupidez, pretensão".
Melhor cantada: "Do Scott, em Nova York, num bar gay. Vi aquele menino loirinho, cara de estivador, vindo na minha direção! Pedi um cigarro, ele disse: Não!. Saiu. Voltou com um maço novinho pra mim. Ficamos juntos dois anos".
Pior cantada: "Gosta de mulher mas também gosto de viado! Vá a merda!".
Última pessoa que levaria para cama: "Paulo Francis"
Maior maldade que já fez: "Não admitir que as pessoas se preocupavam comigo".
Maior mentira que já contou: "Só mentiras bobas. Aqui, eu não falei toda a verdade".
Arrependimento: "Não conhecer a programação dos doze passos na época do Scott".
Palavra preferida: "Essência".
Palavra que mais usa: "Eu".
Canção: "I Get Along Without You Very Well"
Compositor preferido: "Bob Dylan".
Livro: "Sonetos, Shakespeare".

Comentários das Músicas do CD "Uma Outra Estação"
Riding Song" - Rock direto, com Renato Rocha no baixo. Serve como apresentação da banda. Usa trechos de uma entrevista onde cada um diz nome, signo, idade e fala sobre a época de "Dois" (1986): sua trajeto que vou / ser quando crescer".ória. No fim, Dado e Bonfá cantam: "Eu Já sei
(Bonfá): é um rock que lembra os primeiros discos da Legião. A gente fez na época de A Tempestade. Gosto dessa música, é uma grande brincadeira.

"Uma Outra Estação" - A voz de Renato Russo, meio sussurrada, convida: "Vem comigo, não tenha medo / Estou longe, longe / Estou em outra estação".
(Bonfá): Essa letra o Renato fez para uma grande amiga dele, a Flora. Ela era diplomata e facilitava a vida da gente em nossas viagens pelos quatro cantos do mundo.

"As Flores do Mal" - Raiva: "Volta pro esgoto, baby / Vê se alguém te quer".
(Bonfá): Outra música que o Renato fez para uma amiga, que andava na noite com ele. Não me lembro agora o nome dela. A letra teve vários arranjos, mas acabou ficando uma balada com uma letra bem pesada e amarga, bem ao estilo de Renato.

"La Maison Dieu" - Dado: "A gente antes execrava blues. Mas fomos fazer um pela primeira vez, seria uma coisa meio 'Tea for One', do Led Zeppelin, e saiu o que saiu". A letra vomita: "Eu sou a lembrança do terror, de uma revolução de merda, de generais e de um exército de merda / Não, nunca podemos esquecer nem devemos perdoar". O único blues do disco. A letra fala de política, sobre tudo acabar em pizza no Brasil. Tem uma parte que diz mais ou menos assim: "Eu nunca anistiei ninguém, não devemos perdoar..."

"Clarisse" - Talvez a canção mais fundo-do-posso da Legião, tinha ficado fora de "A Tempestade" por ser barra-pesada demais. Renato fala de si mesmo se colocando como uma menina de 14 anos que, no fundo do poço, rejeitada e maltratada, se corta toda.
(Bonfá): É uma espécie de canção autobiográfica. É bem pesada. Dizem que foi feita para uma fã, mas acho que o Renato é a própria Clarice na letra. Fala sobre os problemas e as injustiças sofridas pelas mulheres brasileiras. É uma música longa, de 12 minutos, acompanhada de um violão de 12 cordas. Lembro que o Renato chegou no estúdio e declamou toda a letra na hora, sem parar.

"Schubert Ländler" - Carlos Trilha só, ao piano. Uma das muitas "canções de ninar" que o compositor austríaco Franz Schubert (1797/ 1828) escreveu.
(Bonfá): É uma vinheta de apenas alguns segundos. Ela foi incluída para dar uma acalmada. As cinco primeiras músicas do álbum são muito pesadas e essa fase do CD encerrada com essa vinheta.

"A Tempestade" - Um rock gótico ortodoxo, tanto nos timbres da guitarra quanto na interpretação de Renato "Com teu amor eu quero que sintas dor, eu quero teu sangue e ser teu credor".
(Bonfá): Lembra um pouco música gótica. Gosto também dessa faixa. Era outra canção que o Renato fazia questão de colocar no disco anterior.

"High Noon (Do Not Forsake Me)" - Instrumental, da trilha do clássico western "Matar ou Morrer" (título original: High Noon).
(Bonfá): É tema de um filme de faroeste muito conhecido (High Noon, de Fred Zinnemann). A gente fez uma versão bem mais rápida.

"Comédia Romântica". Dado toca dobro com slide e gaita, dando um toque especialão rock. A letra confunde: "Não preciso de heróis, eu tenho meus amigos".
(Bonfá): Essa canção é a cara do Renato. Fala sobre esse lado meio amargo dele. De as pessoas quererem ajudá-lo e ele se recusar. Lembro dele falando para mim e para o Dado: "Valeu a intenção, mas eu sou desse jeito mesmo, não há muita coisa a se fazer".

"Dado Viciado" - Voz e violão, composta por Renato nos tempos de "Trovador solitário", gravado para "Dois".
(Bonfá): Essa música só não saiu antes porque o Dado ficava com medo de os fãs acharem que o Dado viciado era ele. Na verdade, era o primo dele. Agora, ele concordou em colocá-la no novo CD, pois combinamos de deixar tudo esclarecido no encarte. É uma das poucas versões acústicas do álbum.

"Marcianos Invadem a Terra" - Da mesma fase, cita "Life on Mars?", de David Bowie. Uma das minhas favoritas.
(Bonfá): A letra lembra muito a nossa juventude em Brasília. A gente saía com os nossos carros à noite pela cidade. Éramos os próprios marcianos invadindo a Terra. É uma canção acústica.

"Antes das Seis" - Romantismo adolescente ("quem inventou o amor, me explica por favor"), com Bi Ribeiro no contrabaixo e Tom Capone na slide Guitar.
(Bonfá): Uma das mais pops do CD. Acho que é outra que vai virar hit. É mais acessível, o que ajuda a equilibrar um pouco o disco.

"Mariane" - Outro out-take de "Dois", feita por Renato em inglês, para uma ex-namorada. "Não sei para onde estou indo, acho que é só uma fase".
(Bonfá): É uma balada muito positiva, toda cantada em inglês. Acho que pode ser um dos hits do disco. É tambêm uma das minhas favoritas. Foi gravada originalmente só com voz e violão. Aumentei a voz do Renato para poder colocar bateria e guitarra.

"Sagrado Coração" - Instrumental animada, com pianinho. A letra está no encarte, mas Renato não teve tempo para gravá-la. "Essa marca a ausência dele", ressalta Dado.
(Bonfá): Esta letra vai aparecer no encarte do novo disco, mas não chegou a ter vocais gravados. É uma balada superlegal. Ela foi escolhida para encerrar Uma Outra Estação porque lembra um pouco aqueles letreiros que passam no fim dos filmes.

"Travessia do Eixão" - Música do Liga-Tripa, banda hippie de Brasília, que pede proteção contra atropelamentos. No clima mais informal possível, cantada em coro. A gente faz uma referência a uma banda de malucos que tinha no fim dos anos 60 em Brasília. Costumo dizer que é a música alternativa do disco. Tem uma percussão com garrafas. Ficou bem legal.

O Cérebro mais Potente do Rock

No final de agosto de 1986 ainda era possível se assistir a um show da Legião Urbana com os cotovelos sobre o palco do Noites Cariocas. A banda estava na segunda semana de lançamento do álbum "Dois" no Morro da Urca e podia-se saber qual seria a música seguinte no espetáculo, simplesmente lendo o set list preso com fita crepe aos pés de Renato Russo. Atrás da fila do gargarejo, alguns punks pogavam em paz. Mas em breve o disco teria vendido 800 mil cópias e grades de isolamento teriam de ser postas entre o palco e a platéia.

Noutra noite fria, a de 18 de junho de 1988, entretanto, as grades postas entre o gramado do Estádio Mané Garrincha, em Brasília, e o baixíssimo palco sobre o qual a Legião Urbana se apresentava não contiveram o perigoso amálgama de amor & ódio de cerca de 50 mil pessoas. Renato se enfureceu com as brigas à sua frente, um doente mental subiu no palco e agarrou-o pelo pescoço, o show foi encerrado antes do previsto e logo estourou um baita tumulto, um faroeste caboclo com direito a cavalaria da PM e a bombas de gás lacrimogêneo. Saldo: 60 pessoas detidas, 385 atendidas pelo serviço médico e 64 ônibus depredados. O grupo, Renato, sobretudo, foi acusado de incitamento à baderna.

Estes dois shows - separados por menos de dois anos - sintetizam todos os paradoxos de Renato Russo, da Legião Urbana, do BRock e do rock internacional, Kurt Cobain que o diga. "Quando você faz sucesso com uma banda de rock'n'roll, você tem de conviver justamente com as pessoas de quem queria fugir ao fundar uma banda de rock'n'roll", me dizia Renato em entrevista de setembro de 1987, meio do caminho entre o Morro da Urca e o Planalto Central. Nessa época, o maior letrista da história do rock brasileiro, já anunciava a intenção de escorregar da esfera pública - expressa em músicas como "Que país é este", sobre corrupção - para a esfera privada - expressa em músicas como "Meninos e meninas", sobre bissexualismo. Sua intenção, depois da santa ira punk do início de carreira, era incluir o verso "eu te amo" numa canção sem cair na banalidade. Conseguiu. E com louvor.

Até então cultor de medalhões como Led Zeppelin e Pink Floyd, o baixista Renato Russo descobriu o punk rock em 1977, aos 17 anos, quando outro professor da Cultura Inglesa, um escocês chamado Iain, voltou da Grã-Bretanha falando de uns tais Sex Pistols. No ano seguinte, junto a André Pretorius, guitarrista filho do embaixador sul-africano no Brasil, e Felipe Lemos, baterista, Renato fundou o Aborto Elétrico, embrião tanto da Legião Urbana (de Renato) quanto do Capital Inicial (de Felipe), junto com o Plebe Rude, a santíssima trindade do rico rock brasiliense dos anos 80.

O Aborto Elétrico - rápido e barulhento, fortemente influenciado pelos Stooges e pelos Sex Pistols - sofreu com o entra-e-sai de integrantes e nunca chegou a um disco próprio. Contudo, algumas de suas canções foram posteriormente gravadas pela Legião (como "Geração Coca-Cola" e "Conexão amazônica") e pelo Capital ("Veraneio vascaína" e "Fátima"). Quando o Aborto Elétrico se desfez, na virada de 1981 para 1982, Renato, então estudante de Jornalismo na UnB, se transformou no famigerado Trovador Solitário, que, sozinho ao violão, interpretava composições próprias, como "Eduardo e Mônica" e "Química". Curiosamente foi uma fita dessa fase que chegou aos ouvidos do então diretor-artístico da EMI, Jorge Davidson, que durante algum tempo julgou ter nas mãos um grupo folk. Engano desfeito e contrato fechado, em parte graças à propaganda de seus velhos conhecidos Paralamas do Sucesso, já no cast da EMI, a Legião partiu para o primeiro LP como um trio - Renato (voz e baixo), Dado Villa-Lobos (guitarra) e Marcelo Bonfá (bateria) - e no meio do caminho se tornou um quarteto - com a entrada de Renato Rocha (baixo). Por quê? Porque Renato Russo queria ficar mais livre para cantar e porque ferimentos nos pulsos, causados por uma tentativa de suicídio, lhe haviam tirado parte dos movimentos das mãos.

"Legião Urbana", o disco, produzido pelo jornalista José Emílio Rondeau, foi lançado às vésperas do primeiro Rock in Rio, em janeiro de 1985, e hibernou por seis meses, quando finalmente começou a tocar nas rádios quase faixa a faixa. Quando "Dois" chegou às lojas, um ano e meio depois, as músicas de seu antecessor ainda estavam no ar. E desde então tem sido assim: faixas de um álbum se emendando com faixas do álbum anterior nos corações & mentes dos brasileiros - mesmo com dois anos separando cada álbum. As de "Dois" se emendando com as de "Que país é este 1978-1987", as deste com as de "As quatro estações" (1989), as deste com as de "V" (1991), as deste com as de "O descobrimento do Brasil" (1993). Centenas de milhares de cópias vendidas de cada um deles.

Qual o segredo desse sucesso? Tanto no Noites Cariocas quanto no Mané Garrincha, Renato Russo parecia estar cantando não para meia dúzia de gatos pingados, não para uma turba de milhares, mas para um único ouvinte. Suas letras eram universais porque eram profundamente pessoais. Tanto ao falar de política quanto ao falar de amor, uma única linha norteava sua poética: a busca da ética perdida. No recém-lançado álbum "A tempestade", Renato clamava "não façamos do amor algo desonesto" do mesmo modo que denunciava "nas favelas, no Senado, sujeira pra todo lado" em "Que país é este", de 1978. Ponto de encontro do macro com o micro? "Faroeste caboclo", de 1979, 159 versos narrando paixão & morte do traficante de drogas & homem santo João de Santo Cristo, 159 versos espraiados por mais de nove minutos de música, 159 versos vaiados impiedosamente por punks no Morro da Urca em 1983 e decorados por qualquer criança de 5 anos quando afinal saíram em disco e entraram nas rádios, em 1987.

Em sua carreira solo, como intérprete, e não autor, Renato Russo fez questão de evitar qualquer paralelo ou antagonismo com a Legião Urbana gravando canções em inglês ("The Stonewall celebration concert", de 1994, que transformava até a tola "Cherish", de Madonna & Pat Leonard, numa obra-prima) e em italiano ("Equilíbrio distante", de 1995, que transformava até a progressiva "Dolcissima Maria", do grupo Premiata Forneria Marconi, numa música pop). Como intérprete, ainda, Renato fez uma arrepiante participação num dos discos solo do ex-RPM Paulo Ricardo Medeiros, "Rock popular brasileiro", na faixa "A cruz e a espada".

Com a morte de Renato Russo, o BRock perde não somente sua mais potente voz, mas também o seu mais potente cérebro.


Morte de Renato - nota de "O Globo"

O cantor e compositor Renato Russo, do grupo Legião Urbana, morreu na madrugada de hoje, à 1h, por infecção pulmonar. O músico deixou um bilhete para seus amigos de Brasíla, dizendo que queria que seu corpo fosse cremado e que não houvesse velório. A assessoria de imprensa da gravadora EMI-Odeon confirmou a notícia, mas não quis dar mais informações. Além das complicações pulmonares, o cantor estava com anemia profunda. Renato Russo será cremado hoje a tarde, no Cemitério do Caju.

A gravadora EMI Music divulgou há pouco uma nota lamentando a morte do cantor e compositor. Segue a íntegra da nota:

"Lamentamos profundamente a morte, ocorrida nesta madrugada, do nosso querido Renato Russo, cuja memória permanecerá viva na lembrança do povo, perpetuada que está em seu inesgotável talento e na beleza de suas obras e interpretações, que tivemos o privilégio de fixar para a eternidade. Mais do que um extraodinário artista, perdemos um grande companheiro e amigo. Que Renato Russo descanse em paz. "


Texto sobre a morte de Renato Russo

Ausência de velório, ausência de enterro, ausência de corpo. Renato Manfredini Jr. reservou seu derradeiro não para os ritos de despedida. Os anos haverão de criar uma mitologia a respeito. Renato Russo não morreu, dirão alguns, como já disseram de tantos outros. Afinal, Renato não estourou a cabeça como Kurt Cobain nem expôs sua luta perdida como Cazuza. Renato apenas morreu sua morte privada.

Os fãs haverão de sentir a falta de enterro, velório, cadáver... mas essa foi exatamente a opção de Renato. Na televisão, não haverá imagens senão do passado, dos clips do Legião ou de sua carreira solo. Algumas entrevistas lá e cá com amigos, músicos, celebridades. E de resto, a Legião Urbana continuará prevalecendo. Como sempre prevaleceu.

Renato Manfredini Jr. nasceu há 36 anos no Rio de Janeiro. Sua carreira musical começou em 1977 com o Aborto Elétrico, embrião não apenas da Legião, mas também do Capital Inicial e do Plebe Rude. Depois que o Aborto se desfez, Renato se tornou o Trovador Solitário, cantando sozinho composições que anos depois marcariam época como "Eduardo e Mônica" e "Química".

A Legião nasceu em 1983. Renato Manfredini então já se transformara em Russo, numa referência aos filósofos Jean-Jacques Rousseau e Bertrand Russel. Junto com o baterista Marcelo Bonfá e o guitarrista Dado Villa-Lobos, o baixista e letrista Renato Russo começava a trilhar sua estrada.

E já em 1983 a Legião começou a acontecer. Seu primeiro show célebre ocorreu no Circo Voador no dia 23 de julho. Em 84, com um empurrãozinho de Herbert Vianna, veio o primeiro LP. Pouca gente sabia nessa época que os versos de "Química", que Herbert Vianna se esgoelava para cantar em "Cinema mudo" acompanhado pelos vestibulandos de então, tinham a marca de Renato Russo.

Estranho pensar hoje, dez anos depois, que o Rock in Rio I teve a presença de Rita Lee, Erasmo Carlos e não contou com o Legião. Naquela época, porém, o Legião ainda não vingara. Muito pelo contrário, aliás, o Rock in Rio congelara o disco "Legião Urbana" por uns bons seis meses. Mas, por outro lado, ajudou a catapultá-lo depois. Foi no embalo do festival que "Será?" invadiu as rádios.

Pouco antes da gravação de "Legião Urbana", Renato tentara o suicídio cortando os pulsos e perdera parte dos movimentos nas mãos. Isso provocou a entrada de um quarto integrante no grupo, o baixista Renato Rocha, o "Negrette".

"Será" foi seguida por "Teorema" que foi seguida por "Ainda é cedo" que foi seguida por "Soldados". Quando a Legião saiu do estúdio com o primoroso "Dois", para muitos o melhor disco do rock nacional, as rádios ainda não tinham esgotado o primeiro LP. "Dois", por sua vez, foi intensamente explorado e representou o salto do Legião, e de Renato, para o mega-estrelato.

"Tempo perdido", "Andrea Doria", "Índios", "Metrópole", "Fábrica", "Quase sem querer" e sobretudo "Eduardo e Mônica" saíram do vinil (na época, CD era uma sigla sem significado) direto para o imaginário daquela juventude pós-ditadura que começava a entrar nas universidades. Renato começava a ensaiar seu adeus ao mundo público, que seria sacramentado anos mais tarde em "As quatro estações".

Em 1986, sob pressão da gravadora, o grupo fez uma antologia de velhas canções, quase todas da fase Aborto Elétrico de Renato, e lançou "Que país é este?". O drama é que, mesmo estas antigas canções, eram desesperadamente boas.

João do Santo Cristo enfiou nove minutos de "Faroeste Caboclo" pela goela das FMs. "Que país é este?", "Tédio com um T bem grande pra você", "Angra dos Reis", "Eu sei"... novamente a Legião entrava de sola e não conseguia ficar um dia fora da sintonia nacional. Mas o clima das canções do disco não retratava o que se passava com a Legião, ou antes, o que se passava com a cabeça pensante do grupo.

Renato Russo estava tentando conviver com a fama, e estava tendo problemas. O álcool, companheiro de sempre, se tornara mais assíduo. As drogas idem. E as letras de Renato começaram a caminhar em outra direção.

"As quatro estações" é possivelmente o ponto mais alto da escalada da Legião. Quando "Há tempos" começou a tocar nos rádios em 1989, os fãs perceberam que algo havia mudado. Como assim, Renato Russo cantando algo como "Pais e Filhos"? Ou assumindo sua bissexualidade, ou pan-sexualidade, na belíssima "Meninos e meninas". O álbum trazia canções primorosas. "Quando o sol bater na janela do teu quarto", "Sete cidades", "Se fiquei esperando o meu amor passar", "Monte Castelo"... Renato se dava ao luxo de misturar Camões com o apóstolo São Paulo e ainda fazer boa música. Ou melhor, excelente música.

"As quatro estações" vendeu como água. De cara, foram 450 mil cópias, tiragem que dobraria anos depois e hoje chega a marca de 1,1 milhão, igualando o recorde de "Dois".

A partir do disco, e dos incidentes em Brasília, em 1988, quando um doente mental invadiu o palco, se pendurou nas costas de Reanto e a Legião foi acusada de incitar a violência, o grupo começou a se afastar dos palcos. Em 1990, no mesmo dia da morte de Cazuza, eles deram talvez seu show mais memorável, no areal do Jockey Club Brasileiro.

O Legião ainda encararia o Metropolitan, em 1994, no lançamento de "O descobrimento do Brasil", um disco que pretendia recuperar a pouca popularidade do excelente "V", que fincava o grupo na nova fase, ou Renato na nova fase, letras maravilhosas, "vento no litoral", "Serenissíma", "O teatro dos Vampiros" e tingidas com uma nostalgia que passou a ser a marca das canções de Renato. "Descobrimento do Brasil" trazia a música de trabalho, "Perfeição", de volta o melhor Renato Russo político. Baladas muito boas como "Vinte e nove", "os Barcos", "Giz" ou "Só por hoje".

Em 1994, Renato lançaria seu primeiro trabalho solo, o excelente "The Stonewall Celebration Concert", cantado em inglês. Em 1995, ele repetiria a dose, desta vez em italiano, com "Equilíbrio distante". Os rumores dizendo que o cantor era portador do vírus da AIDS começaram a ficar mais freqüentes. E Renato Russo começou a ficar cada vez mais recluso.

Mas seu adeus viria mesmo com o Legião Urbana, no triste "A Tempestade ou o Livro dos Dias", o CD-quase-um-libretto, que mais uma vez, tal como "Dois", era para ser duplo mas não foi. A marcha fúnebre de Renato Russo está tocando nas rádios, seja nos versos de "A via láctea" ("quando tudo está perdido/sempre existe uma luz") ou "1º de julho" ("Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher..."). Até porque Renato escolheu morrer sem adeus. Recusou fãs chorando sobre o caixão, celebridades transitanto com olhar compungido, aquela fila anônima engarrafada no cemitério... recusou, em suma, seu último palco.

Assim, restará aos jornais colher depoimentos e falar do passado. As Redes de TV terão de mostrar clipes e trechos de Renato e do Legião. A gravadora ainda deverá lançar algum material inédito, até porque o Legião se esmerou em quase lançar discos duplos.

Mas isso tudo importa menos. A última mensagem de Renato Manfredini Jr. é exatamente sua morte privada. A imagem que ele deixa, ou fez questão de deixar, é a de um ídolo que literalmente se transforma em cinzas. Como ele mesmo disse: "Quero que as pessoas que se preocupam comigo se danem, quero que elas se preocupem com a minha música". A Legião Urbana, enfim, sempre prevalece.

Texto escrito por Renato Russo em abril de 1983
para o primeiro grande show reunindo as quatro principais bandas de Brasília: Legião Urbana, Plebe Rude, Capital Inicial e XXX.

Os componentes dos quatro conjuntos fazem parte do que era conhecido como "a turma da colina da UnB", isso por volta de 1977, época da abertura e da redemocratização (embora a UnB ainda apresentasse alguns problemas). Um maço do Hollywood estava por volta de Cr$ 15,00 e, na cidade, não existia nada para se fazer. Mas aparece então o que iria acabar de vez com a pouca identidade que a capital tinha com a música discoteca.

Brasília deixa de ser Brasília e passa a ser Rio de Janeiro, como o País inteiro. Para quem gostava de rock, esse foi o fim. Basta ser chamado de colonizado o tempo todo; com a moda disco a situação piora sensivelmente. Ainda mais porque na mesma época aparece um movimento original e anárquico que pretende acabar com os falsos modismos. É a moda levada ao extremo: antimoda, antiestética, antitudo.

Mas aqui é bem mais fácil controlar a juventude oferecendo a válvula de escape ideal e não uma música que faça todos pensarem e questionarem as hipocrisias construtivas de uma sociedade falsa, à beira da autodestruição atômica. Ha-ha. Música discoteca não fala desse feito. E a música popular brasileira parece estar mais preocupada com cama e mesa e a sensação das cordilheiras.

E o pessoal que faz letras espertas não gosta de tocar rock no Brasil. O que fazer? Será que estão todos satisfeitos? Rock é uma atitude, não é moda. É música da África. Não é música americana. Tem no mundo inteiro

Trchos do Poeta
Trechos

"Eu acho que essa discussão MPB versos rock é uma coisa duplamente ridícula, porque isso implica na ignorância do que é realmente o rock'n 'roll. Rock'n 'roll é uma música de jovens para jovens. Ao passo que a gente não pode chegar e dizer que a MPB é uma música de velhos para velhos porque isso é uma coisa ridícula (....)"


"Se um ator faz o papel de um assassino, ninguém vai achar que ele é um assassino. Agora, se um ator faz papel de gay, todo mundo vai achar que ele é. Tem alguma coisa errada... Isso me interessa profundamente. A humanidade é desumana, mas acho que ainda temos uma chance."
"Acredito que existem pessoas que gostam de usar drogas, gente que sente prazer com isso, mas elas devem ser uns 3% da população. Hoje em dia todo mundo usa e quer, porque não se tem saída para nada. (....)"
"Desde pequeno, eu sempre achei as drogas uma coisa super-romântica, um pouco como aquela música do Cazuza: 'todos os meus heróis morreram de overdose'. Mas ninguém mostra o lado ruim da coisa. Eu sei o que é ficar numa cama tremendo e tendo alucinações. É um horror. (...)"
"Não quero mais ficar usando drogas, a ponto de perder o fio da meada. É que nem doce: pode ser bom de vez em quando, mas o excesso é que te faz perder a cabeça. Tudo o que é excesso não presta, como excesso de discos vendidos e excesso de talento, que não é o meu caso. (...)"
"Camisinha sempre! (...) Ninguém sabe de onde veio esse vírus. A pessoa numa relação sexual tem que tomar cuidado com tudo. Senão, acaba pegando herpes, sífilis, gonorréia, hepatite. O que eu recomendo é o seguinte: sempre andar de camisinha. E, de preferência, camisinha importada."
"...Evitar que as pessoas passem pelo que passei: achar que era doente, estranho e que ia morrer e seguir direto para o inferno. (...)"
"Contrato de gravadora é que nem Fausto assinando com Mefistófeles: uma vírgula pode mudar tudo. Agora que o nosso contrato está acabando eles estão tratando a gente a pão-de-ló."
"Eu só queria saber o que o pessoal do rock-gospel acha de si mesmo. Eu queria realmente saber... Principalmente os metaleiros. Olha, eu tô comprando briga aqui. Não é pra Renato Russo comprar briga. Ele está escondido nas montanhas."
"... o vocalista aparece mais, mas às vezes as pessoas têm a impressão de que eu faço tudo. E eu não faço tudo, não. Tem músicas inteiras que o Dado me entrega a fita pronta, eu só coloco a letra."
"... Aqui no Brasil, nós somos alegres mas nós não somos felizes. Existe toda uma melancolia e uma saudade que a gente herdou dos portugueses e que a gente ainda nem começou a resolver. A gente não sabe o que é esse nosso país. (...)"

 

 

    Há três anos, no dia 11 de outubro de 1996, o Brasil perdia Renato Russo, o maior compositor do rock brasileiro dos anos 80 e 90. Naquele dia, um dos mais irriquietos cantores e poetas do Brasil cerrava os olhos e entrava para a galeria de mitos do rock'n'roll, tornando-se referência constante para a juventude brasileira, ansiosa por sua poesia marcada pela ética e pelo amor. Renato, além de um excepcional letrista, foi um grande cantor e um artista complexo, em permanente estado de ebulição.

    O jovem Renato Manfredini Júnior morreu, mas a gigantesca sombra do mito permanece. Para muitos, parece mesmo que ele jamais se foi. Pudera. Este ano, o culto à Legião Urbana e Renato continuou crescendo à medida que seu trabalho ganha mais fãs e suas composições, novos intérpretes. Sim, porque a Legião Urbana continua sendo citada em entrevistas e gravada por bandas e músicos. Senão, vejamos... Os Paralamas do Sucesso lançaram o seu Acústico ancorado em Que país é este?... Capital Inicial incluiu em seus shows a mesma canção, embora tenha diversas outras gravadas com a assinatura de Renato... Jerry Adriani lançou Forza Sempre um disco todo em cima do repertório da Legião, vertido para o italiano... Os Titãs gravaram Sete Cidades... O Barão Vermelho gravou Quando o sol bater na janela do teu quarto... O Ira! gravou Teorema... Zélia Duncan, Quase sem querer... Os Raimundos estão cantando Soldados em seus shows... E Cássia Eller também.

    E, no final de outubro, saiu o aguardado Acústico da Legião, gravado em 1992 para a MTV brasileira e que, no momento do fechamento deste texto, já havia batido recorde, vendendo cerca de 700 mil cópias. Um feito raro para qualquer artista brasileiro. Certamente, um reconhecimento ao talento de Renato.

    Poucas vezes, no rock brasileiro, um artista foi elevado à condição de semi-deus. Talvez apenas Raul Seixas, outro grande nome da música brasileira. Os discos de sua carreira solo, bem como toda a obra da Legião, continuam em catálogo, vendendo sempre bem nas lojas. Existem pelo menos 4.464 páginas que mencionam ou destacam Renato Russo e à sua obra na Internet. Quase todas construídas por seus fãs. A fama, como se vê, só aumentou com o seu desaparecimento, uma regra na construção dos mitos do rock.

    É bem verdade que essa fama e o status de "monstro" do rock brasileiro fez justiça a Renato, que foi construindo a carreira como um bom artesão, moldando sua personalidade artística com integridade e, sobretudo, ética. Ele sabia o que queria desde o início, quando, ainda moleque, sonhava montar uma banda de rock. "Quem acredita, sempre alcança", repetia em entrevistas no início da carreira e que acabou virando tema da música XXX gravada com o 14 Bis em 1986. Renato acreditou sempre em si mesmo e na força do seu trabalho e, se existe hoje no país um rock com um discurso distante do banal e com forte conotação social e política, a juventude deve isso ao líder da Legião Urbana.

Punks no cerrado?!?

    No final dos anos 70, quando o país já rumava para a reabertura política - lenta e gradual, como havia imposto o general Golbery do Couto e Silva, ex-chefe da Casa Civil do governo João Figueiredo -, Brasília também sofria com o fato de estar à sombra do poder dos militares. Antes da anistia política, em 1979, pouco ou nada havia para os garotos filhos da classe média que ocupava cargos na máquina administrativa pública. "Não havia o que fazer", afirmou Renato, em entrevista concedida ao jornalista Celso Araújo (líder da banda Akneton), em 1984.

    Não havia mesmo. Quando Renato era pouco mais que um adolescente, aos 16 anos, adorava as grandes bandas de rock dos anos 60 e 70, além do poeta Bob Dylan, o que o levava a divagar, nas tardes secas de Brasília, como seria montar um grupo de rock. Tímido e desengonçado, Júnior pensava ser o líder de uma banda – Forty Street Second Band -, na qual participariam Jeff Beck, Mick Taylor e outras figuras lendárias do rock. Júnior era Eric Russel, o cantor da banda.


Renato (ao fundo), Loro,
Fê e Gutje: punks da Colina

 

    Nascia ali, sem saber, o embrião da persona Renato Russo. Mas até aquele momento, só as paredes do quarto de Renato, que morava com os pais num apartamento funcional do Banco do Brasil, na 303 Sul, sabiam dessa sua banda. Eram divagações e sonhos na mente juvenil do rapaz franzino que usava óculos e era desajeitado devido a uma doença que o mantivera paralisado, na infância, por quase dois anos.

    Tudo vinha assim, sem muita pretensão até que, em 1977, eclodiu na Inglaterra o movimento punk: a revolta dos filhos da classe operária inglesa contra o establishment britânico e a pompa que cercava a Rainha Elizabeth e as lendas do rock. Aquilo foi o estalo para Renato Russo, que descobriu a existência e o nascimento do punk lendo as páginas da revista Pop (única publicação nacional que falava sobre rock no final da década de 70), numa matéria especial sobre a nova cena musical na Europa, a explosão do movimento nos Estados Unidos e um disco com algumas bandas...

    Renato estava na 907 Sul, no prédio da Cultura Inglesa, a tradicional escola de língua inglesa de Brasília, quando conheceu o escocês Ian, que acabara de chegar do Reino Unido falando das maravilhas da canção Anarchy In the U.K, do Sex Pistols... Renato ficou maravilhado com o papo. Nessa época, após oito anos de estudo, ele praticamente morava dentro da Cultura Inglesa, devorando livros e revistas sobre música e cultura. E também dava aulas.

 Era um cara muito bem informado para a sua idade. "Sabia um pouco menos que praticamente tudo sobre cinema e música americana e, aquilo que ele não sabia, tinha imaginação suficiente para inventar", lembrava, em 1985, o jornalista Alcimar Ferreira, amigo de Renato nos tempos da Cultura Inglesa e com quem estudou na Faculdade de Jornalismo do Ceub. "O blefe era seu trunfo capital, que tornava exasperantes nossas muitas polêmicas pelos corredores do Ceub, a respeito sempre do mesmo tema: música".

    Verdadeira enciclopédia de rock - tinha centenas de discos em casa - Renato era capaz de citar, infinitamente, nomes de trocentas bandas, desde as óbvias até as mais obscuras. "Algumas eu tinha absoluta certeza de que não existiam, porque eu lia de maneira contumaz todas as revistas inglesas e americanas, que nunca citavam aqueles grupos de nomes geniais", disse Ferreira. O colega de faculdade também mostrou-se convencido que Renato estava blefando quando, pouco antes da Legião lançar seu primeiro disco – o homônimo Legião Urbana -, disse em uma entrevista que andava ouvindo - "assiduamente" - o Menudo, grupo que acabou homenageando no Acústico, lançado postumamente. "Blefe. O tipo de trucagem na qual ele (Renato) é mestre: dizer exatamente aquilo em que está longe de acreditar", afirmou o jornalista.

    Ainda em 1979, um grupo de estudantes de Jornalismo, colegas de Renato no Ceub, se juntaram para lançar um livro de poemas, chamado Sinal. Ferreira lembrou, em texto escrito no Jornal de Brasília, seis anos depois: "O poema de Renato foi escrito num jato, um longo box verbal, uma pulsação ginsberguiana, um acerto artesanal com as palavras, ainda que faltasse a cirurgia, faca amolada". O livro é exemplar raro hoje em dia e poucos o têm.

 

Nasce o Aborto Elétrico

    Renato era um bom garoto, ainda adolescente. Inteligente e intuitivo, não parecia que se tornaria o cara com o discurso afiado visto em Que País É Este? ou Conexão Amazônica, marcas registradas da sua primeira banda: o Aborto Elétrico. Sua mudança radical ocorreu mesmo em 1978 quando encontrou-se com Felipe Lemos. Fê era filho de professores universitários e tinha acabado de chegar de Londres, depois de uma estadia com os pais na Inglaterra. Debaixo do braço, alguns discos de rock, quase os mesmos que seriam colocados por Renato para tocar numa festa, em que os dois se encontraram. De cara, ficaram amigos.

    "A gente não se desgrudava e o Renato ia na minha casa todos os dias", lembrou o baterista do Aborto Elétrico e do Capital Inicial, em entrevista publicada na Showbizz, em maio de 1997. Fê morava na Colina, o conjunto de prédios localizados no campus da Universidade de Brasília, que passou a ser o centro do "movimento" punk de Brasília. Lá, ambos fizeram amizade com outros caras, que também se identificaram com os três acordes que eram a matriz do som feito por Ramones, Clash, Sex Pistols e Comsat Angels. A Turma da Colina reunia Loro Jones e o irmão Geraldo Ribeiro (futuros integrantes da Bltx 64, depois Capital Inicial e Escola de Escândalo), André Müller e o irmão Bernardo (Metralhaz, depois Plebe Rude e Escola), Gutje Woorthman (fundador da Blitx 64 e depois da Plebe), Bi Ribeiro (Paralamas) e muitos outros. No começo, não passavam de uns 20 moleques. Dedicavam suas horas a ouvir discos, promover festas, passear pelas quebradas de Brasília...

    Fê era amigo de André Pretorius, um sul-africano filho de diplomatas, que morava em Brasília e ostenta - de fato - o título de primeiro punk da cidade. Os dois, mais André Müller, planejavam montar uma banda, que acabou não acontecendo, porque André, dessa vez, mudou-se para a Inglaterra. Renato resolveu topar a parada e montar sua própria banda, convidando André e Fê. O nome do grupo surgiu numa tarde de papo furado, no térreo dos blocos de apartamentos da Colina.

Foto de Fê Lemos
Renato incorpora Sid Vicious, numa apresentação
da Blitx 64, banda em que Loro e Geruza tocavam

    "A gente tava sentado no chão, pensando qual seria o nome da nossa banda. Eu tava com um negócio de elétrico na cabeça e alguém falou comigo tijolo elétrico. Aí o André Pretórius falou: não, Aborto Elétrico", lembrou Fê à Showbizz, desmentindo a lenda de que o nome teria surgido em decorrência de uma invasão do campus da UnB pelo Exército, numa das famosas ações do governo durante a ditadura militar, quando uma estudante universitária teria perdido o filho em decorrência de um cacetet elétricos utilizado por um soldado mais afoito. A primeira apresentação ocorreu muito tempo depois, em 1980, quando resolveram fazer um show no Só Cana, o extinto bar localizado no Gilberto Salomão, no Lago Sul, bairro de classe média alta.

    "Nós fomos, levamos umas coisas, o Fê estava com caxumba, febre de 40 graus e, quando terminamos o set de cinco músicas, o pessoal reagiu com: Êhhhh! De novo! Porque brasileiro gosta muita de zona. Então, dá-lhe zona. Eles não entenderam nada: todo mundo parado... Aí tocamos as cinco músicas de novo e, pelo que eu soube, a cidade inteira falou disso depois. Porque, primeiro, ninguém tinha ouvido falar de um grupo de música chegar e tocar de graça e ainda fazer aquele barulho. E o guitarrista loiro (Pretorius), sangrando a guitarra. O Aborto Elétrico era assim – Paaammmm!!! E não era rápido – era lento, tipo (Sex) Pistols. Aí o que aconteceu, a cidade começou a falar. Nos colégios de classe média – Objetivo, Elefante Branco, Marista... – o comentário era: Você viu? Aqueles caras são maconheiros, bla blá blá...", lembrou Renato, em entrevista à jornalista Sonia Maia, publicada na revista Bizz abril de 1989.

    O grupo logo começou a realizar apresentações mais ou menos constantes, em qualquer lugar onde pudessem arrumar uma tomada elétrica. O Food’s, antiga lanchonete situada entre a 110 e 111 Sul, era um dos points do Aborto e das outras bandas que surgiram logo depois na esteira. Na época eram três grandes bandas: Metralhaz, Blitx 64 e Aborto. As três bandas, embriões das quatro grandes bandas brasilienses dos anos 80 – Legião Urbana, Capital Inicial, Plebe Rude e Escola de Escândalo – tocavam em festas, nas quadras, em bares como o Cafofo, na 409 Norte, na UnB, nos colégios...

    Em 1981, Pretorius mudou-se do Brasil e voltou para a África do Sul com o pai diplomata – "servir ao Exército e matar os negros", disse Renato, que assumiu a guitarra. Flávio Lemos, irmão de Fê, passou para o baixo e a banda continuou. Os Lemos mudaram-se para o Lago Norte, abrindo um novo local para os ensaios da banda, que passou a dividir o espaço com uma nova banda: a Plebe Rude. "Passávamos os ensaios sacaneando o Renato, desligando a chave geral da casa", recorda Philippe Seabra. Nesse período, a turma cresceu, passando a fazer grandes agitos, pintando camisetas, confeccionando seus próprios badges, pichando os muros e pontos de ônibus da cidade. Renato era tão convicto do que fazia que tinha bolado em casa a capa e o encarte do LP do Aborto, que jamais foi lançado, claro. Dentro da capa do disco, um LP com um selo colado por cima. O sonho do disco próprio não era tão maluco assim, afinal em 1980 uma banda de Brasília já lançado um disco independente.


Uma apresentação do Aborto Elétrico, com Flávio substituindo Renato no baixo

    Era o Tellah, a primeira grande banda brasiliense, na época, de quem Renato era fã e enchia o saco para descolar um show conjunto. "Os caras eram músicos de verdade e tinham prestígio", disse em entrevista ao Correio Braziliense, em 1985. Haviam outros grupos, como o Liga Tripa e o Fusão, além da galera do Artimanha, que fazia jazz e música instrumental. É verdade que o compositor Renato Russo já tinha nascido e boa parte do repertório inicial do Capital e da Legião foram gerados ainda dentro do Aborto. É dessa época, por exemplo, músicas como Conexão Amazônica, Música Urbana, Tédio (com um T bem grande prá você), Veraneio Vascaína, Que país é este?, Fátima, entre outras pérolas que se tornaram clássicos do rock brasileiro.

    A banda estava no auge em Brasília quando uma briga entre Fê e Renato acabou com tudo. "Eu briguei com o Fê por causa da música Química", disse Renato. "Nessa época estávamos supersofisticados, ouvindo sei lá o quê – Joy Division, essas coisas e eu cheguei com aquela música: Não saco nada de química... E eles: Pô, Renato, você está atrasado..." Fê bateu pesado: "Você está perdendo seu jeito de fazer música". Depois, reconheceu que errou em seu pré-julgamento: "Que bobagem minha! Hoje a música é um clássico".

    Antes, outro desentendimento tinha deixado a relação de amizade entre os dois estremecida. Em dezembro de 1981, no primeiro aniversário da morte de John Lennon – ídolo de Renato – o Aborto realizou um show em Taguatinga. "O Renato estava super sentido. Quando ele errou uma música, atirei uma baqueta nele e acertei na cabeça. Ele me olhou com uma cara horrível e sumiu depois do show. Fui na casa dele e só faltou me jogar aos seus pés...", lembrou Fê. A banda morreu, contudo, em março de 1982.

    O fim do Aborto não levou Renato a desistir da música. Muito pelo contrário. Estava convencido que seu trabalho era bom. E era. Passou então a se apresentar sozinho, munido de um violão de 12 cordas, nos intervalos dos shows da Plebe e da Blitx 64. Uma espécie de Bob Dylan – uma de suas grandes influências – do cerrado. São dessa época as músicas Faroeste Caboclo, Eduardo e Mônica, Eu Sei e Dado Viciado. Philippe Seabra lembra que no intervalo dos shows das bandas, quando Renato subia ao palco para se apresentar, ele e a turma da Plebe perturbavam o "Trovador Solitário". "Ficávamos jogando moedas só para ver a cara dele.

    "Eram baladas com uma história (começo, meio e fim) bem diferentes do seu estilo junto ao Aborto Elétrico. Invitavelmente, essa mudança começou a chamar atenção a atenção de pessoas menos ligadas – havia os que detestavam de verdade – ao movimento elétrico da cidade. Agora era possível compreender as letras das músicas, o que tinha sido impossível até então, devido a problemas com microfones e volume alto demais", escreveu o próprio Renato num proto-release press, em maio de 1982. Ele chegou a gravar algumas dessas composições numa fita k7, em que brincava de locutor de uma imaginária Rádio Brasília.

 

A Legião Urbana a tudo vence

    Essa fase violão e voz durou até agosto daquele ano. Nesse mês, Renato resolveu montar uma nova banda. Encontrou-se com Marcelo Bonfá, baterista egresso do SLU – uma brincadeira com a sigla da companhia de lixo de Brasília, Serviço de Limpeza Urbana, e que tinha tido uma rápida passagem pelo grupo Dado e O Reino Animal -, numa festa organizada por André Müller. A idéia, segundo Renato, era montar um núcleo mínimo para a banda – baixo e bateria – e convidar guitarristas esporadicamente para tocar como convidados. A idéia em gestação, entretanto, não foi para frente. A banda, entretanto, já tinha nome: Legião Urbana.

    O guitarrista que se fixou, inicialmente, foi Eduardo Paraná ou Kadu Lambach, ex-Boca Seca. E a banda incorporou o tecladista Paulo Paulista, que estreava como músico aos 16 anos, mas manteve-se na banda por pouquíssimo tempo. Com essa formação, a banda se apresentou, em fevereiro de 1983, em Patos de Minas (MG), junto com a Plebe Rude – a banda mais importante de Brasília naquele momento -, na chamada Feira do Milho. A estréia acabou com um pequeno problema entre as duas bandas e a polícia local. A Plebe detonou a canção Vote em branco e mexeu com os brios do poder local. Todos acabaram em cana

Foto de Fernanda Villa Lobos

    "Vivíamos o governo Figueiredo e estava cheio de polícia no lugar. Enquanto tocávamos, André Müller, conversava com os peões da platéia, jogando todo aquele papo socialista que a gente já conhece das músicas da Plebe Rude. Durante o show, eles perguntavam aos trabalhadores o que achavam do salário que recebiam, se concordavam com as condições em que viviam... Foi só descermos do palco, que havia uma fila de policiais nos esperando para nos levar para a delegacia", lembrou Kadu Lambach, o Paraná, em entrevista à Showbizz, em 1997.

    Kadu ficou na banda por pouquíssimo tempo também, fazendo ainda mais três shows, inclusive dois realizados ao ar livre, no Teatro do Cave, no Guará, e na Ciclovia do Lago Norte, onde tocaram grande parte do repertório do Aborto e duas canções próprias, jamais gravadas: Carne Clandestina e O Cachorro. A primeira era fruto da vivência de Renato como repórter do Jornal da Feira, editado pelo Ministério da Agricultura. Kadu saiu, por iniciativa própria, em decorrência das divergências musicais com Renato e Bonfá. Era um virtuoso na guitarra, algo que não agradava os garotos que adotaram como lema o do it yourself sugerido pelos punks ingleses.

    No lugar do fã de Jimmy Page e Jimi Hendrix, que adorava solar, foi convidado a integrar a banda um velho conhecido de Renato: Iko Ouro Preto, que chegara a fazer parte do Aborto na sua última fase. Irmão de Dinho Ouro Preto, futuro vocalista do Capital Inicial e integrante de uma das inúmeras formações de Dado E O Reino Animal, Iko ficou pouquíssimo tempo. Reza a lenda que sua passagem pela banda não durou um mês. Em março de 1983, Bonfá convidou Dado Villa Lobos, ex-companheiro de banda, para ocupar a vaga de guitarrista.

    A pressa em descolar um substituto para Kadu, que deixou a banda para se dedicar à música, se justificava. Em abril, o grupo era uma das estrelas da chamada Temporada do Rock Brasiliense, realizado durante dois finais de semana no Teatro da Associação Brasileira de Odontologia (ABO). Além da Legião, apresentaram-se as outras bandas importantes da cena local: Plebe Rude, Capital Inicial e XXX, que depois geraria o Escola de Escândalo, e a Banda 69.

    "Como havíamos alugado o teatro, ficamos ensaiando lá direto", lembra Dado. "A gente era quase hardcore, mas como as melodias do Renato eram geniais, o resultado acabou ficando bem satisfatório". Usando um pijama como roupa, o novo guitarrista estreou na banda num teste de força, tendo em vista que sua guitarra quebrou logo depois das duas primeiras canções. Mas a banda não deixou cair a bola. Renato já era um grande entertainer, emendou uma jam com a platéia – Adahn (que está na seção raridades da RockBrasília) e fez bonito. "Viramos a zebra do páreo", recorda Dado. "Nos saímos tão bem que a galera resolveu nos dar a maior força". Na platéia, uns cinqüenta gatos pingados assistiam ao show. "Só tocamos umas sete músicas. Era mais um negócio de tocar para os amigos, uma festa...", avaliou.

    Logo depois, uma matéria publicada na revista Pipoca Moderna, escrita por Hermano Vianna, irmão do líder dos Paralamas, chamou a atenção da imprensa nacional para o movimento brasiliense. "O cerrado contra-ataca", escreveu. Em pouco tempo, graças aos Paralamas, que já haviam montado a banda, gravado o primeiro compacto com a EMI e mandavam ver nos shows Conexão Amazônica, Tédio (com um T bem grande para você) e Química, a Legião desceu para o eixo Rio-São Paulo para fazer suas primeiras apresentações.

Foto de Fernanda Villa Lobos
Tocando pela primeira vez no Circo Voador, em 1983

    Nas mãos, a primeira demo do grupo, com quatro canções – Ainda É Cedo, Conexão Amazônica, A Dança e Petróleo do Futuro, gravadas no estúdio Gravasom, no Brasília Rádio Center, mesmo prédio onde a banda mantinha uma sala de ensaios, junto com Capital, Plebe e XXX. A demo chega, pelas mãos dos Paralamas, à Rádio Fluminense do Rio, que a inclui na programação. Em julho daquele mesmo ano, o grupo toca no Circo Voador – o mais importante templo do rock carioca -, junto com o Capital Inicial e Lobão. Em outubro, foi a vez de encarar a platéia do Napalm, uma das grandes danceterias de São Paulo, também ponto de encontro dos roqueiros paulistas, e, novamente, fazer o Circo.

    No verão de 1984, junto com a Plebe e os Paralamas, além de outros grupos, participaram do 1º Fest Rock 84, mais uma vez no Circo Voador. A imprensa especializada cobriu o evento e mostrou-se surpresa com a banda. O grupo tocara um dia antes no Rose Bom Bom, outra danceteria também de São Paulo, junto com a Plebe. Rapidamente, a fama da Legião no circuito alternativo começa a crescer, despertando a atenção da EMI, que propõe a gravação de um compacto com Geração Coca Cola. A proposta não agrada os três, já que a gravadora quer uma versão country (?!?) para o velho hino dos tempos do Aborto. Seguem-se novas apresentações, até que a banda fecha o contrato, depois de muitas desavenças com a EMI, que queria empurrar Marcelo Sussekind, guitarrista da banda carioca Herva Doce, para a produção, e contando com um novo integrante: Renato Rocha, o Negrete, egresso da banda de hardcore Dents Kents.

    No início de 1985, a EMI lança Legião Urbana, com produção do jornalista José Emílio Rondeau, em meio ao Rock In Rio, que consagrou os Paralamas e incluiu o Brasil no roteiro das grandes bandas de rock americanas e inglesas. "É a única maneira de ver o seu produto bem divulgado, já que a produção independente, além de muito cara, atinge só a um público de elite", definiu Renato, em entrevista à jornalista Wilma Lopes, publicada no Jornal de Brasília. "Há o lado negativo, mas este é contrabalançado pelas vantagens do lado positivo, que é bem maior. Com jeito, se faz muita coisa. Conseguimos fazer o disco como queríamos, desde a escolha da música até a capa e o encarte".

Foto de Fernanda Villa Lobos
Dado e Renato, durante a apresentação na Escola Parque de Brasília

    A banda lançou o disco em duas apresentações realizadas em março daquele ano na Escola Parque de Brasília. "Essa é a nossa primeira produção de verdade", disse Dado, na época. Os shows, antológicos, mostravam que havia algo maior no ar. As duas apresentações tiveram casa cheia. O sucesso na cidade já havia sido consolidado com apresentações ao longo de 1984 nas cidades-satélites. Taguatinga abrigava o Teatro Rolla Pedra, espaço garantido às bandas brasilienses, que se multiplicavam.

    O jornalista Celso Araújo, em artigo publicado no Correio Braziliense, não poupou elogios. "O disco é veloz, tem a marca mesma da agilidade e da tesitura urbana brasilienses", escreveu. "Legião Urbana faz uma crônica sentimental, sem futilidades", destacou. "Os legionários são o petróleo do futuro".

    O disco chegava às lojas junto com o fim da ditadura militar e o início do processo de redemocratização do Brasil, que via nascer a Nova República. "A gente tem esperança que as coisas vão melhorar. É daqui de Brasília que vai surgir a garotada nova, com idéias novas, não só na música, mas no campo das artes em geral", previa Renato. "Para o futuro, planejamos muita música, muitos agitos, muito trabalho e tudo de bom".

    E assim foi... Quinze anos depois, a poesia e a música de Renato estão aí, servindo de exemplo e inspiração de vida para todos

Renato Russo vive!!!
"O mal do século é a solidão. Cada um de nós imerso em sua própria arrogância. Esperando por um pouco de afeição"
Curiosidades

FOTO: LUCIANA LEAL/AJBA "roconha" retratada nos versos de Faroeste Caboclo realmente existiu. Foi uma festa embalada por muito maconha e rock and roll, em um sítio de Brasília. Foi tão marcante que a cidade inteira ficou ansiando pela segunda edição do evento. Os convites da "Roconha II" eram impressos em seda e colados em um pedacinho de papelão. Renato Russo e a Turma da Colina, que não tinham participado da primeira festa, também ficaram empolgados.

No dia marcado, todos se dirigiram ao local. Cada um que chegava à festa ia sendo grampeado pela polícia. O batalhão da área teve de alugar ônibus para prender tanta gente. Filhos de militares e autoridades iam para um lado, os simples mortais para outro. As meninas choravam enquanto eram ameaçadas pelos policiais: "sua mãe vai saber que você anda com maconheiro". E assim, sem ao menos começar, acabou a lendária "Roconha II". Nada a ver com Jeremias.

Eduardo e Mônica foi inspirada em uma amiga de Renato Russo de Brasília, Leonice de Araújo Coimbra. Mas o "boyzinho" que jogava futebol de botão com o avô foi uma invenção de Renato. O que deixava muita gente decepcionada.

Soldados foi a primeira música da banda, segundo Renato, com uma sensibilidade mais gay. A qualquer um que se espantasse com a interpretação explicava: "são dois meninos que descobrem que se gostam. Nossas meninas estão longe daqui/ E de repente eu vi você cair/ Não sei armar o que eu senti/ Não sei dizer que vi você ali ... Era também uma homenagem a André Pretorius, companheiro da época do Aborto Elétrico que havia ido para guerra.

"Não tenha medo, Não preste atenção, Não dê conselhos, Não peça permissão. É só você quem deve decidir o que fazer, pra tentar ser feliz.
Melancolia no lugar do punk

Se até o momento o Legião vinha alternando discos que falavam sobre a ética pública com os que tratavam sobre a esfera privada, era de se esperar que V viesse com uma forte carga punk. Porém, após o introspectivo Quatro Estações, os meninos optaram por algo ainda mais melancólico. Renato chegaria a falar: "Bonfá me traz umas melodias dessas e eu que levo fama de ser deprê". Acabou sendo o disco que Marcelo e Renato mais gostaram. Era ao mesmo tempo conceitual, político e pessoal.

FOTO: FERNANDO RABELO/AJBPropositalmente lento, foi concebido para causar estranheza. O poeta pretendia escrever letras que não fossem perenes, fossem atemporais como versos de Pessoa ou Drummond. Metal Contra as Nuvens era uma das melhores letras de Renato. Tratava desde Fernando Collor (Quase acreditei em suas promessas) a homossexualismo e Aids (É a verdade o que assombra/ O descaso o que condena/ A estupidez o que destrói).

Foi o disco mais erudito também. Citações de escritores como o português Nuno Fernandes Torneol, do século XIII, e o alemão Johann Pachelbel, do século XVII, estavam lá. Tinha também a música O Mundo Anda Tão Complicado, tema de vários amores pelo Brasil afora, que se tornou a mais pedida em shows. Sem esquecer do hit Vento no Litoral" (O plano era ficarmos bem).

Em agosto de 1992, o grupo voltou para a estrada. As letras de V permitiram que os shows ficassem ainda mais míticos. Mas o clima na banda não era dos melhores. Novamente Renato entrava numa fase perigosa, alertaria Dado. A convivência foi se tornando exaustiva. Renato, já sabendo que era soro positivo, continuava usando drogas e bebendo. Junto com a hora do show, chegava a ressaca. Não raro, se assustava tanto com os efeitos do porre que achava que iria morrer.

Renato, que desprezava os aplausos da mídia e dos fãs enquanto o astro se auto-destruía (como James Joplin, Kurt Cobain e Jimmy Hendrix), flertava perigosamente com a morte. Certa manhã, chegou à piscina do hotel onde estavam hospedados no Rio Grande do Norte e perguntou por Dado e Bonfá. Fez um escândalo quando soube que ambos haviam saído para conhecer as praias com suas famílias. "Só eu que me interesso pelo trabalho? Então vamos embora." E foi encerrada a turnê.

Redenção - Na volta, Renato decidiu se cuidar. Pensava em si mesmo e na imagem que iria deixar para o filho Giuliano. Passou a tomar AZT, para retardar o aparecimento dos sintomas da doença. Os efeitos colaterais descreveria como "um cachorro vivo que vai me comendo por dentro". Freqüentou as reuniões dos Alcoólicos Anônimos. Passou três meses internado em uma clínica para toxicômanos. Este tipo de tratamento demonstrava uma grande humildade, elogiaria Rafael.

Os trabalhos musicais seguintes não tiveram uma boa recepção do público. Tanto Descobrimento do Brasil (1993), quanto The Stonewall Celebrartion Concert (1994), seu primeiro disco solo, ficaram no ostracismo. A depressão voltava a assombrá-lo, contudo trabalhava como um louco. Os demais integrantes da banda já haviam percebido que o macete era mantê-lo ocupado, Renato também.

Na noite de 14 de janeiro de 1995, a Legião se apresentava em um danceteria de Santos, quando uma lata de cerveja acertou o vocalista. Renato passou então 45 minutos cantando deitado no chão do palco. A platéia só o via quando levantava o braço para olhar o relógio de pulso e ver que horas eram. A temperatura esquentou. Quando aquilo acabou, todos estavam convictos de que nunca mais haveria um show do Legião Urbana.

Em meados de 1995, Renato, que tinha ido à Itália colher material para o seu novo disco solo, voltou a ficar depressivo e a se apoiar na bebida. Porém, começou a gravar o álbum. Havia dias em que ele apenas passava pelo estúdio, dava as coordenadas e ia embora. Contraditoriamente, o disco foi o mais tranqüilo já produzido até então. Todo em italiano, tinha um título que auto-biografava o momento do cantor: Equilíbrio Distante. A Aids aos poucos avançava e Renato, que lia muito sobre o assunto, tinha plena consciência do que estava lhe acontecendo.

Em janeiro de 1996, a Legião Urbana voltava ao estúdio para registrar aquele que seria seu último disco, ou melhor, seus últimos discos. O material produzido era suficiente para dois CDs. Surgia assim A Tempestade e Outra Estação. Letras como Via Lacta e Clarisse expunham de forma inédita a vida do autor. Havia dúvidas de até onde deveriam ir.

Por isso, em respeito aos fãs, algumas músicas ficaram de fora. Renato, na verdade, não tinha condições de estar freqüentemente nas gravações, mas acopanhava o processo por telefone. Já estava muito magro e sem forças. Registrou quase tudo de primeira em gravações comoventes. Quando cantou Hoje a tristeza não é passageira/ Fiquei com febre a noite inteira, não usava metáforas

Pra mim, rock’n’roll é tocar, se divertir, fazer o maior auê e ir embora." 1986
Quero trabalhar em paz. Não é muito o que eu lhe peço. Eu quero trabalho honesto. Em vez de escravidão"
Confusões marcaram shows da Legião em Brasília

FOTO: DILMAR CAVALHER/AJB"Há quem chame a meia-noite de a hora do rabudo. Naquela fração do tempo ambígua, nem hoje nem amanhã, o demônio deixaria o inferno para agir na terra." Assim , o jornalista Arthur Dapieve começa a descrever o que aconteceu no triste show do Legião Urbana, em Brasília, dia 18 de junho de 1988. O estádio Mané Garrincha estava lotado. Era o retorno da banda à cidade natal.

A apresentação começou com uma hora de atraso. Renato abriu o show cantando Que país é este?, nada mais apropriado para ser dito na Capital Federal. O público foi à loucura. Nas duas músicas seguintes, ainda estavam empolgados com a apresentação. Durante a quarta música, porém, meia-noite em ponto, Renato cantava Conexão Amazônica, quando decidiu contar a "saga da criança junkie": ‘dois sobreviveram, dois casaram, um morreu e outro ficou assim...’, concluía imitando um entrevado.

O "Clube" era uma sátira a programas com o "Clube da Criança" de Xuxa, só que com pequenos drogados. Um doente mental, manco como uma criança junkie, entrou no palco por trás do cantor deu-lhe uma "gravata". Bateu também em sua cabeça com um canudo de papel. Renato usou o microfone para se defender. A segurança entrou em ação e afastou o invasor.

O que aconteceu depois foi um desentendimento geral com a multidão. Estes jogavam todos os tipos de objetos nos músicos, que ainda tentaram, durante a execução das sete músicas seguintes, amenizar o ocorrido. Renato defendia alguns fãs que apanhavam dos seguranças. Tudo em vão.

A situação não dava sinais de que seria controlada. Os músicos deixaram o palco e as luzes foram acesas. Ensandecido, o público começou jogar cercas para o alto e a incendiar a lona que cobria o gramado. Muita gente foi pisoteada. A PM avançou com cães a cavalos. No camarim, Dado e Renato Rocha choravam, todos estavam atônitos. Ninguém havia entendido nada.

Para Renato Russo aquele seria o show de sua vida. O retorno do filho pródigo após uma ausência de um ano e meio, motivada pela morte de uma menina durante o show de lançamento de Dois, na cidade, em dezembro de 1986.

O episódio no estádio Mane Garrincha teve repercussão nacional. Russo tinha uma explicação espiritualista para o fato: "Muitos candangos morreram ao construir Brasília. Os responsáveis pela construção escondiam os corpos em meio ao concreto. Estas paredes estão cheias de corpos. Por isso, Brasília é uma cidade estranha, sombria. Acontece algo de mórbido com as pessoas neste lugar".

Apesar da catástrofe no Distrito Federal, seis meses depois, em janeiro de 1988, a banda voltaria aos palcos. Fizeram parte do "Alternativa Nativa", evento onde se apresentaram diversos grupos da geração 80. O show foi perfeito. O vocalista estava inspirado. Chegou a fazer panfletagem a favor das eleições diretas. Na despedida, sintonizado com o clima de harmonia que pairou sobre a apresentação, Renato disse: "Deus abençoe vocês. Obrigado, boa noite".

A essas alturas, com três discos de sucesso lançados, a banda flertava perigosamente com o messianismo. Fãs ficavam nas portas dos hotéis esperando uma aparição de Renato. Catavam suas guimbas de cigarro. Eram os sintomas daquilo que alguém batizou como a "Religião Urbana".

O sucesso da Legião Urbana

Quando "os legionários" chegaram no estúdio para gravar o primeiro disco, em 1984, o produtor, José Emílio Rondeau, não pôde deixar de perceber o talento privilegiado de Renato Russo. "Só um cego não constataria que Renato era John Lennon, Bob Dylan, Elvis Presley, Bruce Springsteen, tudo junto, num país tão carente de similares nacionais".

FOTO: ALEXANDRE DURÃO/AJBE assim, dentro da experiência mística que era assistir Renato cantar, foi feito o vinil. Muita coisa já estava no forno desde a época do Aborto Elétrico. Renato saía do hotel em Copacabana e ia de ônibus até o estúdio da EMI-Odeon, em Botafogo, também na Zona Sul do Rio, para gravar. No caminho, ainda que fossem 9 horas da manhã, parava em um boteco e tomava algumas doses.

No início de 1985, soterrado pela mídia dedicada ao primeiro "Rock in Rio", chegava às lojas Legião Urbana. Ficou na "geladeira" por seis meses antes de estourar, conquistando os fãs um a um. Será virou hit pelo Brasil a fora. Seus versos narravam de forma única os anseios juvenis frente àquela conjuntura política (Vamos conseguir vencer?), mas era também uma canção de amor.

Renato voltou a morar no Rio, na mesma casa de subúrbio onde tinha passado a infância, na Ilha do Governador. O disco já estava então na casa das 50 mil cópias vendidas, com várias músicas tocando nas rádios brasileiras.

Embora tivesse "um pé" atrás em relação à televisão, o grupo aceitou aparecer no programado do Chacrinha. O Velho Guerreiro adorou Renato Russo. Disse que tinha a voz muito parecida com a de um dos seus cantores favoritos, Jerry Adriani. Comparação, aliás, que seria feita muitas outras vezes. Renato e o cantor da Jovem Guarda se encontraram em algumas ocasiões. Nutriam um respeito mútuo e concordavam que suas vozes eram semelhantes. Talvez pelo fato de ambos terem como influência vocal Elvis Presley.

Sucesso consolidado - Ainda estavam contentando seus fãs com apresentações em danceterias do Rio, quando Dois, o segundo LP, chegou às lojas. Era um disco mais introspectivo. Embora canções como Tempo Perdido e Índios tivessem sido criadas na época da Turma da Colina, a maior parte das músicas foi feita no estúdio da gravadora. Exceção para Eduardo e Mônica, que fez parte do repertório do Trovador Solitário, Andréia Dória e Daniel na Cova dos Leões, que havia ficado fora do Legião Urbana e ganhara letra para integrar o novo disco.

Composta pelos "renatos", Daniel tinha pronomes pessoais manejados de maneira a contemplar todas as formas de amor: hetero e homossexuais (Aquele gosto amargo do seu corpo/ Ficou na minha boca por mais tempo). Andréia Dória, de 1977, teve os primeiros versos alterados sem, no entanto, perder a grande carga poética. Música de despedida, falava também sobre solidão, sentimento que sempre rondava Renato, apesar dos amigos, apesar do sucesso crescente. Com uma grande porção acústica, o LP era bastante pretensioso. Havia um visível crescimento de Renato como letrista e de Rocha, Dado e Marcelo como músicos. Vendeu inicialmente 700 mil cópias.

Que país é Este - A gravadora passou então a cobrar um terceiro disco. Mas Renato estava travado, não conseguia compor. Sentia-se desconfortável no papel de porta-voz da juventude. Tinha consciência da responsabilidade que isso representaria. "Escrevo justamente porque não sei. Não quero que minha opinião sobre temas controvertidos, drogas por exemplo, influencie outras pessoas," chegou a dizer. Mas em outubro de 1987, a Legião Urbana estaria de volta aos estúdios.

Resolveram o impasse gravando músicas do Aborto e do Trovador Solitário, que tinham ficado de fora do primeiro disco. De novo, tinha Angra dos Reis e Mais do Mesmo. Ironicamente, pensaram em batizar o disco de Mais do Mesmo, mas a proposta foi descartada. O trabalho foi rápido e divertido. Quinze dias para gravar e mais 15 para mixar. Improvisou-se até um torneio de vôlei no estúdio.

"São letras antigas e adolescentes", resumiria Renato. No começo de 1988, o grupo caiu na estrada para divulgar o vinil. Foi nesta fase também que trocaram de empresário. Saía Fernanda Villa-Lobos, irmã de Dado, e entrava Rafael Borges, que ficaria com a banda até o final.

 

No início das gravações do disco seguinte, Quatro Estações, Negrete, como era apelidado Renato Rocha, sairia da Legião Urbana. Seu afastamento dos outros membros do grupo tinha se acentuado. Russo, Dado e Bonfá justificariam a expulsão do quarto integrante da banda alegando atrasos e faltas. "Meu único compromisso era fazer música", disse Rocha em entrevista ao JB Online. O líder era extremamente exigente consigo e com os outros. Seu profissionalismo beirava a obsessão. De certa forma, a saída de Rocha ajudou o vocalista a manter seu padrão "qualidade total".

Quatro Estações - "Não estou a fim de falar de enchentes, aids, governo. Quero cantar canções de amor, baladas íntimas, musiquinhas para cantar junto. Já desistir de fazer músicas para salvar o mundo. Eduardo e Mônica estão divorciados." Este fragmento, de uma entrevista dada por Renato na época do lançamento do quarto disco, dava uma idéia do que devia ser esperado. E assim foi feito. Quatro Estações era ainda mais introspectivo que Dois.

O letrista usou citações bíblicas, do budismo e de Camões para falar de amor. O LP levaria 16 meses para ser realizado. Refizeram toda parte em que Negrete havia participado. Ainda houve uma fase de "baixa" de Russo. Não conseguia tirar Brasília da cabeça. Nesta tentativa, chegou a ir ao show do A-HÁ na Apoteose, Rio de Janeiro, para aprender como falar o que queria sem que as pessoas ensandecessem.

Em novembro de 1989, o disco foi lançado - 450 cópias vendidas por antecipação. Era a melhor safra de poesia/ rock já realizada pelo grupo. Desde a anti-épica Há Tempos até a romântica Se Fiquei Esperando Meu Amor Passar, todas as canções tinham fortes apelos emotivos.

Sexualidade - As Quadro Estações também traria, pela primeira vez, uma música na qual Renato mencionava abertamente de sua opção sexual: Meninos e Meninas. Antes havia referências veladas, como em Daniel ou Soldados, mas agora o letrista falava sem metáforas ou subterfúgios sobre sua pan-sexualidade, como gostava de definir.

Feedback song for a dying friend antecipava o pesadelo da aids vivido pelo autor, mas, naquele momento, estabelecia uma ligação direta com a morte pública de Cazuza. "Sejamos sinceros, trata de uma relação homossexual", disse Renato em entrevista. Era a primeira vez que ele falava abertamente sobre sua sexualidade na mídia. Chegou a dizer que estava em quase todos os grupos de risco, pois só não era hemofílico.

No entanto, evitava se transformar num mártir da causa gay. Anos depois, pensando em sua contundente "saída do armário" relutaria em admitir que era um ato de bravura. Resumia dizendo que a sociedade aceita melhor quando se trata de alguém do meio artístico. Mas isso não altera muito a vida do homossexual off-artes.

A família já sabia que Renato era gay há mais de dez anos. Tanto os pais quanto o núcleo familiar da Ilha do Governador, onde morava com Tia Socorrinho, apoiavam-no plenamente. Embora sendo, segundo ele mesmo, uma figura difícil, bebia muito, tinha um gênio forte, era amado e respeitado por todos.

Pais e Filhos - Meu filho vai ter nome de santo/ Quero o nome mais bonito. Com os versos de uma de suas músicas de maior sucesso, o vocalista anunciava aos fãs a chegada de Giuliano, seu filho. Tratou o assunto com discrição e carinho. "Disto eu não falo", era sua frase habitual. A mãe, uma modelo que morreu logo após ao nascimento do menino, não pode ser conhecida. Renato adorava Giuliano. Embora este vivesse com os pais do músico em Brasília, opção do próprio Renato devido a sua vida desregrada, mantinham contato freqüente.

O que fazem os companheiros de Renato
Passada a tristeza pela morte do lídero da Legião Urbana, os companheiros de estrada de Renato Russo partiram para outros caminhos. O guitarrista Dado Villa-Lobos cuida atualmente apresenta um prgrama em uma rádio online, cuida do seu selo independente e atua como produtor de discos. O baterista Marcelo Bonfá, que decidiu se dedicar à pintura, está produzindo o seu segundo disco solo. Renato Rocha, que participou da fase inicial da Legião, está tocando com o Finis Africa e prepara alguns shows no Rio. Carlos Trilha, um dos produtores mais atuantes na banda, é sócio de um selo de música, atua em uma banda e prepara o lançamento de seu primeiro disco.
FOTO: SONIA D´ALMEIDA/AJBNegro, 40 anos, alto, forte, careca. Casado há nove anos, o músico tem dois filhos. Muito falante e sorridente, chegou para a entrevista de capacete e roupa de ciclismo. Fora da mídia há quase dez anos o ex-baixista da Legião Urbana é uma figura difícil de ser encontrada, embora deixe lendas por onde passa. No pequeno vilarejo de pescadores onde vivia na Zona Oeste do Rio, alguns moradores falavam sobre um crioulo forte que morou ali há cerca de um ano e tocava com uma banda de rock na pracinha. Outros lembravam de sua bicicleta diferente que valia US$ 10 mil. Mas ninguém precisava seu paradeiro. Apenas diziam que era em algum lugar de Vargem Grande. Chegando ao local, ouvimos as mesmas histórias que tinham sido contadas em Barra de Guaratiba, só que agora seu novo paradeiro seria Curicica, um sub-bairro de Jacarepaguá. Quando já nos preparávamos para a nova jornada, um menino disse que conhecia um amigo do Renato. E foi assim, através do amigo do amigo, que conseguimos contactar o músico. Isso, após ter tentado por uma semana os meios mais tradicionais: gravadora, assessoria, empresário e sites na internet. No início da tarde de um domingo, a entrevista finalmente pôde ser feita. Na casa do amigo de Renato, enquanto a família se preparava para o almoço, ele falava sobre drogas, sua saída da Legião, suas loucuras amorosas e seu isolamento quase proposital.

Por que você se afastou por 10 anos da mídia?

Primeiro porque eu fiquei muito chateado por ter sido expulso da banda, mas aceitei numa boa, pois era o Renato Russo que estava me pedindo para sair. Não queria entrar em atrito com ele, por isso fiquei calado. Renato foi o leme daquilo tudo. Eu não. Ele tinha todo o direito de me mandar embora. Jonas foi jogado às baleias, como na bíblia.

Os integrantes da banda disseram que você teve que sair por chegar sempre atrasado e não cumprir os compromissos.

O compromisso maior que eu tinha era de fazer música e este eu cumpria. Era empregado da gravadora, não da banda. Com a banda tinha de fazer música. Cheguei a pagar três ou quatro vezes multas de R$ 100 por ter me atrasado. Mas quando eram eles que chegavam depois da hora, olhavam com aquelas caras de babaca e não pagavam nada. Importante em qualquer meio é ter integridade, hombridade, enfim, caráter e isso eles não tinham.


Nem mesmo o Renato Russo?

Renato foi um gênio, a base de tudo aquilo ali. É lógico que uma pessoa que bebia como ele de vez em quando se atrasava. Mas isto tudo é besteira. O Jimmy Hendrix era todo certinho? Não. Nem por isso deixou de ter seu trabalho reconhecido. O Renato teve que fazer uma escolha: era eu ou o Dado (Villa-Lobos guitarrista) e o Bonfá (baterista). Ficou com eles. Não quis ser um estorvo na vida do cara.

Qual o motivo da sua indisposição com o Dado e o Bonfá?

Estes caras nunca entenderam o real motivo da Legião. Nós, da Turma da Colina, éramos um bando de punks. Foi muito difícil ser diferente numa cidade como Brasília. Os play boys andando de sapato italiano e agente andando rasgado. A galera era discriminada, sofremos muito preconceito. Quem não é de lá, não imagina o que é aquilo. Você chega no supermercado e o cara entra na sua frente com seis carrinhos de compras e paga com tíquete do governo. Tudo deles é do governo. Casa, carro, seguranças, tudo do governo. É uma elite esnobe. Nós íamos de encontro a tudo isso. Vivia todo furado, roupa rasgada, mas tinha uma ideologia. Neguinho não emprestava para a gente nem a tomada da lanchonete. Achávamos que através da música íamos mudar o mundo. As trombetas derrubaram as muradas de Jericó, entende? Se eu começar a gritar revolução, revolução, eu acabo materializando a revolução. Caras como o Dado e o Bonfá vieram no pós-punk. Calça punk já vendia na "Yes Brazil". Eram os "lambi-lambi". Lixavam o jeans para parecer velho. Não entendem nada. Viveram aquilo ali. Viveram ao lado do Renato que foi o líder da juventude punk de Brasília, mas não entenderam nada.


Renato era o líder?

Lógico! O cara era um gênio. Ele nem ficava na Colina não. Só ia lá à noite. Trabalhava dando aulas de inglês. Mas quando ele chegava, todo mundo ficava embasbacado escutando. Se se falava de uma música, ele dizia: tem 4 minutos e 30 segundos, foi composta por fulano, por causa disso e daquilo. Se o papo era sobre um músico, o cara sabia a cor da cueca do sujeito. David Bowe ficou pasmo com o Renato. O dono da gravadora ficava embasbacado. Era um gênio. Parecia aqueles programas de TV "eu pergunto você responde". Lia quatro livros por noite. Sabia tudo. Cantava em inglês perfeito. Muita coisa ficou perdida com a morte dele. Se agente estivesse fora do país, seríamos como o U2. Com as músicas da Legião traduzidas em outras línguas, não teria para ninguém. Porque o jovem entende essa proposta musical em qualquer parte do mundo. Agente falava o que eles queriam ouvir

Qual a importância da Legião na sua vida?
Foi tudo. A Legião me projetou nacionalmente. Fez eu descobrir minha veia artística. Mas os fãs falam que quando saí, a banda perdeu peso, sonoridade.


Você sabia que o Renato estava doente?

Soube logo no início, em 1990.

Poucas pessoas sabiam, quem te contou?

Um amigo, que eu não vou revelar. Há mais coisa entre o céu e a terra que possa supor nossa vão filosofia.

Você falou que o Renato tinha problemas com bebida alcoólica e que se atrasava por causa disso...

A sociedade fica nessa hipocrisia sobre o álcool. Incentiva e não diz que é droga, mas é. Também tive problema com isso. Mas graças a Deus consegui me safar. Minha maior ajuda foi Deus. A pessoa tem de ter uma assessoria. Renato não tinha. Eu falava para ele: cara, você tem que ter massagista de ego, advogado, assessor para tudo. Mas ele ficava lá sozinho. Um cara como aquele, uma sumidade, um gênio, tem de ter limusine para ir buscá-lo se ele tiver bêbado. Ter advogado para livrar a cara dele se ele decidir subir na mesa do bar e criar o maior rebú. E olha que ele decidia. Era um astro, mas quando estava bêbado ninguém queria agüentar e isso é errado.

Como você soube da morte dele?
Eu estava na casa de um integrante da Cartilagem, a banda que eu tocava, ensaiando. De repente, chegaram vários jornalistas querendo um depoimento meu sobre a morte dele. O que eu achava? Só pude pensar, "Juninho que merda que você foi fazer irmão, morreu sem realizar o seu maior sonho".

E qual era o maior sonho?

Eu sei lá (risos). Acho que era morrer velhinho. Ter um sítio, netos, essas coisas. Ele falava muito disso. De qualquer forma, ele estava preso naquele corpo inerte, muito antes de ficar doente. Acordava tarde, não fazia exercícios. Normal, pensar numa vida mais simples, mais natural. Tinha de ter amigo. Renato não tinha amigos.

Andava com várias pessoas...

Não! Ficava sozinho. Uma puta sensibilidade e sozinho.

Você culpa a opção sexual dele pelo que aconteceu?

De maneira nenhuma. O cara escolheu o que ele tinha de escolher. Buscava muito e acabou encontrando algumas coisas. A pena é ter morrido tão cedo. Faltava muita coisa.


Entre os integrantes da banda existia amizade?

Não. Cada um na sua. Ninguém saia junto. Não tinha nada a ver. Mas eu respeitava o Renato e ele gostava de mim. Lembrava do meu aniversário. Dava presente. Bom, lembrou algumas vezes. Chegou até a me dar uma coleção de desenhos animados. Sabia do que eu gostava. Sempre dava o presente certo para cada um. Figuraça o Renato. Tinha um caderninho onde anotava tudo sobre a pessoa, logo que a conhecia. Queria fazer seu mapa astral na hora. Tempos depois, quando encontrava a pessoa de novo, ia lá no caderninho e falava tudo.


Você disse em uma entrevista que o Dado e o Marcelo não sabiam tocar e isso afetou o relacionamento de vocês.

Toco acordeom desde os quatro anos de idade. Escutava música clássica. Tenho uma cultura musical vasta. Gosto desde Pixinguinha a Sex Pitols. Os caras não sabiam nada. O primeiro disco foi claustrofóbico. Eu pensava que era sacanagem do Bonfá. Ele não acertava o tempo da música. Então tínhamos que repetir mil vezes a mesma coisa. Depois vi que ele não sabia mesmo. Quem fez a guitarra e os violões foi o Renato. O Dado só fazia barulhinho. Com um sobrenome daqueles e não herdou nada. Sim, porque Villa-Lobos era foda. Ele é descendente direto. Como pode? Mas eles continuaram na carreira artística fora da Legião.

O Bonfá lançou um disco. Você ouviu?
Não.


Ficou sabendo (risos)?

Também não (Mais risos). O Dado tem uma gravadora. Se eu tivesse no lugar dele tinha feito muito mais. Tocava na Legião e em mais duas bandas. Ensaiava, gravava e ainda ia para Curitiba de moto todo fim de semana. Parei com tudo quando a grana acabou. Não sou o Zé Colméia, o mais esperto dos ursos, mas eles não têm vitalidade, musicalidade, não têm nada.


O que você fez depois que deixou a Legião?

Sobrevivo até hoje dos royates e da vendagem de disco. Tive uma fase muito braba, com sérios problemas de drogas. O fundamental para mim foi acreditar em Deus e decidir ter um filho. Quando se tem um filho, a gente fica pensando o que o moleque vai achar da gente. Não quis ser apenas mais um roqueiro maluco. Tentei também montar uma banda, a Cartilagem. Queria lançar uma música alternativa. Falava sobre ecologia, sobre o interior do Brasil. Já morei na Chapada dos Veadeiros. O jovem não conhece o interior. Tem lugar onde um telefone é artigo de luxo. Tinha uma nova proposta para juventude, mas na mídia só se falava em pagodes, em bundas. Acabou não dando certo.

E hoje, o que você faz?

Pratico esportes. Adoro o ciclismo. A bicicleta interage de uma forma pacífica com a natureza. Toco com o Finis África. Estou assimilando as músicas deles e acrescentei algumas do Legião ao repertório. Pedi a Dona Carminha (mãe do Renato Russo) e ela liberou as canções para eu usar. Foi bem legal, pois o mais caro são os direitos autorais das letras. Fizemos uma releitura de 'Eu sei', 'Eduardo e Mônica', 'Faroeste Caboclo' e 'Que país é este?'. O show está bem legal. Vamos tocar até o final do mês todas as sextas-feiras no Ballroom (Humaitá). Mas ainda não está dando para ganhar dinheiro com isso.

Tem algo que você gostaria de falar sobre os cinco anos de morte do Renato Russo?
Acho que ele caiu numa cilada da vida. Lutou contra a doença e não conseguiu vencer. Mas fez muita coisa. Por ser formado, saber inglês, ter uma boa cultura, foi a voz da nossa geração. Transformou música, amor, rebeldia em liberdade. Pena ter morrido

"Sexo verbal não faz meu estilo. Palavras são erros e os erros são seus. Não quero lembrar que eu erro também. Porque é mais forte quem sabe mentir. Não quero lembrar que eu minto também"
Carlos Trilha

O produtor e tecladista Carlos Trilha, que participou do último disco da banda (Como se diz eu te amo) e também produziu os três discos solo do Renato Russo, é sócio do selo Órbita Music, com Fernando Morello. Os dois trabalham juntos em produção musical há cinco anos desde que se conheceram, no estúdio Discover no Rio de Janeiro, durante a gravação do consagrado álbum solo de Renato Russo, co-produzido por Carlos Trilha, Equilíbrio Distante.

Atualmente, além de ser integrante da banda Dantra, que está em fase de preparação do primeiro CD. Trilha também está trabalhando com Lobão há seis meses e está produzindo e mixando o novo disco do artista, bem como o DVD ao vivo. O músico também fez recentemente seu show de número 150 com Marisa Monte, em Brasília.

Carlos Trilha acabou de aceitar fazer a produção do um programa musical na TV, que se chamará Faça Você, na rede Bandeirantes.

Renato Rocha

FOTO: SONIA D´ALMEIDA/AJBNome: Renato Rocha
Apelido: Billy ou Negrete
Nascimento: 1960
Instrumento: Contrabaixo Elétrico.
Renato Rocha fazia parte da gangue dos Carecas em Brasília. Tem como hobbie principal esportes de ação. Ingressou na Legião logo depois da banda ter assinado o contrato com a EMI-ODEON, em 1984. Deixou o grupo em 1989, após o lançamento de Que país é este?, participou da faixa Ridind Song do disco Uma Outra Estação. Quando Rocha saiu da Legião, Renato Russo assumiu o baixo e o grupo continuou como trio, gravando o disco As Quatro Estações, em 1989. O músico sobrevive até hoje dos royates e da vendagem de discos da Legião Urbana. Montou a banda Cartilagem, que tinha uma proposta alternativa, com músicas que falasse sobre ecologia e sobre o interior do Brasil. Atualmente, Rocha toca com o Finis África. Juntos, estão regravando algumas músicas da Legião e vão se apresentar até o final do mês todas as sextas-feiras na casa de shows Ballroom, no Rio de Janeiro

Marcelo Bonfá

FOTO: SONIA D´ALMEIDA/AJB
Nome: Marcelo Augusto Bonfá
Nascimento: 30 de janeiro de 1965
Instrumento: Bateria / percussão
Marcelo nasceu em Itapira, interior de São Paulo. Formou a Legião junto com Renato Russo em 1983 e cuidava das gravuras das capas dos LP’s. Junto com Dado, participou da remasterização da coletânea Por Enquanto, que reúne todos os álbuns do grupo remasterizados. O disco foi realizada nos estúdios Abbey Road em Londres. Com o fim da banda, Bonfá tem se dedicado à pintura.

Em maio de 2000, o baterista gravou seu primeiro CD sem os componentes da Legião, chamado O Barco Além do Sol, título sugerido pelo seu filho Tiago. Ele deixou a timidez e assumiu os vocais. O álbum consta de composições do próprio, de Fernanda Takai e de John, do Pato Fu, e de Fausto Fawcett. Atualmente, Bonfá está iniciando a gravação do seu segundo disco solo.

Sobre Renato Russo, Bonfá só tem elogios a dizer. "Considero as letras do Renato as melhores na música feita no Brasil pôr vários motivos: são muito abrangentes, muito bem estruturadas para o formato e com uma carga emocional absurda". Ele diz não conhecer similares.

Nem por isso deixaram de surgir novos e bons letristas a cada momento. "Não acho as letras que escrevi com o Gian ruins de forma alguma, muito pelo contrário", diz Bonfá. Apesar de ser sua primeira experiência nesta área, ele considera que estão muito bem formatadas para o universo pop. "Consegui atingir o resultado a que me propus, ou seja, são palavras que falam de amor. São letras positivas com uma grande dose de esperança".

Dado Villa-Lobos

Nome: Eduardo Dutra Villa-Lobos
Nascimento: 29 de junho de 1965 em Bruxelas, Bélgica
Instrumento: Guitarras / violão
Sobrinho-neto do maestro, compositor Heitor Villa-Lobos. Entrou para Legião em 1983.
Dado Villa-Lobos é o ex-membro da Legião que está em maior atividade atualmente. Apesar de estar sem banda, ele é proprietário do selo independente Rock It, que existe desde 1993, e tem atuado como produtor de discos, fazendo trabalhos com bandas como as de Moreno Veloso e Toni Platão.

Ainda em seu estúdio, Dado grava os programa para a rádio online da Usina do Som, onde tem seu programa ‘Dado & o Reino Animal’. Além de apresentar, o músico também faz a direção artística. O programa, que vai ao ar todas as segundas-feira às 16h, tem duração de uma hora.

Uma vez por mês terá um programa ao vivo especial, chamado de ‘Dado & o Reino Animal ao Vivo’, que apresentará um artista de renome do pop rock nacional em uma performance em ‘tempo real’ nos estúdios da Rockit, no Rio de Janeiro.

Recentemente, Dado produziu a trilha sonora do filme Bufo & Spallanzani. Flávio Tambellini foi quem convidou o guitarrista para fazer a trilha do seu primeiro longa-metragem a partir da indicação de um amigo comum. A harmonia do encontro entre o produtor de Orfeu e Eu, Tu, Eles e o guitarrista da Legião Urbana pode ser avaliada pela sincronia entre música e imagens do filme. E parece que essa história de trilhas deu certo. Dado foi recentemente convidado para fazer a trilha de O homem do ano, dirigido por José Henrique Fonseca. Neste trabalho, já iniciado, ele vai usar faixas existentes, alem de parceiros.

E tem mais: além de estar preparando seu primeiro disco solo, uma novidade até para ele, já que ainda não tem nenhuma música pronta, Dado Villa-Lobos já tem pronto um disco intitulado de Combate Rock, onde grandes artistas dos anos 80 cantam sucessos de outros. As gravações começaram em um show do Skol Rock, no qual Dado foi convidado para fazer a apresentação de encerramento. O lançamento está previsto para o dia 15 de outubro. Confira o repertório de Combate Rock:

Sheena is a Punk rocker - Roger (Utraje a Rigor)
Fui eu -
Dinho

Geração Coca-Cola - Herbert
Toda Forma de Poder - Dado
Katia Flavia - Fausto Fawcet
Pros que estão em casa - Toni Platão
Lost in the supermarket - Philippe Seabra
Até quando esperar - Nasi
China Girl - Fausto Fawcet
Sexo e karatê - Herbert e Jander (guitarrista do Plebe Rude)
Popstar - Evandro Mesquita
Pressão Social - Redson
Será - Toni Platão




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